A crise não acabou criar PDF versão para impressão
13-Ago-2009

 

João RomãoA imprensa de hoje revela que metade dos países da zona Euro registaram crescimento económico no segundo trimestre de 2009, invertendo a tendência negativa que se tinha verificado nos três trimestres anteriores. Mesmo assim, no seu conjunto, os países da moeda única registaram uma contracção de 0,1%. Portugal está entre os países que cresceram, com uma taxa de 0,3%.

No mesmo dia, também se ficou a saber que a taxa de desemprego em Portugal deverá ultrapassar os 9% no segundo trimestre do ano, pondo em evidência o que já se sabia: o desemprego continuará a aumentar mesmo quando já se registam sinais de recuperação económica e os efeitos positivos do crescimento sobre a criação de emprego só se vão verificar mais tarde.

Esta é uma situação particularmente grave em Portugal, onde grande parte dos desempregados não tem direito a qualquer subsídio. Pelo contrário, em tempo de crise, o estado espanhol criou um fundo que garante a todos os trabalhadores um apoio que lhes assegura algum rendimento, mesmo que já não tenham direito ao subsídio de desemprego. É o mínimo que se pode esperar de uma sociedade civilizada, mas mais do que se pode esperar do governo socialista em Portugal.

Outro sinal da brutalidade da crise social que Portugal continuará a viver é o da devolução do IRS retido aos trabalhadores independentes: duas mil pessoas que fizeram os seus descontos ao longo do último ano não podem receber os montantes a que têm direito porque as empresas que os contrataram não entregaram as verbas devidas ao Estado. Os trabalhadores independentes são também os que não têm direito a férias ou a protecção na doença e que estão mais vulneráveis aos despedimentos em tempo de crise.

A inversão da tendência do ciclo económico que se começa a desenhar na economia mundial decorre de uma intervenção pública que resgatou da crise o sistema financeiro, pagou a factura de muitas fraudes e contribuiu para repor alguma dinâmica na procura e nos mercados mundiais. Mas não respondeu às causas mais profundas da crise que ainda se atravessa: poderá ajudar a alimentar um novo ciclo de algum crescimento mas não evitará uma nova recessão, num prazo talvez não muito longo.

Como evidenciaram muitos economistas, e é claramente exposto nestas apresentações de Francisco Louçã e Jorg Huffschmid , a crise que atravessamos é uma crise capitalista de sobre-produção, associada a uma insuficiente procura, ligada a uma sucessiva perda de rendimento das classes trabalhadoras, que se prolonga desde os anos 80 e continuará pelos próximos tempos. As tendências de privatização, desregulamentação e financeirização da economia, no quadro de um comércio global cada vez mais livre, beneficiaram largamente o capital, que conseguiu assegurar lucros apesar da descida da acumulação, e penalizaram largamente o trabalho. Essa é a causa profunda da crise e está muito longe de ter ficado resolvida.

E em Portugal, há outra crise, a "crise velha" a que se juntou a "crise nova", como também sintetizou o Miguel Portas. A crise portuguesa tem que ver com um fraco padrão de especialização económica, desadequados níveis de qualificação profissional e dos empresários, falta de capacidade de inovação, sistemática desorientação estratégica, fraco nível de internacionalização, escassa produtividade.

A inversão do ciclo económico ajudará a respirar um pouco melhor mas é muito longo o caminho a percorrer, pela economia mundial e pela portuguesa, para se chegar a uma sociedade mais decente.

João Romão

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