A quem pertence o porto de Acre? criar PDF versão para impressão
18-Ago-2009

Uri AvneryO antigo porto de Acre é hoje objecto de disputa feroz. Os habitantes árabes da cidade querem dar ao porto o nome de um herói árabe, Issa al Awam, um dos generais de Saladino, o líder muçulmano que derrotou os Cruzados. O município de Acre, o qual, é claro, é controlado pelos habitantes judeus da cidade, decidiu dar ao porto o nome de um burocrata israelita.

Os cidadãos árabes ergueram um monumento ao seu herói. O município declarou o monumento "estrutura ilegal" e decidiu deitá-lo abaixo.

Bem poderia ser pequeno conflito local, um dos tantos nessa cidade confusa e cheia de conflitos, se não tivesse tantas e tão profundas implicações ideológicas e políticas.

Amo a velha Acre. Para mim, é a mais bela e mais interessante cidade da região, depois de Jerusalém Leste.

Acre é das mais antigas cidades da região, talvez de todo o mundo. É mencionada na Bíblia, no primeiro capítulo do livro dos Juízes (o qual, aliás, contradiz completamente o Livro de Josué, genocida.) O capítulo enumera as cidades canaanitas que não foram conquistadas pelos Filhos de Israel. Permaneceu cidade fenícia, um dos portos dos quais os intrépidos marinheiros que falavam hebraico partiram para colonizar as costas do Mar Mediterrâneo, de Tiro a Cartago.

A fama de Acre alcançou o ponto máximo no tempo das Cruzadas. Era o único porto da região que podia ser usado durante todo o ano, nas quatro estações. Os Cruzados só conseguiram ocupá-lo depois de derrotar uma defesa vigorosíssima. Um século depois, quando o grande Salah-ad-Din (Saladino) expulsou os Cruzados de Jerusalém, expulsou-os também de Acre. Os Cavaleiros da Cruz recapturaram Acre e, por outros cem anos foi capital do reduzido Estado dos Cruzados. Em 1291, quando os remanescentes do reino dos Cruzados foram definitivamente varridos de lá, Acre foi a última cidade a ser conquistada pelos muçulmanos. A imagem dos últimos cavaleiros Cruzados e das suas mulheres, sendo atirados das muradas do cais de Acre ficou gravada na memória do tempo e deu origem à expressão "lançar ao mar", usada até hoje.

Adiante, prosseguiu a atormentada história de Acre. Um chefe beduíno, Daher al-Omar, tomou a cidade e ali criou uma espécie de semi-Estado independente da Galileia. E até Napoleão, dos grandes guerreiros da história, chegou a sitiar o Egipto em 1799, mas foi fragorosamente derrotado pelos árabes, auxiliado pelos marinheiros britânicos.

Os britânicos tornaram-se senhores da terra em 1917, converteram a imponente fortaleza de Acre em prisão, na qual foram encarcerados os líderes dos movimentos israelitas clandestinos, dentre outros. Numa das suas acções mais ousadas, o Irgun invadiu a fortaleza e libertou os prisioneiros. Em 1947, o exército israelita conquistou a cidade que, até então, era completamente árabe.

A parte antiga da cidade, com os seus belos minaretes e fortificações dos Cruzados, continuou a ser árabe. E também o porto, onde hoje trabalham pescadores. Mas à volta dessa parte da cidade, cresceram as construções para os judeus, sem rosto como muitas outras centenas de áreas em toda a Israel; mas esses judeus são hoje a maioria. E não gostam muito dos vizinhos árabes.

De tempos a tempos eclodem querelas entre judeus e árabes. Os moradores árabes entendem que Acre é cidade sua desde tempos remotos; e que os judeus são intrusos. Os judeus entendem que a cidade pertence a eles e que os árabes seriam, no máximo, uma minoria tolerada que melhor faria se calasse a boca.

Hoje, a disputa aproxima-se perigosamente do confronto directo violento.

Em todas as disputas entre judeus e árabes em Israel, surge sempre a mais infantil e tola das perguntas: "Quem chegou primeiro?"

O árabes conquistaram a região, chamada de Jund Filistin (distrito militar palestino) em 635 aC. Desde então, a cidade continuou sob lei muçulmana (excepto no período dos Cruzados), até a chegada dos britânicos. Os árabes, então, dizem que "nós chegamos primeiro".

