Espaço público, pernas que te queremos! criar PDF versão para impressão
18-Ago-2009

Paula SequeirosUma das afirmações demagógicas dos conservadores é o da inutilidade dos investimentos no espaço público. Para eles só vale a pena o que dá lucro. Investir doutra forma é deitar dinheiro fora. As opções dos cidadãos deveriam resumir-se ao que podem (têm de) comprar e ainda ficar agradecidos a quem assim neles pensa.

Na cidade do Porto a Câmara de Rui Rio tem dado exemplos acabados de alinhar por esta lógica.

Desfez-se do Rivoli, para o entregar a quem o fizesse dar lucro. Curiosamente, La Féria já afirmou que afinal de contas aquilo não dá como lhe prometeram que iria dar. Entretanto continua a ocupar um espaço que faz falta no apoio à criação independente e a formas de teatro que sendo de qualidade, mas podendo não ser de tão fácil bilheteira, carecem de apoio acrescido.

Entretanto o espaço público minga, deteriora-se, fica cada vez mais abandonado, o lixo acumula-se.

Adeus Mercado, olá Centro Comercial!

Tentou desfazer-se do Bolhão - - o movimento popular de oposição levou a melhor, até ver pelo menos. Mas as obras de requalificação ainda não começaram, correndo-se o risco de que isso venha a ser usado junto das comerciantes, que desesperam pela falta de condições, pelos detractores da valorização do espaço público.

Arranja-me um terreno!

O Parque da Cidade, tão recente e tão «emblemático» que foi para este executivo, tem vindo a sofrer amputações sucessivas para os mais diferentes fins. Mas nunca de propriedade pública.

E a seguir dá outro...

Seguiu-se de perto a tentativa de entregar o Mercado do Bom Sucesso para outro Centro. tentativa encapotada com o pretexto, já usado no Bolhão, de que seria mercado com outras valias. Recorde-se que este terreno tinha sido doado à cidade para uso público. O projecto de arquitectura transforma um edifício de qualidade numa caricatura. E se alguém acreditar que se pode juntar num mesmo espaço hotelaria, comércio «gourmet», escritórios e continuar a chamar a isto um Mercado... Entretanto as propostas das actuais comerciantes e outras pretendentes ao espaço de abrir lá novos negócios de comércio de proximidade (como um cabeleireiro) foram todas liminarmente recusadas. Lá se vai o interesse pela iniciativa privada. Também aqui há uns privados que valem a pena e outros nem por isso.

Por este Rio... ia abaixo!

Como se isto não chegasse, os Jardins do Palácio de Cristal também estão ameaçados pela gula privatizante: pretende a Câmara alienar parte do espaço verde para construir edifícios de apoio a congressos empresariais. E também entregar a privados o Pavilhão Rosa Mota. Só por coincidência, com certeza, essas construções reclamam o melhor espaço, com as melhores vistas sobre o rio Douro, como o dirigente da Associação Empresarial Portuguesa declarou publicamente sem rebuços.

O espaço público da cidade está definitivamente ao assalto e seria moroso explicar aqui os vários subterfúgios de que o executivo se tem servido para tentar escapar ao que a lei estabelece em tais casos: vale tudo desde que se leve a água ao moinho de Rio.

Cuidado Casimiro!

A população está todavia alerta. Há muitas e muitos que lamentam não se ter levantado no momento em que a Avenida dos Aliados foi arrasada no seu desenho tradicional por outra solução imposta, como sempre, autocraticamente.

Há movimentos de cidadãos que estão a unir forças em torno duma memória colectiva e dum património que é também colectivo e contra essas medidas claramente beneficiadoras de uns poucos à custa daquilo que é de todas e todas. Foi para gerir o que é comum, por sinal, que eles foram eleitos. Mas fazem tudo menos isso: vender as jóias da família não é gerir, é comportar-se como o herdeiro rico que nada quer fazer, desprezando tudo e todos, que deita fora todo um passado e só quer o seu próprio bem e o lucro imediato.

Juntar forças pelo Porto!

Por isso nesta cidade precisamos de nos unir e de meter pernas ao caminho. O espaço público é nosso, representa anos de investimentos acumulados, de doações ao património colectivo, de arquitectura e de memórias vividas, temos o dever de o conservar, de o valorizar e de o passar às gerações futuras.

A iniciativa cidadã demonstra-se e consolida-se nestas lutas. O que se passou com o Bolhão prova que outro caminho é possível.

Paula Sequeiros

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