À Lagardère criar PDF versão para impressão
25-Jul-2009

Alice BritoLagardère foi um herói de romances de capa e espada, daqueles que ocupavam os espaços de ócio de leitores entusiasmados e sonhadores, cada página uma aventura, cada capítulo um pedaço da intriga em que a respiração se suspendia e o coração batia desenfreado.

Ouviam-se então saídos dos parágrafos, os barulhos da noite que se ocultava nas capas dos embuçados, sentindo-se também o ruído arrepiante do ferro de espadas entrecruzadas, sendo que muitas vezes, sem grande esforço, se conseguiam ver os duelos ferozes que quase manchavam de sangue as lombadas aflitas.

Lagardère era nessa altura um cavaleiro arrojado e visionário que não conhecia limites, saltava muros, arrombava portas, entrava onde queria, num atrevimento reiterado, numa ousadia excessiva dada a segurança com que se movimentava em terreno quer próprio quer alheio.

Marcou um estilo.

Como tudo na vida, os traços desse estilo hoje decadente, foram sendo apropriados e pervertidos por algumas criaturas que habitam a noite de todos os regimes.

O Portugal deste terceiro milénio está pejado de Lagardères adulterados.

Falta-lhes a elegância que o Lagardère autêntico punha na audácia, mas sobra-lhes o desplante, que o cavaleiro não usava, porque sincero e idealista; falta-lhes a verticalidade que o fundo romântico do espadachim lhe conferia, mas sobra-lhes a manobra, a trama, o bastidor, o gabinete secreto, o dossier urdido e despeitado, sobra-lhes a sombra; falta-lhes a rectidão do olhar limpo que sempre têm os combatentes das grandes causas, mas sobra-lhes o perfil interesseiro de quem não dá ponto sem nó, o calculismo frio do negócio nublado, o desinteresse pelas vítimas que tropeçam na cavalgada de todos os comércios.

Lagardère, cavaleiro andante, combatia com garbo pela verdade e pela justiça.

Estes Lagardères do Portugal coevo são os novos legionários dos negócios. São os grandes utentes das árvores de todas as patacas que os governos amigos vão plantando, a eito, à Lagardère, lambuzando-se depois com os ganhos, benefícios, favores, que lhes escorrem abundantes pelas testas, pelos bolsos, pelas adjudicações, pelos olhos, pelos pactos leoninos, em que são obviamente os reis da selva, sendo os estados a carne fresca para a pitança.

Destes novos e avariados Lagardères conhecemos bem de mais as ousadias e boçalidades contra os mais fracos, cada medida uma espadeirada no coração do estado social, cada passada ágil uma emboscada ao bolso da vida dos contribuintes.

Mas do Lagardère do antigamente nem miolo, nem substância, nem verdade nem justiça. Só restou a espada e a pluma com que assinam os contratos. E muitas luvas.

Alice Brito

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