A versão dos sionistas é diferente. Nos tempos bíblicos, a maior parte da região pertencia aos reis de Judeia e de Israel, embora a costa pertencesse aos fenícios no norte e aos filistinos no sul. (Apesar dos mais frenéticos esforços de pesquisa, há um século, jamais se encontrou qualquer evidência arqueológica a favor de qualquer êxodo do Egipto, de alguma conquista de Canaã pelos Filhos de Israel ou de algum reino de David e Salomão.) Desde o império de Ahab, cerca de 870 aC, Israel apareceria em bem atestados mapas históricos. Depois do exílio da Babilónia, os judeus dominaram partes da região, sempre em fronteiras 'móveis', até o tempo dos Romanos. Então... "Os judeus chegaram primeiro."

Se os israelitas já estavam na região antes dos muçulmanos, quem estaria lá antes dos israelitas? Os canaanitas, é claro. "Eles chegaram primeiro." Mas... quem fala pelos canaanitas?

Certa vez, escrevi uma peça satírica sobre "O I Congresso Canaanita" realizado em local não identificado. Os congressistas declaram que são descendentes dos habitantes originais da região e reclamam para si o controle sobre toda a área.

Não chega a ser completa piada. Nos primeiros anos do século 20, Yitzhak Ben-Zvi, que seria o segundo presidente de Israel tentou agregar os canaanitas ao sionismo. Pesquisou e descobriu que a população da região onde hoje vivem os israelitas praticamente não mudara desde tempos imemoriais. Os canaanitas mestiçaram-se com os israelitas, tornaram-se judeus e helenistas e, quando o império bizantino, que então imperava por aqui, adoptou o cristianismo, também se tornaram cristãos. Depois da conquista muçulmana, gradualmente foram-se tornando árabes.

Em outras palavras, uma mesma cidade foi canaanita, tornou-se israelita, passou por todos os estágios e, afinal, tornou-se árabe. Actualmente é palestiniana. Ou foi varrida do mundo em 1948 e substituída por uma colónia israelita. De facto, a população não mudou. Os topónimos também não mudaram. Cada novo conquistador trouxe consigo o seu novo conjunto de crença e a sua correspondente nova elite; mas a população local jamais mudou muito. Nenhum conquistador se interessou por varrer da terra os habitantes, porque os nativos eram fonte de rendas e de alimento. Na opinião de Ben-Zvi, os árabes-palestinianos são os verdadeiros descendentes dos antigos israelitas. Mas - quando o conflito Israel-Palestina se aprofundou e ganhou força -, essa teoria foi rapidamente esquecida.

Recentemente, alguns palestinianos adoptaram ideias semelhantes. Pela mesma lógica histórica, dizem que os árabes-palestinianos são descendentes dos antigos canaanitas e, portanto, "eles chegaram primeiro", antes, até, dos Filhos de Israel dos tempos bíblicos. O factor que alterou radicalmente a composição da população foi a ocupação sionista.

Os canaanitas e os antigos israelitas falavam diferentes dialectos de uma mesma língua semítica, hoje chamada "hebraico". Adiante, o aramaico tornou-se língua do país e, depois, o árabe. Na semana passada publicou-se uma nova investigação, que mostra que o dialecto sírio-palestiniano árabe vernacular,inclui várias palavras cuja origem está nos antigos hebraico e aramaico, e que não aparecem nos dialectos de outros países árabes. Evidentemente, essas palavras foram absorvidas no dialecto árabe nativo, há muitos séculos. São palavras do dia-a-dia de povos agrícolas; e é lógico supor que tenham entrado no árabe a partir do aramaico que substituíram.

Por que isso é tão importante? Em que medida altera a disputa pelo porto de Acre?

Li há muitos anos uma "História da Síria", do falecido professor árabe-norte-americano Philip Hitti, cristão maronita libanês. Nos termos históricos árabes, a Síria (a-Sham, em árabe clássico) incluiu, além da Síria dos nossos dias, também o Líbano de nossos dias; e, também, a Jordânia, Israel, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.

