O que se espera das novas gerações de trabalhadores? criar PDF versão para impressão
07-Set-2009

Tiago GillotÉ uma pergunta com muitas respostas. Nenhuma curta crónica poderá chegar a esclarecimentos muito definitivos, é certo. Mas a pergunta interessa para mais do que um exercício de especulação: é essencial para quem quer romper os consensos sobre a inevitabilidade da exploração e as novas formas sobre as quais se apresenta.

O discurso dominante, com rostos técnicos e políticos - ora nas palavras e medidas dos governos, ora nos comentários produzidos em jornais e televisões -, anda com a "flexibilidade" na boca há vários anos. Nem a dureza da crise atenuou o descaramento. Insistem: o trabalho - aliás: o "mercado de trabalho" - não pode ser "como antes".

Então como imaginam governos e patrões por essa Europa fora, absolutamente de acordo sobre o essencial, a organização do trabalho para o futuro? Querem-nos a trabalhar cada vez mais e a receber muito menos. Propõem-nos "objectivos" em vez das funções e dos horários. Impõem-nos a informalidade em vez da contratação. Tudo a prazo ou nem isso. É a chantagem em vez dos direitos, porque "tem que ser", porque "a economia é assim", porque "temos que ser competitivos".

Esse futuro, diga-se, já começou há demasiado tempo. Confirmam-no as vidas que hoje já não conhecem outra alternativa para lá da intermitência precariedade-desemprego. Em Portugal, o resultado está à vista: metade da população activa não tem mais do que um vínculo precário ou está desempregada. São dois milhões de precários e mais de meio milhão de desempregados, que ilustram um desastre social revelador das consequências da aplicação autóctone do plano da ganância.

Aí está o que se esperam os poderosos dos novos trabalhadores. Dos novos e dos velhos, porque esta recomposição faz-se a ritmo acelerado e apanha toda a gente que pode pelo caminho. O plano é claro: impor a precariedade ao conjunto da classe trabalhadora, torná-la normal, a única referência possível. Assim se pretende aumentar a exploração e diminuir a capacidade de resposta e organização dos trabalhadores. Não tem nada que enganar.

A este respeito, Sócrates não deixou de cumprir obedientemente a sua missão. Ofereceu aos patrões um Código do Trabalho que esvaziou a contratação colectiva, facilitou os despedimentos e legalizou a precariedade para quem já a vivia. Atacou os funcionários públicos ou os professores. Fragilizou a Segurança Social, reduzindo a migalhas as perspectivas futuras.

Sócrates é hoje o representante desta ideia e espera levá-la, mal escondida, para um novo mandato: querem-nos a aceitar isto para sempre, isolados, chantageados e a chantagear involuntariamente todas as pessoas que ainda escapam ao inferno do desemprego, do recibo verde ou do trabalho temporário.

Mas a pergunta inicial não dispensa a auscultação de uma outra, complementar e ainda mais importante: perante as dificuldades e a desesperança do presente, perante a fragmentação e individualização das relações laborais, o que esperam as novas gerações de trabalhadores?

Conhecer estas respostas é decisivo e inadiável. É preciso arrancá-las ao medo e ao isolamento de milhões de pessoas, trazê-las para o combate de todos os trabalhadores e trabalhadoras.

E estas pessoas vêm falando cada vez mais. E falarão, por exemplo, também nesta campanha e nestas eleições, como o fizeram nas anteriores. Sócrates sabe, mas não quer perceber: por isso inaugura pomposamente mega-call-centers enquanto promete, com todo o descaramento, milhares de estágios na Função Pública (onde, já agora, se impõe vergonhosamente a precariedade a mais de uma centena de milhar de pessoas). Manuela Ferreira Leite conhece, mas não pode resolver: por isso se limita a dizer que "com esta política, será o desastre das futuras gerações", não percebendo que se está a denunciar a si própria e ao seu partido. Afinal, não se pode pedir mais criatividade a quem já esclareceu, durante demasiados anos, que só tem mesmo isto para oferecer.

No fundo, esperam pela nossa desistência. Talvez seja, para eles, a única alternativa. Deste lado, podemos responder com, mais do que "resistência", a esperança dum combate que, sempre reclamando mais força e todos os encontros, afinal, não está para acabar, ainda que alguns finjam prever-lhe um fim.

Tiago Gillot

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