Porque sobe o CDS? criar PDF versão para impressão
30-Set-2009

Jorge CostaDurante a campanha, Paulo Portas esteve no Barreiro e declarou a um jornal local que o CDS estava a disputar votos com o Bloco de Esquerda. Mencionou eleitores indecisos entre os dois partidos e dirigiu a essas pessoas o seu apelo: "apoiar as vítimas em vez dos criminosos", cortar o rendimento social de inserção e "devolver autoridade" aos professores.

Paulo Portas teve o seu melhor resultado de sempre com a campanha mais extremista que já fez. O extremismo de direita típico tem enfrentado dificuldades particulares em Portugal, por razões da nossa história. Mas, como em muitos países europeus onde a extrema-direita se afirmou e cresceu, a duplicação do desemprego em meia dúzia de anos instalou aqui o contexto social favorável à política da xenofobia e do ressentimento. As ideias da extrema-direita têm hoje um enorme público potencial no nosso país. O CDS fez nestas eleições o movimento de ocupação desse espaço.

Em primeiro lugar, a questão da criminalidade. O CDS foi "o único partido a tratá-la", como sempre repetiu Portas. Este discurso, mais que um programa, propõe uma visão do mundo: "há cada vez mais vítimas de crimes a pensar como nós". Com políticas de "contenção" da imigração e medidas judiciais específicas para imigrantes, o "partido das vítimas" ganha as cores clássicas da extrema-direita europeia: o medo ao "marginal" e ao imigrante, a sua criminalização (mais explícita no discurso de Le Pen, evidente no de Portas). Qualquer encartado liberal reconhece a fórmula "desemprego + pobreza = criminalidade". Mas a extrema-direita vive de recusar explicações: explicar é desculpar, é "proteger o criminoso". Responde com o apelo à autoridade, o combate a um Mal quotidiano, vivido ou transmitido na TV, tão simples que dispensa a compreensão da desigualdade que o produz. A elite económica agradece.

O segundo elemento da resposta de extrema-direita é o ataque ao Rendimento Social de Inserção (RSI). A força deste ataque é a existência real de uma minoria de beneficiários que acedem ao apoio pela fraude. Essa minoria é identificada pelo senso comum com famílias da comunidade cigana. Numa economia dominada pela especulação e pelo desvio organizado da riqueza produzida para o sistema financeiro, o "subsídio à preguiça" denunciado pelo CDS são os sistemas assistenciais do Estado às populações mais carenciadas. Ora, Paulo Portas propõe um corte de 25% no único apoio recebido por muita gente que vive com menos de 20 euros por semana. Em vez de fiscalização eficiente, o CDS propõe uma punição colectiva sobre os mais pobres dos pobres - pela fraude de alguns pagarão todos. Mais uma vez, o factor étnico está presente, pouco enunciado, mas central.

Ao conseguir secundarizar uma escandalosa passagem pelo governo - ajudado pelo encantamento da imprensa com o génio mediático do líder-, o CDS apresenta-se como uma força de protesto em tempos de crise económica e dos partidos do centro. Cabe então a pergunta: afinal há ou não uma disputa entre o Bloco de Esquerda e o CDS? Claro que sim. O crescimento do CDS fez-se com voto de direita, ideológico e tresmalhado do PSD descrente, mas alimenta-se também de muitas pessoas sem qualquer interesse no modelo de sociedade que o CDS realmente preconiza, assente na liberalização, na destruição dos sistemas de protecção social e na entrega dos serviços públicos à rentabilidade privada. Por isso se dirigiu Paulo Portas à "gente que quer trabalhar" e às tais "vítimas de crimes" que certamente não vivem protegidas em condomínios.

Mais que uma mera disputa de votos, trata-se de um combate de fôlego contra uma direita que, enquanto sonha com o regresso ao despacho, reduz o descontentamento à estupidez. O Bloco assume essa luta de ideias, travada nos sectores mais atingidos pela crise, nas jovens gerações, milhões de pessoas que vivem um quotidiano marcado pela incerteza, pela pobreza e pela insegurança a todos os níveis. É também a essas pessoas que Paulo Portas se apresenta, em nome da ordem e do "combate ao crime". Para barrar o passo ao extremismo, o projecto de transformação social do Bloco tem que ser sempre mais firme, mais próximo e mais credível. Em última análise, a recusa das políticas e dos políticos da crise tem que tornar-se numa ideia forte para as classes dominadas: socialismo, justiça na economia. Mais forte que qualquer "autoridade".

Jorge Costa

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