O livro causou-me longa e profunda impressão. Narra a história daquela Síria desde a pré-história, etapa após etapa, como narrativa contínua, que inclui canaanitas e israelitas, fenícios e filistinos, aramaicos e árabes, cruzados e mamelucos, turcos e britânicos, muçulmanos, cristãos e judeus. Todos estão inscritos na história da região; cada um acrescentou traços da sua cultura, da sua língua, da sua arquitectura, os seus palácios, fortalezas, sinagogas, igrejas, mesquitas e cemitérios. Todos quantos se interessem por paz e reconciliação devem considerar com muita atenção esse quadro.

Que história se ensina nas escolas dos dois povos - que, ambos, tem história móvel que transita pela paisagem?

Uma história dos judeus começa com "Abraão Nosso Pai" em terras que hoje são o Iraque e o êxodo do Egipto; os Dez Mandamentos recebidos no monte Sinai, hoje, no Egipto; a Conquista de Canaã, o rei David e outras lendas bíblicas ensinadas como se fossem história documentada. E continua, até à destruição do Templo por Tito e a revolta de Bar Kokhba contra os romanos; depois vem o "exílio", quase exclusivamente uma sequência de expulsões e perseguições, e os israelitas só voltariam à região com os primeiros colonos sionistas.

Essa história ignora tudo quanto aconteceu por aqui antes da era israelita, mas ignora também tudo o que aconteceu durante os 1747 anos entre o levante de Bar Kokhba em 135 dC e o início da colonização pré-sionista em 1882. Os alunos do sistema educacional israelita actual praticamente não sabem nada sobre a região durante todo esse tempo.

Quanto aos árabes, as coisas não são muito melhores. O quadro histórico palestiniano-árabe começa na península da Arábia, com o advento do profeta Maomé. Antes disso, foi a era da Jahiliyah ("ignorância"). Depois, a Palestina conquistada pelos muçulmanos. O que aconteceu antes de 635 dC não interessa à história.

Os alunos desses dois sistemas educacionais - o judeu-israelita e o muçulmano-árabe-palestiniano - crescem imersos em duas narrativas históricas completamente diferentes.

Sonho com o dia em que em todas as escolas na região, em Israel e na Palestina, judeus e muçulmanos, aprenderão não apenas as duas histórias mas, também uma história mais ampla que inclua todos os períodos e culturas.

As crianças aprenderão, por exemplo, que quando os Cruzados invadiram essa terra, muçulmanos e judeus se uniram contra o invasor e foram massacrados juntos. Aprenderão que em Haifa os judeus locais lideraram a defesa e foram honrados por seu heroísmo, até serem massacrados com os muçulmanos, lado a lado. Essa identificação com a história da terra onde vivemos pode oferecer base sólida para uma reconciliação entre os povos.

Há pouco mais de dez anos, inspirado pelo inesquecível Feisal al-Husseini, redigi um primeiro esboço de um Manifesto sobre Jerusalém para o "Grupo da Paz (Gush Shalom). Lá escrevi, num dos itens: "A nossa Jerusalém é um mosaico de todas as culturas, todas as religiões, todas as eras que enriqueceram a cidade, da mais remota antiguidade até ao presente - canaanitas e jebusitas e israelitas, judeus e helenitas, romanos e bizantinos, cristãos e muçulmanos, árabes e mamelucos, otomanos e britânicos, palestinianos e israelitas. Esses e todos os demais que contribuíram para a cidade têm lugar assegurado na paisagem espiritual e física de Jerusalém."

Nessa lista não se incluem os Cruzados, e não é por acaso. Os Cruzados estavam incluídos na versão original daquele parágrafo. Mas quando levei o manifesto a Emil Habibi, renomado professor árabe-israelita e o primeiro a assiná-lo, ele exclamou: "Não assinarei manifesto que inclua esses assassinos abomináveis!"

Praticamente tudo que se diga sobre Jerusalém vale também para Acre. A sua história também é contínua e pode ser acompanhada da pré-história até hoje. O general árabe Issa al Awam é parte dessa história, tanto quanto Ricardo "Coração de Leão", cruzado inglês, e tanto quanto, também, os combatentes Etzel que derrubaram os muros da prisão.

Uri Avnery

Publicado em Gush Shalom [Grupo da Paz], Israel

Tradução: Caia Fitipaldi, para Carta Maior

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