Lafontaine e Gysi comentam subida do Die Linke criar PDF versão para impressão
18-Out-2009
Gregor Gysi e Oskar Lafontaine comentam resultado histórico do Die LinkeOskar Lafontaine e Gregor Gysi, respectivamente o porta-voz e o líder parlamentar do partido alemão Die Linke (A Esquerda), fazem aqui o primeiro balanço do resultado histórico obtido nas eleições legislativas. Pela primeira vez desde 1949, uma força política à esquerda da social-democracia alemã conseguiu um resultado de dois dígitos.

A Esquerda alterou o sistema alemão de partidos

Oskar Lafontaine

A Esquerda foi fundada há tão só dois anos. Tínhamos o objetivo de sair novamente reforçados com estas eleições ao Parlamento federal (Bundestag). Tínhamos o objetivo de entrar, ademais de nos parlamentos dos estados federados da antiga Alemanha oriental, em ao menos três parlamentos germano-ocidentais, com êxito. Superamos claramente nossos objetivos. Agora contamos com representação parlamentar em seis parlamentos dos estados federados ocidentais. Nas eleições ao Parlamento federal conseguimos em pouco tempo uma porcentagem de votos de dois dígitos. Pode se dizer sem exagero algum que A Esquerda modificou definitivamente o sistema de partidos alemão. Agora temos um sistema de cinco ou seis partidos.

Agora pensamos nas tarefas que teremos que enfrentar. Nenhum governo conseguiu até agora regular satisfatoriamente o setor bancário. De fato, preparam agora mesmo o próximo crash mundial, já que em nenhum lugar se pôs um freio a que a indústria financeira prossiga com seus negócios fatais. Não é um segredo para vocês que tanto os managers de Wall Street como aqui os banqueiros alemães dizem que prosseguirão atuando como até agora, com a diferença de que agora ninguém o notará do mesmo modo. Enfrentamos um enorme desafio, porque a crise atual já cobrou bilhões de vagas de trabalho, para nomear apenas seus principais efeitos. Que a política seja incapaz de reagir com uma regulamentação correspondente será fatal.

Ante esse pano de fundo, resulta um paradoxo que, numa época em que o estado passou a um primeiro plano e na que se postula inclusive uma regulamentação em nível mundial, e desde logo também em nível nacional, sobreviva e cresça uma força política que está fundamentalmente contra essas urgentes necessidades políticas. Os democrata-cristãos algo menos, mas os democrata-liberais estão sem dúvida na primeira linha. O que se necessita é de fato uma coalizão que afronte as tarefas de nossa época, notadamente a função do estado em nossa sociedade e especialmente a redefinição de uma regulação dos mercados. Resulta entristecedor que não seja isso o que se tenha produzido. Agora todos os olhos estão postos sobre a social democracia alemã, que sofreu uma de suas piores derrotas eleitorais ao ter sido incapaz de levar seus próprios votantes às urnas.

Com a maioria resultante, CDU-FDP, há de se ver com clareza até que ponto podem cortar o já de por si desmatado campo dos direitos sociais. O Bundesrat (conselho federal, câmara alta) jogará um papel determinante nessa questão. Influirá no raio de ação da política alemã e com isso também na atitude da social democracia em cada estado federado. No Sarre já deram sua resposta. Não creio necessário insistir nessa questão. Como terminará em Brandenburgo, já o veremos. Como terminará em Turingia, já o veremos.1 Em cada caso, os social-democratas terão que se perguntar acima de tudo mais se realmente querem deter os temidos cortes sociais. O que ocorrer daqui a pouco na Renânia do Norte-Westfalia será decisivo. A importância da maioria no Bundesrat para a política federal fará com que as eleições de maio próximo se convertam em umas pequenas eleições ao Parlamento federal.

Continuaremos nosso caminho com um programa de vanguarda, apesar das hostilidades e das informações incorretas dos meios de comunicação. Li de muitos comentaristas que A Esquerda faz as perguntas adequadas, mas não tem nenhuma resposta para as mesmas. Um comentário como esse o faz alguém em razão de sua experiência. Por isso temos ainda um caminho por adiante para andar. Deveria destacar-se que, durante o trecho final da campanha eleitoral, o SPD e a CDU tomaram por igual propostas de A Esquerda, declarando querer evitar a especulação da bolsa e a financeira. Pouco antes das eleições propuseram um imposto para as transações na bolsa, que existe efetivamente em muitos países de todo o mundo onde se quer que as transações financeiras sejam taxadas. Tudo isso são propostas de A Esquerda. Recordo-lhes uma vez mais algumas das propostas que apresentamos em dois de nossos congressos: necessitamos uma alternativa ao dólar como moeda de referência nos mercados internacionais. Reputados economistas nacionais apóiam essa proposta. Desde aqui lhes prognostico que no mais tardar em três anos o resto dos partidos adotará essa proposta.

Por último, pedimos que a nova coalizão cesse definitivamente o abuso antidemocrático de se permitir que os serviços secretos vigiem A Esquerda. Peço ao novo governo, desde aqui, que cesse com essa atitude antidemocrática. O FDP porá à prova sua credibilidade como partido defensor das liberdades individuais se continua permitindo ou não essas práticas próprias de uma república bananeira. Indico, para terminar, que mais de cinco milhões de votantes nos encomendaram uma tarefa em nossa democracia parlamentar e que o comportamento do governo Merkel até o momento tem sido completamente inaceitável.

