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25-Set-2009

Mário Tomé Chegámos ao fim da campanha eleitoral. Apesar dos casos o Bloco não se distraiu e divulgou consistentemente o seu programa.

Chegamos ao fim com o PSD destroçado e o PS a tentar a maioria absoluta que os eleitores não lhe vão dar. O guru de Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira, a tirar o cavalo da chuva com a retórica empolada que não consegue esconder o oportunismo pusilânime de todo o seu comportamento no caso das "escutas". Enquanto a provocação funcionava foi o primeiro a usá-la e instigar Manuela a fazer disso cavalo de batalha. Depois da demissão de Fernando Lima, acusa Cavaco de ter entrado na campanha prejudicando o PSD. Jerónimo de Sousa na grande manifestação de força da militância do PCP no Campo Pequeno (6 mil fiéis) a responder encolhido à pergunta da jornalista sobre o que tinha a dizer pelo facto de o seu partido pelas sondagens ficar em quinto.lugar "Nós no PCP assumimos colectivamente as vitórias e os inêxitos".. Paulo Portas a perder as estribeiras quando confrontado com a aldrabice que lançou publicamente sobre a formação do governo pós eleições dando a entender que se PSD e CDS/PP tivessem juntos a maioria o PSD seria chamado a formar governo.

A literatura da inteligentsia política nunca foi tão fértil em lugares comuns cretinos.

O BE esteve sempre na berlinda, felizmente, erigido em inimigo público nº1 e perigo global para o sistema. Se o público forem estes do costume e o sistema for o do neoliberalismo e da crise aguda do capitalismo, tudo bem.

Agora o que é chato é chamarem-nos pré-históricos ou medievais. É, claro, uma hipérbole de gente sábia. O PREC é o seu grande fantasma. Uma boa parte nem sabe sequer o que foi o PREC e do 25 de Abril sabem muito pouco. Aprenderam na votação da RTP para o Salazar e na penúltima aula de história como manda o programa.

Mas dá para ameaçar com o PREC.

Pergunto: Será por causa do bombismo terrorista apoiado pelo PSD, o CDS e mais distraidamente pelo PS? Terà sido pela dificuldade em reconhecer a independência conquistada pelas colónias; ou pela democratização da posse da terra concretizada em toda a Europa "ocidental" há mais de um século? Ou pela suspensão do VI Governo Provisório como arma política contra a participação popular mais radical? Terá sido por o PPD (futuro PSD) e o CDS se proclamarem ansiosamente socialistas?

Ou porque a escola se democratizou e abriu as portas a todos? porque a educação, a informação, a electricidade e a saúde chegaram aos pontos mais recônditos do país? Terá sido porque as pensões e os salários subiram ao ponto de os trabalhadores terem confiança no presente e no futuro? Ou porque a Televisão nunca foi tão aberta, democrática e de qualidade como então?

Terá sido por causa da nacionalização da banca e dos seguros ( e empresas de que eram proprietárias - todas as grandes empresas) e da energia como travão ao golpe e à chantagem económica contra a democracia com apoio e inspiração dos financeiros e grandes empresários, os mesmos que hoje são responsáveis pela crise interna e pela internacional e global?

Ou porque a reversão dessas nacionalizações feita nos Governos do PSD de Cavaco Silva pagou aos antigos proprietários vindos do fascismo até ao décuplo do valor da cotação das empresas na Bolsa, esgotando as finanças públicas?

Pois bem, o Bloco não nasceu para repetir o PREC. Nasceu exactamente porque os que se lançaram nesta caminhada empolgante perceberam que as conquistas populares foram arrasadas porque à esquerda sobrava em dogmatismo e fundamentalismo (que Pacheco Pereira e José Sócrates por razões diferentes hoje tão bem alardeiam) o que faltava em pensamento teórico e compreensão do mundo que nascera com o fim da II Guerra Mundial.

O Bloco nasceu para libertar da ganga, do joio, mesmo de alguma patine aristocrática a luta por uma vida decente num mundo novo de justiça e igualdade, a luta pela democracia, a liberdade, o socialismo.

Não sei se foi a parte mais divertida da campanha, mas foi certamente a mais surpreendente:

ao fim de dez anos de existência e de assídua frequência nos actos legiferantes, nas lutas sociais e nas campanhas eleitorais, sempre em rampa ascendente de forma acelerada, ainda ninguém percebeu ou finge não perceber o que se passa com o BE.

Desde efémera e volátil associação inócua, passando pela desideologizada criação dos media, até à temível ameaça das políticas dogmáticas de antanho, o BE foi classificado de tudo pelos mais brilhantes analistas, politólogos, comentadores e mesmo actores políticos, numa girândola de atributos ou continuados tão diversa quanto a sua (deles) ignorância dos fenómenos sociais e da fertilidade da história dos nossos dias.

