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03-Set-2009

João Ricardo VasconcelosAs máscaras são adereços milenares no confronto político. O actor político utiliza-as consoante a cena em que se encontra, consoante a forma como gostaria de ser visto e entendido pela plateia, consoante o que ele considera que o público melhor apreciará naquele dado momento da sua actuação. A utilização de máscaras é inerente ao próprio fenómeno de comunicar. E se assim é na vida do dia-a-dia, é-o de forma naturalmente mais intensa na política.

A contemplação das máscaras em política é uma actividade interessante. A criatividade dos diversos actores e sobretudo a sua capacidade de se adaptar aos diversos cenários consegue ser uma arte digna de aplausos. Mas é nos períodos de campanha e pré-campanha eleitoral que esta arte melhor pode ser apreciada. E se na oposição alguns líderes não deixam de ser arrojados nas máscaras a que recorrem, é no partido que se encontra no poder e que procura a reeleição que a mestria assume traços hilariantes.

A forma e a velocidade com que Sócrates tem vindo a mudar de máscaras nos últimos tempos é formidável: ora temos um Sócrates arrogante, ora temos um Sócrates humano e delicado; ora temos um Sócrates do business, ora temos o Sócrates estatal, ora temos um Sócrates a transbordar de optimismo, ora temos um Sócrates cauteloso; ora temos um Sócrates da terceira via, ora temos o Sócrates esquerdalho, ora temos o Sócrates zangado, ora temos o Sócrates sensível. Temos tido um Sócrates pró menino e prá menina, um Sócrates à medida de cada português. Notável, sem dúvida.

Como é evidente, todos somos livres de apreciar máscaras, de nos divertirmos com estes bailes de máscaras e de acreditarmos nas máscaras que quisermos. Eu, por exemplo, julgo que por defeito de formação (Ciência Política), aprecio particularmente esta arte ao ponto de aplaudir a mestria de diversos actores. Sócrates merece-me uma particular consideração neste domínio.

Só há aqui um pequenito senão. É que estes meus aplausos são inversamente proporcionais à seriedade que atribuo aos actores em causa. São uma espécie de aplausos dirigidos a ilusionistas. Achamos-lhes graça precisamente pela capacidade que demonstram em iludir convictamente tudo e todos. Verdadeiros artistas, sem dúvida.

João Ricardo Vasconcelos, autor do blogue Activismo de Sofá

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