Nota:

1 O SPD de Turingia formará finalmente, e contra sua base, uma coalizão com a CDU. "Wut über Votum für Schwarz-Rot", tageszeitung, 1 de octubre de 2009.

[Declaração de Oskar Lafontaine na roda de imprensa pós-eleitoral celebrada na Berliner Kulturbrauerei.]

Oskar Lafontaine é porta-voz do grupo parlamentar de A Esquerda no Bundestag.



Eleições na Alemanha: a espetacular subida de A Esquerda, um fato sem paralelo

Gregor Gysi

Damas e cavalheiros, já disse ontem: realmente nos encontramos ante um fato sem paralelo na história da Alemanha. Desde que se fundou a República federal em 1949, nenhuma força política à esquerda da social democracia obteve em eleições ao Parlamento federal uma porcentagem de dois dígitos. Trata-se de uma mudança importante, porque especialmente nos estados federados da antiga Alemanha ocidental se davam sérias dificuldades para estabelecer contatos com um partido à esquerda da social democracia, e em parte seguramente se seguem dando. Sem embargo, conseguimos ali uma aceitação assombrosa. Assim vejo eu os resultados em cada um dos estados federados de todo o território. Estamos acima do 5% dos votos em todos os estados germano-ocidentais e no Este nos convertemos praticamente no partido mais forte. Isso é digno de menção. Até agora, nunca havíamos alcançado algo assim.

Em segundo lugar, queria dizer que creio ter boas razões para pensar que iniciamos uma mudança na sociedade alemã. É quase impossível que o SPD permaneça na linha que manteve até agora. Desde Schröder, foi perdendo sua identidade social-democrata e agora há de decidir se quer ir na rabeira da CDU ou se quer converter-se de novo num partido social-democrata.  Veremos uma re-social-democratização? Suponho que então começará a segunda parte do processo. Não sei se será complicado, não sei quanto durará, mas sem dúvida será mais fácil sentando-se o SPD nas bancadas da oposição. Se se sentasse nas do governo, a reestruturação seria claramente muito mais difícil - sendo muito cauteloso com essas formulações.

Também creio que os Verdes não saíram inteiros de tudo isso. Tampouco a CDU. No FDP se deu outra coisa. É um caso completamente distinto. Saiu, creio eu, injustamente reforçado. Mas também creio que finalmente nas próximas eleições veremos uma correção.

Realizamos uma campanha eleitoral muito comprometida. Com toda a segurança, milhares de afiliados e simpatizantes lutaram e sem um só deles não teríamos levado a cabo uma campanha eleitoral tão apaixonada e comprometida, e muito menos logrado os êxitos que colhemos. Isso se deve a algumas pessoas, às quais queríamos aqui mencionar. Queria agradecer o diretor de nossa campanha, Dietmar Bartsch, por seu compromisso, e queria também agradecer a Claudia Gohde, do comitê executivo do partido, que tanto fez por esses resultados. Desgraçadamente, costuma-se esquecer numa noite eleitoral a quem conseguiu bons resultados com seu trabalho. Eu não queria esquecê-los hoje.

No Parlamento federal continuaremos na oposição. Seguiremos sendo percebidos pelos demais como um transtorno. Tampouco há que se fazer uma tragédia. Nós não temos que nos redefinir, como terá de fazê-lo o SPD, e já temos perfiladas em nosso programa eleitoral  todas as questões que são as que nos fizeram mais fortes. No só temos agora um número maior de deputados, senão que por essa mesma razão estamos ligados a um compromisso maior, e isso vale tanto para o trabalho no Parlamento federal como para o existente fora dele. Tudo isso soa quiçá fácil, mas não é, desde logo. Mas me alegra nos vermos com esse considerável desafio. Ademais, nosso grupo parlamentar está composto de uma maneira tal que reflete excelentemente o pluralismo existente no seio do nosso partido. Tem graça, pois é algo assim como realizar ali uma Reunificação, mas de veras, como a que já se dá em nosso partido.

Satisfazem-me igualmente os resultados eleitorais nos estados federados, especialmente no estado de Brandenburgo. Tenho de dizer que estou um pouco orgulhoso de todos os ataques que recebeu e que teve que encarar nossa candidata em Schleswig-Holstein [Antje Jansen, antes nos Verdes]. Quero agradecer especialmente a ela, porque se trata do décimo-segundo estado federado em que já temos representação parlamentar. Faltam ainda quatro e conseguiremos nos quatro. E, desde logo, temos a Renânia do Norte-Westfalia. Ali nos esforçamos. No ano que vem, todavia, nos esforçaremos ainda mais. Depois, ainda temos que entrar na Renânia do Norte-Palatinado, Baden-Württemberg e, para terminar, na Baviera. E, quando entrarmos na Baviera, então lhes devo uma a todos vocês.

[Declaração de Gregor Gysi na roda de imprensa pós-eleitoral celebrada por A Esquerda na Berliner Kulturbrauerei.]

Gregor Gysi é presidente do grupo parlamentar de A Esquerda no Parlamento federal alemão.

Fonte: Sin Permiso

http://www.socialismo.org.br/portal/internacional/38-artigo/1180-eleicoes-na-alemanha-a-espetacular-subida-de-a-esquerda-um-fato-sem-precedentes


 


 
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