A (in)eficácia da contestação sindical criar PDF versão para impressão
12-Dez-2006

antonio_chora.jpgArtigo publicado no jornal Sol de 8 de Dezembro de 2006
A contínua ofensiva do Governo sobre os reformados, os desempregados e os trabalhadores em geral, levou ao aumento da contestação social.
O Governo planeou muito bem a sua estratégia, efectuando na prática uma ofensiva seleccionada, propagandeando que estava a retirar regalias em excesso, mas para piorar as condições de todos.
Os sindicatos foram respondendo a isto isoladamente. Os que eram atacados respondiam, os outros pensavam que não era nada com eles e deixavam-se estar no seu cantinho, tal como refere Bertolt Brecht no seu poema A indiferença

A primeira vez que os sindicatos organizaram uma resposta global à ofensiva governamental foi a de 12 de Outubro, com dezenas de milhares de trabalhadores, numa contestação como já não se via há muitos anos.

A partir desta manifestação deviam as centrais sindicais organizar uma resistência ao Governo, mobilizando os desempregados, os jovens e os reformados - as camadas da população que mais disponíveis estão e mais sofrem com as suas politicas - em manifestações constantes, vigílias e concentrações. Um Governo que inaugura a mesma obra, andar por andar, km por km, deve ser contestado, andar por andar, quilómetro a quilómetro.

A pressão e o desgaste sobre o Governo têm que aumentar, até que este recue nas posições de ataque que todos os dias lança sobre quem trabalha e sobre os desempregados e os reformados. Este é um Governo sem política social. A sua prática é a de nos tirar o almoço com a promessa de nos garantir o jantar, diria antes um jantarinho no futuro, talvez lá para 2009.

Para combater estas medidas, as centrais sindicais (e os sindicatos em particular) têm que questionar as alternativas existentes, que a meu ver, são apenas duas, o diálogo social ou a greve geral.

Parece-me que se deveria esgotar o diálogo social, não na premissa de uma competição entre sindicatos, a ver quem menos acordos assina, mas sim num esforço sério para os assinar, impedindo o governo de legislar: qualquer Governo de cariz neoliberal legisla sempre contra os mais fracos, e neste momento histórico, os mais fracos, - os que estão na defensiva - são os trabalhadores.

Na certeza de que não é possível uma negociação séria e honesta - em que patrões e sindicatos assumam compromissos de garantia de emprego, salários compatíveis com os níveis de vida, respeito pelos direitos dos trabalhadores e das suas organizações, direito à formação e à informação no local de trabalho, melhoria da produtividade e da qualidade - então a resposta só pode ser a luta e a greve.

Mas não as lutas e ou greves saturantes, desgastantes de energias e salários dos trabalhadores, que começam com a discussão do orçamento e acabam pelo Natal, recomeçam em Abril e acabam em Maio.

Se a greve geral for a única saída, então temos que deixar o improviso, hoje a luta sindical não se compadece com isso, exige estudo de situações concretas e de resultados concretos em todo o mundo.

Temos que saber como foram derrotadas algumas lutas e evitar seguir por esse caminho, aprender com as que triunfaram.

O tecido social para as lutas e a greve geral em particular é hoje muito diferente do que era a seguir ao 25 de Abril. Hoje prolifera o recibo verde (invenção portuguesa para a desresponsabilização patronal), os trabalhadores temporários e ou a contrato, que na maioria das empresas ultrapassam os efectivos.

Neste sentido a minha opinião é que a CGTP tem analisado positivamente a actual situação, com propostas de alternativa credíveis ás politicas do Governo. A mobilização do passado dia 25, mostra uma mudança inteligente na luta. Desgastar o Governo e não os trabalhadores (com descontos salariais) é o que se impõe de momento. Por isso muitos mais fins-de-semana de contestação são necessários, até que o "blairismo" seja afastado da política portuguesa seja pela greve geral seja pela contestação social.

António Chora

 
Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.