Ser sindicalista da década de 90 criar PDF versão para impressão
02-Ago-2009

Daniel BernardinoSer sindicalista na conjuntura actual é como estar na corda bamba, conseguindo manter o equilíbrio entre as dificuldades sentidas, pelos trabalhadores, e os efeitos que esta crise financeira devastadora está a causar em toda a sociedade e, muito em particular, da transformação a que sociedade tem sido sujeita pelos efeitos da globalização, em particular, desde a década de 90 até aos nossos dias, tendo conhecimento do que aconteceu antes desta década na sociedade portuguesa.

Ser coordenador de uma Comissão de Trabalhadores e sindicalista em simultâneo e estar numa multinacional, na actualidade, inserido num Conselho de Empresa Europeu, com acesso a informação internacional mais aprofundada e partilha de diferentes realidades com pessoas diferentes, no mundo do trabalho, de outras sociedades e culturas, faz com que as responsabilidades sejam acrescidas porque estamos na posse de muita e importante informação, principalmente se estamos na empresa a tempo inteiro como é o meu caso. Aprofundam-se os conhecimentos sobre a gestão da empresa a nível local e internacional, exerce-se o controlo de gestão, acedemos às contas resultados da empresa e avaliamos as mesmas, trabalhamos com sindicatos como a IGMetal (o maior sindicato Alemão) ou a CGT Francesa (o maior sindicato FrancEs), e verificamos existirem pressões externas, neste parque industrial, para condicionar o nosso trabalho com intuito de fazer a luta pela luta, temos de saber manter o equilíbrio e prestar as melhores e mais credibilizadas informações aos trabalhadores se a luta ou a firmeza a que os pretendem propor trará os resultados pretendidos.

Saber ponderar quais os interesses dos trabalhadores e os interesses externos a estes, é fundamental estarmos muito bem informados, para o desenvolvimento do trabalho nas empresas. Quando estamos na posse da informação que pode ter influência no futuro dos trabalhadores, da empresa, e conhecemos as consequências que algumas decisões podem ter na sociedade é importante estarmos muito bem suportados, pois o trabalho que se realiza internamente reflecte-se depois externamente.

Este tem sido um dos paradigmas que me têm conduzido ao longo de cerca de 15 anos na representação dos trabalhadores, ou seja, porque sou um sindicalista da década de 90 e não da década de 70 e cheguei à conclusão, na época em que vivemos, tudo aquilo que desenvolvemos no nosso trabalho não está apenas dependente das transformações na sociedade Portuguesa mas muito dependente da evolução social da Europa e do Mundo e da interdependência a que estamos sujeitos entre países.

Procurar o diálogo social junto dos responsáveis das empresas, junto dos trabalhadores e sindicatos, é essencial para atingir objectivos a que nos propomos, alguns atingem-se outros não, mas assim é a sociedade em que vivemos nem sempre perdemos e nem sempre vencemos, e nem sempre devemos estar na luta pela luta, quando sabemos à partida que os objectivos de vencer essa luta pode ter consequências que a própria vitória nos pode vir a proporcionar serem posteriormente desastrosos. Devemos sempre saber medir quais os efeitos imediatos a médio e a longo prazo do trabalho que realizamos.

Foram estas algumas das razões que me levaram a estar presente, na passada quinta-feira, em conjunto com os membros das Comissões de Trabalhadores, António Chora da Autoeuropa, Luis Peixe da Webasto e António Costa da Schnellecke, numa reunião com o Ministro do Trabalho, o Secretário de Estado do Emprego e Formação Profissional e o Secretário de Estado da Segurança Social no Ministério do Trabalho em Lisboa onde apresentámos as nossas preocupações e as dificuldades que estamos a sentir no parque industrial da Autoeuropa em todas as empresas e fazer sentir que nunca desistimos de obter um diálogo social para resolver os nossos problemas.

Constituímo-nos como uma coordenadora das Comissões de Trabalhadores daquele parque industrial porque somos sindicalistas da década de 90 e entendemos que temos uma visão diferente daquela que era a década de 70, porque os tempos mudaram e as pessoas também. Achamos que devemos ser pró-activos no desenvolvimento do trabalho que realizamos com regularidade e não fazemos o nosso trabalho em função de calendários políticos ou com ideologias políticas que nos influenciem. A sociedade e as suas transformações fazem-se no espaço e no tempo em que somos os seus actores sociais.

Daniel Bernardino, coordenador da Comissão de Trabalhadores da Faurecia, dirigente sindical do Sinquifa - Parque Industrial Autoeuropa

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