A reforma do sistema de saúde precisa de um herói criar PDF versão para impressão
31-Ago-2009

Amy Goodman Imaginemos o seguinte cenário. Estados Unidos, 2009. Dezoito mil pessoas morreram num ano, uma média de quase 50 por dia. Quem os está a eliminar? O que é que os está a matar?

Para investigar o caso, o Presidente Barack Obama poderia ver-se tentado a chamar Jack Bauer, o agente secreto sem escrúpulos da famosa série televisiva «24 horas», que emprega sempre a tortura e uma série de outras tácticas ilegais para ajudar o presidente a combater o terrorismo. Mas neste caso não é o terrorismo o culpado.

É a falta de assistência médica adequada. Então, quiçá a solução do presidente não seja Jack Bauer, mas o actor que interpreta esse papel.
O protagonista de «24 Horas» é representado por Kiefer Sutherland, cuja família tem conexões muito fortes com a reforma do sistema de assistência médica no Canadá. Sutherland é neto do falecido Tommy Douglas, o político canadiano pioneiro a quem se atribui a criação do moderno sistema de assistência de saúde canadiano. Na sua juventude, Tommy Douglas perdeu quase uma perna. A sua família não podia pagar o tratamento, mas um médico atendeu-o gratuitamente, com a condição de que os seus estudantes pudessem observar. Em adulto, Douglas viu o impacto da pobreza generalizada provocada pela Grande Depressão. Formado como pastor da igreja, tinha um estilo de oratória popular.

Ingressou na política e fez parte do partido da Federação Cooperativa do Commonwealth. Depois de vários anos no Parlamento, liderou a decisiva vitória de seu partido na província de Saskatchewan, o que o levou ao poder no primeiro governo social-democrata da América do Norte.
Douglas tornou-se governador de Saskatchewan e, aí, foi pioneiro na implementação de políticas progressistas, inclusive na expansão dos serviços públicos, na sindicalização e no seguro público dos automóveis. Mas a maior batalha de Douglas, pela qual é mais lembrado, foi a criação de um seguro de saúde público universal, denominado Medicare, que foi aprovado em Saskatchewan em 1962 e garantiu assistência médica para todos os habitantes. Os médicos da província fizeram uma greve que durou 23 dias e que contou com o apoio da Associação de Médicos dos Estados Unidos. Apesar da oposição da indústria, o programa Medicare de Saskatchewan teve tanto êxito e foi tão popular que foi adoptado em todo o Canadá. Enquanto Tommy Douglas lutava pelo sistema de saúde no Canadá, uma batalha similar decorria nos Estados Unidos. Essa batalha teve como consequência a aprovação dos programas Medicare e Medicaid, que garantiram a cobertura médica aos cidadãos de terceira idade e aos pobres, através de um sistema de pagador cívico.

Rush Limbaugh, Glenn Beck da Fox News e grupos financiados pela indústria dos seguros estão a incentivar as pessoas a interromper as reuniões com membros do Congresso nas sedes dos governos locais. Alguns dos confrontos foram violentos, ou pelo menos ameaçadores. Tirando um evento encabeçado pelo Presidente Obama em Portsmouth, New Hampshire, um manifestante com uma pistola atada à perna chamou a atenção com um cartaz que dizia «é a hora de regar a árvore da Liberdade». A citação completa de Thomas Jefferson, que não estava incluída no cartaz, diz o seguinte «com o sangue dos tiranos e dos patriotas». Rush Limbaugh diz que «24 Horas» é um de seus programas preferidos. Até visitou o set de filmagem. Rush deveria aprender com o actor que representa o seu herói, Jack Bauer. Limbaugh e seu séquito podem descobrir que a verdade não é tão satisfatória como a ficção.

Em 2004, um inquérito realizado pela Canadian Broadcasting Corporation nomeou Tommy Douglas como sendo o «Maior Canadiano» de todos os tempos. Em 2000, numa manifestação contra os esforços para rejeitar o sistema de Medicare na província de Alberta, Kiefer Sutherland defendeu o sistema político de pagador cívico do Canadá: «O sistema de assistência médica privado não funciona. Os Estados Unidos estão a tentar mudar o seu sistema. É demasiado caro conseguir assistência médica total nos Estados Unidos. Por que razão vamos adoptar o seu sistema aqui? Considero que é um tema humanitário. Este é um tema sobre o que está bem e o que está mal, o que é decente e o que não é.»

Quiçá Jack Bauer possa ser nossa salvação.

Publicado a 12 de Agosto 2009

Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna.
Tradução de Ana da Palma para o Esquerda.net

Amy Goodman é apresentadora de «Democracy Now!», um noticiário internacional diário de uma hora que emite em mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e em 200 emissoras em espanhol. É co-autora do livro «Standing Up to the Madness: Ordinary Heroes in Extraordinary Times».

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