E não percebem que o nascimento do BE se dá numa fase já serôdia da evolução do actual sistema mundial, de incapacidade gritante das elites nacionais para lidar com os fenómenos da globalização , da decadência do sistema e da subordinação irracional ao imperialismo.

E não entenderam como foi possível diferentes matrizes ideológicas,e mesmo historicamente antagónicas, se poderem fundir num todo coerente que, à revelia de todas as profecias, surge e se desenvolve íntegro, dinâmico, interveniente, activo, até chegar aos dias de hoje capaz de disputar as políticas necessárias para responder aos problemas do país e tornar-se mesmo um factor com peso político indispensável também para a redefinição dos caminhos da esquerda europeia.

O Bloco de Esquerda nasce num tempo em que a resposta aos problemas estruturais e conjunturais do "sistema mundo" (I. Wallerstein) exige uma radical redefinição das abordagens teóricas dos fenómenos sociais e económicos e, portanto, políticos.

Nasce num tempo em que - e como isso é difícil de entender para os que entendem tudo - as ideologias na esquerda (que sempre foram muros e diversões contra a luta necessária) são substituídas pelos programas políticos radicais de resposta às necessidades centrais do trabalho e da cidadania e pela ética como teoria e prática vivas dos valores construídos pelas lutas e ideias mais avançadas da humanidade.

O entendimento da ideologia regressa à teorização, tergiversada mas nunca posta em causa sustentadamente, de Karl Marx e F. Engels, que atribui a sua existência à necessidade de resposta à ignorância da realidade, ao medo do desconhecido, à preservação de privilégios de classe, tornando-se necessária para sustentar o domínio assente na exploração, na repressão e na alienação fundamental da pessoa humana.

O BE nasce trinta e um anos depois do Maio de 68 e vinte e cinco depois do 25 de Abril. Nasce para explorar os caminhos abertos nessas lutas radicais que mostraram a crise da civilização burguesa (no dizer de António José Saraiva, meses depois do Maio de 68) e a sua incapacidade para dar resposta aos problemas fundamentais da sociedade por forma a satisfazer os interesses mais elementares da pessoa humana em especial dos que produzem valor, da imensa maioria assalariada e da imensidão de pessoas que não conseguem sequer encontrar ou manter o posto de trabalho.

O Bloco nasce para participar na grande luta europeia por uma Europa de democracia e justiça social, de paz e de globalização a favor dos povos, pondo fim à pobreza e à imundície moral da riqueza sem limites.

O Bloco nasceu não a olhar para o umbigo mas para participar e ter papel indispensável no crescimento de uma grande esquerda em Portugal e na Europa. Onde cabem os socialistas mas não cabem os actuais partidos socialistas

O Bloco luta para que aqueles que provocaram a crise que se abateu sobre os trabalhadores e os povos não a possam aproveitar ainda mais.

O Bloco integra as suas propostas e a sua luta na constatação que esta crise é uma crise do sistema, e que não poderemos sair dela pela mão dos que nela nos lançaram, porque a receita deles é a mesma de sempre.

Será então tão difícil perceber por que razão o Bloco não quer fazer acordos com Sócrates, com o seu PS, com o PS do neoliberalismo a esboroar-se como as arribas fósseis e a arrastar para a morte e para a desgraça os que se apresentem desprotegidos, ingénuos e crédulos?

Será assim tão difícil de perceber por que razão o Bloco está disponível para apoiar, como sempre fez, todas as medidas, venham de onde vierem, que forem no sentido de responder aos interesses populares, à transparência na democracia, à justiça na economia, ao reforço da cidadania, à procura da paz, onde não cabe a NATO metida em crimes de guerra e atolada no tasqueiro ensanguentado do Afeganistão?

Será assim tão difícil perceber por que não cabe ao BE o papel do PSD, ou seja o de ajudar o PS a governar com a política inspirada pelo Espírito Santo, pelos ladrões do cavaquismo do BPN, pela privatização do que é de todos, pelo lucro obtido à custa da chantagem da sede?

Será assim tão difícil perceber porque cresce sustentadamente o Bloco e porque as televisões europeias vêm cá ver como vai ser a vitória bloquista no objectivo de tornar o governo realmente dependente da AR e pôr a esquerda a ter um papel como nunca teve desde o 25 de Abril?

Não será então naturalíssimo que o Bloco de Esquerda esteja desde já capaz de assumir as responsabilidades da governação quando a tal for chamado pelo voto popular explícito no apoio a uma política de esquerda socialista que confronte os poderosos e responda aos seus eleitores?

Na segunda feira os socialistas que votaram no Bloco e os que ainda não votaram no Bloco vão sentir que a esquerda grande e plural, a esquerda socialista está a construir-se, com eles e graças a eles também.

Mário Tomé

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