A herança de Pinochet criar PDF versão para impressão
13-Dez-2006
Rui BorgesA morte de Pinochet representa o fim de uma era na política chilena ao desaparecer de cena o homem que durante 17 anos impôs ao país um regime de terror. O assalto de Pinochet ao poder em 11 de Setembro de 1973, como é bem sabido contou com a cumplicidade activa da CIA. Nessa época a grande preocupação da política externa americana era o combate ao comunismo. Com a guerra do Vietname a aproximar-se de um final desastroso para a Casa Branca, a experiência socialista de Allende era ainda mais intolerável e todos os métodos eram válidos para lhe pôr fim. Mas o regime de Pinochet foi muito mais além de combater o comunismo. Transformou o país no laboratório de ensaio de uma nova experiência económica que se tornou a herança que o mundo recebeu de Pinochet: o neoliberalismo. Mas voltemos um pouco atrás na história. A partir do final dos anos 50 e até 1970 um programa de bolsas de estudo levou cerca de uma centena de estudantes chilenos para a Faculdade de Economia da Universidade de Chicago. Estes jovens economistas recebiam formação dirigida por Arnold Harberger e Milton Friedman (falecido a 16 de Novembro). As ideias de Harberger e Friedman eram radicalmente contra qualquer intervenção estatal na economia, vendo no estado social a destruição das liberdades individuais e a ameaça do socialismo. Foi nesse espírito que formaram a nova elite da economia chilena.

De regresso ao Chile, estes economistas começaram a ocupar lugares nas universidades, a pôr de lado os defensores das políticas keynesianas, e criar institutos para promoção do mercado livre. A eleição de Allende e o grande movimento social que se lhe seguiu foram tempos difíceis para os Chicago boys. Mas o golpe militar de Pinochet veio restaurar a fé dos novos profetas do mercado.

À medida que a crise económica chilena se intensificava os Chicago boys e as suas teorias da "terapia de choque" iam ganhando a atenção do ditador. Em Março de 1975 o próprio Milton Friedman visita o Chile para tentar ganhar de vez Pinochet para as vantagens do mercado livre. A viagem foi um sucesso (para Friedman), passado apenas um mês sobre a visita o governo lançava o seu programa para controlar a inflação: liberalização dos preços de milhares de produtos, fim de tarifas aduaneiras, privatização de centenas de empresas e o consequente despedimento de milhares de funcionários públicos, direito de as empresas estrangeiras repatriarem a totalidade dos seus lucros, fim das leis de protecção laboral, privatização do serviço de saúde e do sistema de pensões. Isto representou na prática a transferência de uma porção enorme da riqueza do país para as mãos dos mais ricos e miséria e desemprego generalizados entre a população. A ditadura chilena podia contar com a preciosa ajuda de uma polícia política perita na tortura e no assassinato para "convencer" os mais reticentes. O ideólogo deste ambicioso programa de redistribuição da riqueza, Milton Friedman, recebeu o prémio Nobel da economia em 1976.

As virtudes da nova economia seduziram Ronald Reagan e Margaret Tatcher que descobriram na "terapia de choque" de Friedman a solução para a crise económica. Hoje o programa económico de Pinochet faz as delícias de um largo leque político desde o conservadorismo reaccionário à esquerda moderna que só vêem a aplicação dos seus planos contida por obstáculos como a liberdade de expressão ou o sindicalismo independente.

Agora os pais do neoliberalismo estão mortos mas continuamos a carregar a sua pesada herança. Dizia Eduardo Galeano que Pinochet "tortura pessoas para que os preços possam ser livres". Com o neoliberalismo a espalhar a miséria pela Europa e pelo mundo esta definição assenta que nem uma luva ao actual dogma económico. Afinal de contas não poderíamos esperar amenidades de uma política que nasceu de um banho de sangue.

Rui Borges

 
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