Setúbal e a cimenteira criar PDF versão para impressão
11-Dez-2006

"Mal-me-quer, bem-me-quer. As opções não devem ser tomadas ao acaso."
Mariana AivecaÉ esta a frase que antecede a linda gravura de um inocente malmequer branco, colocada com todas as boas técnicas de marketing, na contracapa duma revista da cimenteira Sécil despejada aos milhares pelas ruas de Setúbal, exactamente no dia em que o Governo anunciava o início da co-inceneração naquela cimenteira.
Se não fosse Setúbal uma cidade íntima da sua história, íntima da beleza da sua serra nobre e eloquente, do seu rio soberbo donde ressalta uma baía património mundial.

Se não fosse Setúbal uma cidade com passado resistente e heróico, onde as tentativas de ser escravizada por interesses alheios apenas movidos pelo lucro imediato e improdutivo de poderes distantes, muitos deles na base de autênticos embustes tentando sempre e sempre que esta se resigne, se sinta impotente, esmoreça, e diga simplesmente " se tem que ser..."

Não fosse o debate aceso e controverso mas clarificador das intenções de quem quer destruir mais e mais a serra, comendo-a até onde os seus recursos o permitam, clarificador das intenções de quem quer maximizar os lucros queimando óleos, solventes e as lamas oleosas de Sines.

Não fosse a contestação de quem quer exercer de corpo inteiro o direito de cidadania, de quem não aceita que lhe sirvam democracia apenas como um mero ritual administrativo.

Não fosse o inconformismo de quem tem denunciado todas as trapalhadas da " comissão científica independente", afinal tão dependente de interesses óbvios como são os dos senhores para quem este e outros governos têm sido tão generosos.

Não fosse tudo isto, esta revista de que falo, de tão boa qualidade gráfica e que logo no editorial publicita pela mão de Nuno Maia Silva os benefícios da co-incineração, seria mais uma produção bem sucedida com bem sucedidos são os apoios que a Sécil não se cansa de distribuir por colectividades instituições com o propósito claro de comprar simpatias e aliados. A verdade é que muitas delas foram deitadas pró lixo com a repulsa de quem sente que querem fazer-nos de tontos, de presa fácil vergada pela inevitabilidade das vontades de quem manda.

Porque o acaso das opções que referem na contracapa não são acasos, são passos estudados e têm a bandeira do lucro. Mas a verdadeira aliada da Sécil é a obsessão deste Governo, quando coloca no centro da sua estratégia para a resolução dos problemas dos RIPs a co-incineração.

Importa relembrar o caminho seguido pelo governo:

Em Fevereiro o Governo anunciou que, os primeiros testes de co-incineração de resíduos industriais perigosos (RIP) iam começar ainda este ano nas cimenteiras de Souselas e Outão. Na altura, o Ministro do Ambiente referiu que os CIRVER iriam ser o centro de todo o sistema, passando por eles todos os RIP.

Mas o que aconteceu foi que o Governo em primeiro lugar retirou dos Centros Integrados de Recuperação, Valorização e Eliminação de Resíduos (CIRVER) o exclusivo da preparação dos resíduos industriais perigosos (RIP) destinados à queima. Eis uma resposta à medida dos interesses manifestados pelas cimenteiras da Secil e Cimpor, conforme afirmou na altura o secretário de Estado do Ambiente.

Como se não bastasse dispensou as cimenteiras do Outão e de Souselas da Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) na queima de RIP, argumentando que essa avaliação já tinha sido feita em 1998 apesar das alterações legislativas ocorridas entretanto, e das condições actuais não permanecerem iguais.

Justifica ainda o Ministro do Ambiente a opção de co-incineração de óleos usados e solventes com a "inexistência em Portugal de entidades que façam a regeneração daqueles resíduos". Ora, em Portugal existe uma unidade em Pombal com capacidade para regenerar todos os solventes produzidos, bem como são vários os interessados em proceder à regeneração dos óleos, esta é uma questão é falsa.

Os verdadeiros aliados da Sécil são os que não se importando com a riqueza natural e única da serra da Arrábida, teimam em deixar delapidá-la apesar de fazerem muita propaganda ao tão enviesado Plano de Ordenamento.

Por isso tem toda a lógica, toda a legitimidade a contestação a este processo, tem toda a lógica e toda a legitimidade a exigência da saída da Sécil da serra da Arrábida, porque as gentes da cidade merecem que se rearquitecte, se reconstrua e se resgate o espaço da cidade exigindo uma cidade dinâmica e saudável, onde se inverta o mapa da inevitabilidade, das nuvens cinzentas dos rebentamentos das pedreiras.

Uma cidade onde um malmequer só deverá ter o sentido do " Bem-me-quer".

Mariana Aiveca

 
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