Não nos convertamos no mal que deploramos criar PDF versão para impressão
26-Set-2009

Amy GoodmanA 14 de Setembro de 2001, a Câmara dos Representantes dos E.U. A. debateu a Resolução 64 conjunta das duas Câmaras (Câmara dos Representantes e Senado) «Para autorizar o uso das Forças Armadas dos Estados Unidos contra os responsáveis dos recentes ataques lançados contra os Estados Unidos». As feridas do 11 de Setembro estavam frescas e o desejo de vingança parecia universal. O voto da Câmara foi notável, próximo do extremo partidarismo agora evidente no Congresso, já que 420 membros votaram a favor da resolução. No entanto, ainda mais notável foi o único voto contra, protagonizado por Barbara Lee de São Francisco. Lee começou a sua declaração sobre a resolução da seguinte forma «Levanto-me hoje com o coração pesado, cheio de tristeza pelas famílias e os entes queridos que morreram, ou foram feridos, em Nova Iorque, Virgínia e Pensilvânia.» As suas emoções eram palpáveis enquanto falava perante a Câmara.

"O dia 11 de Setembro mudou a face do mundo. Agora os nossos medos mais profundos atormentam-nos. No entanto, estou convicta que uma acção militar não vai impedir outras acções terroristas internacionais contra os Estados Unidos... Não nos devemos precipitar. Já morreram demasiados inocentes. O nosso país está de luto. Se nos precipitarmos a iniciar um contra ataque, correremos o risco de que mais mulheres, crianças e outros civis sejam apanhados entre dois fogos."

O Senado também aprovou a resolução numa votação unânime de 98 votos e enviou-a para o Presidente George W. Bush. O que Bush fez com esta autorização, e com a autorização para a Guerra no Iraque um ano depois, poderá dizer-se que se converteu na maior catástrofe de política externa na história dos Estados Unidos. Agora a questão é saber o que é que o Presidente Barack Obama vai fazer com o Afeganistão.

A 7 de Outubro, os E.U.A. entram no seu nono ano de ocupação do Afeganistão - perfazendo o tempo em que estiveram envolvidos na Primeira Guerra Mundial, na Segunda Guerra Mundial e na Guerra de Coreia. Obama fez uma campanha de oposição à guerra no Iraque, mas pregou ao mesmo tempo a expansão da guerra no Afeganistão. Na sua primeira sexta-feira no seu posto de trabalho, o Comandante em chefe de Obama disparou três mísseis Hellfire de um veículo aéreo não tripulado sobre o Paquistão, que, segundo foi reportado, matou 22 pessoas, principalmente civis, inclusive mulheres e crianças. Aumentou mais 20.000 efectivos às tropas norte-americanas no Afeganistão, perfazendo um total de 61.000 militares. Isto sem contar com os mercenários no Afeganistão cujo número ultrapassa o das tropas. Espera-se que o novo comandante militar no Afeganistão, o General Stanley McChrystal, vá ainda pedir mais tropas.

Este Agosto foi o mais mortífero para as tropas dos E.U.A. no Afeganistão, com 51 mortes e o ano de 2009 é de longe o ano mais mortífero, com, até agora, 200 mortes de tropas dos E.U.A. Estas estatísticas não incluem os soldados que se suicidaram depois de regressar a casa, nem os feridos e, como é evidente, não incluem o número de afegãos mortos. Segundo informações recentes, os ataques também estão a aumentar em sofisticação. Portanto, não podem surpreender as comparações entre o Afeganistão e o Vietname.

Quando questionado acerca desta comparação, Obama disse recentemente ao The New York Times : "Há que aprender com a História. Por outro lado, cada momento histórico é diferente. Nunca se entra no mesmo rio duas vezes. E, portanto, o Afeganistão não é o Vietname. (...) Os perigos dos excessos, de não ter objectivos definidos e de não ter um forte apoio do povo americano, são assuntos em que penso constantemente".

Segundo uma recente sondagem de opinião da CNN, 57 por cento das pessoas inquiridas são contra a guerra dos E.U.A. no Afeganistão, pelo que parece, este é o nível mais alto de oposição desde que a Guerra começou em 2001. Entre os inquiridos, 75 por cento dos democratas são contra a guerra, o que pode explicar as recentes declarações de congressistas democratas chave contra o envio de mais tropas para o Afeganistão. A Presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, disse na quinta-feira passada: "Não penso que haja muito apoio para enviar mais tropas para o Afeganistão no país ou no Congresso" fazendo eco às palavras do Senador Russ Feingold, D-Wis., e do Senador Carl Levin, D-Mich., o presidente do Comité das Forças Armadas do Senado.

Obama disse no seu discurso sobre os cuidados de saúde antes da sessão conjunta do Congresso: «O plano que proponho terá um custo de cerca de 900 mil milhões de dólares para 10 anos - menos do que gastámos nas guerras no Iraque e no Afeganistão".

O Presidente Lyndon Johnson promoveu a escalada da guerra no Vietname e finalmente decidiu não se recandidatar. Mas também aprovou o Medicare, o respeitável, plano do seguro de saúde de pagador único para os idosos. Antecipadamente, Barbara Lee comparou a invasão do Afeganistão à do Vietname no seu discurso de 2001, e encerrou citando o Reverendo Nathan Baxter, decano da Catedral Nacional: "Ao actuar, não nos convertamos no mal que deploramos".

Amy Goodman, artigo publicado a 15 de Setembro 2009 em democracynow.org

Denis Moynihan contribuiu com a pesquisa para este artigo.

Tradução de Ana Palma

{easycomments}

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.