O dólar a afundar-se criar PDF versão para impressão
21-Jul-2009

Immanuel WallersteinQuando o primeiro-ministro Wen Jiabao da China disse em Março de 2009 que estava “um pouco preocupado” acerca do estado do dólar norte-americano, estava a ecoar o sentimento de estados, empresas e indivíduos em todo o mundo. Ele apelou aos Estados Unidos “a manterem o seu bom crédito, a honrarem os seus compromissos e a garantirem a segurança dos bens chineses.”

Mesmo há cinco anos, este pedido teria parecido muito arrogante. Agora parece “compreensível” mesmo para Janet Yellen, a presidente do Banco da Reserva Federal de São Francisco, apesar de considerar que as propostas da China referentes à reservas mundiais de moeda estão “longe de ser uma alternativa prática”.

Há apenas duas formas de armazenar riqueza: em estruturas físicas reais, e nalguma forma de moeda (moeda propriamente dita, títulos, ouro). Ambas trazem riscos para o seu dono. Estruturas físicas deterioram-se a menos que sejam usadas, e usá-las envolve custos. Utilizar estas estruturas para obter rendimento e consequentemente lucros depende do “mercado” – quer dizer, da disponibilidade dos compradores quererem comprar o que as estruturas físicas possam produzir.

Estruturas físicas são pelo menos tangíveis. Dinheiro (que é denominado em números) é meramente uma invocação potencial de estruturas físicas. O valor dessa invocação depende desta relação de intercâmbio com as estruturas físicas. E esta relação pode e deve variar constantemente. Se variar pouco, dificilmente alguém se dará conta. Mas se variar considerável e frequentemente, os seus detentores ganham ou perdem muita riqueza, muito rapidamente.

Uma reserva monetária, em termos económicos, nada mais é que a forma mais confiável de dinheiro, a que menos varia. Por isso, é o lugar mais seguro para armazenar qualquer riqueza que se possua e não esteja na forma de estruturas físicas. Desde 1945, pelo menos, a reserva monetária mundial tem sido o dólar americano. Ainda é o dólar dos EUA.

O país que emite a moeda de reserva tem uma vantagem única sobre todos os outros países. É o único país que pode legalmente imprimi-la, sempre que achar que é do seu interesse fazê-lo.

As moedas têm taxas de câmbio com outras moedas. Desde que os Estados Unidos acabaram com a sua taxa de câmbio fixa com o ouro em 1973, o dólar tem flutuado contra outras moedas, para cima e para baixo. Quando a sua moeda cai em relação a outra, torna mais fácil a venda das suas exportações, porque o comprador destas exportações precisa de menos da sua própria moeda. Mas também torna as importações mais caras, já que requer mais dólares para pagar pelo bem importado.

No curto prazo, uma moeda enfraquecida pode aumentar o emprego em casa. Mas esta é, na melhor das hipóteses, uma vantagem de curto prazo. A médio prazo, há maiores vantagens em ter a chamada moeda forte. Quer dizer que o detentor de tal moeda tem um maior controlo da riqueza mundial medida em estruturas físicas e produtos.

A médio prazo, as moedas de reserva são moedas fortes e querem permanecer fortes. A força de uma moeda de reserva deriva não só do seu controlo sobre a riqueza mundial, mas também do poder político que aufere no sistema-mundo. É por isto que a moeda de reserva mundial tende a ser a moeda da potência hegemónica do mundo, mesmo que se trate de uma potência hegemónica em declínio. É por isto que o dólar dos EUA é a moeda de reserva do mundo.

Por que está, então, preocupado o primeiro-ministro Wen? Claramente porque nas últimas décadas a taxa de câmbio do dólar dos EUA tem flutuado muito, mas, globalmente, tem declinado lentamente. Um dos principais factores é a dívida global do governo dos EUA, que tem subido incrivelmente. Há duas formas pelas quais os Estados Unidos têm conseguido equilibrar as suas contas. Imprime moeda e vende títulos do Tesouro dos EUA, principalmente a outros governos (chamados fundos soberanos).

Não é segredo que em anos recentes o maior comprador de títulos de tesouro foi a China. Não é o único. Japão e Coreia do Sul, Arábia Saudita e Abu Dhabi, Índia e Noruega compraram todas títulos do Tesouro dos EUA. Mas hoje a China é a maior compradora e, dada a actual contracção do crédito, a China é a única das poucas prováveis compradoras no futuro imediato.

O dilema para a China, assim como para outros que investiram em títulos do Tesouro dos EUA, é que se o dólar declinar mais ou se houver inflação significativa devido à emissão de moeda pelos Estados Unidos, o seu investimento em títulos do Tesouro pode fazê-los perder dinheiro. Por outro lado, que alternativas têm a China ou outros?

A conclusão política que a China (e outros compradores) estão a retirar é um firme mas contido desinvestimento. Querem que não seja tão rápido que cause uma “corrida aos bancos”, mas não tão lento a ponto de serem os últimos a fechar a porta – “antes do estouro”, como titula o artigo de W. Joseph Stroupe no Asia Times.

A China está a reduzir a compra de títulos do Tesouro dos EUA, e prefere agora comprar títulos de mais curto-prazo do que de prazo mais longo. A China está a entrar em “swaps cambiais” [troca mútua de moedas diferentes] com outros países, como a Argentina, de forma a que nenhum deles tenha de usar dólares nas suas transacções. E a China está a propor a criação de uma reserva monetária alternativa baseada nos Direitos de Saque Especiais (DSE) criados pelo Fundo Monetário Internacional, que se baseiam num cabaz de moedas. A Rússia apoiou esta proposta.

Os Estados Unidos não estão seguros em relação a qual a melhor resposta a dar. Quando o Secretário do Tesouro Timothy Geithner disse que o governo dos EUA está “bastante aberto” à proposta da China de aumentar o uso de DSEs, o dólar imediatamente caiu no mercado monetário. Por isso, Geithner logo “esclareceu” o que tinha dito. O dólar permanecia a “reserva monetária dominante” e isto “provavelmente vai continuar por um longo período”. Insistiu que “faremos o que for necessário para assegurar que temos confiança nos nossos mercados financeiros, e na capacidade produtiva deste país e nos nossos fundamentos de longo-prazo.”

Geithner está só a assobiar no escuro? Mais importante, quem acredita que o que ele diz é plausível? A chave da força de uma moeda não é os chamados fundamentos, mas a “fé” na realidade destes fundamentos.

Todos os actores principais têm esperança de que possa haver uma aterragem suave, uma transição ordeira para fora do dólar norte-americano. Ninguém quer precipitar uma queda livre, porque ninguém está certo de sair em frente se tal acontecer. Mas se o estímulo dos EUA se vier a demonstrar a última das bolhas, o dólar pode bem deflacionar subitamente numa forma muito caótica. A expressão usada para dizer “estouro” [stampede] em francês é "sauve-qui-peut", cuja tradução literal é “salve-se quem puder.”

Immanuel Wallerstein

Comentário nº. 257, 15 de Maio de 2009

Tradução de Luis Leiria

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.