O capitalismo agressivo criar PDF versão para impressão
04-Out-2009

Carlos CarujoA vaga de suicídios na empresa France Telecom continua. Contam-se, até agora, vinte e quatro vítimas. Já não há qualquer margem para dúvidas sobre a influência do processo de reestruturação da empresa: os testemunhos de trabalhadores e de especialistas são bastante claros sobre isto.

É uma tragédia humana que não nos pode deixar de fazer pensar nas implicações profundas dos métodos agressivos de gestão e das condições de trabalho do capitalismo dominante na vida de cada um. O capitalismo é a competição desenfreada, o lucro a qualquer preço, o mito da produtividade, a ideologia da avaliação e dos objectivos, a mobilidade eterna que rompe solidariedades. É ao capitalismo que se devem pedir contas da situação que remete o/a trabalhador/a para uma solidão povoada de competidores, em que todos/as estão contra todos/as como suposta condição para serem melhores, em que se entranha um sentimento de eterna inadequação e de incapacidade perante novos tempos, de inutilidade de toda uma vida produtiva face à esmagadora novidade que sempre virá aí. A isto soma-se a precariedade, o desemprego ou a chantagem permanente do despedimento ou da "não renovação do contrato". Soma-se o ritmo cada vez mais intenso das produções e o sentimento de que não se consegue acompanhá-lo. Soma-se o consumismo e as faltas e necessidades que ele vai produzindo em cada um. Soma-se tudo o mais que o capitalismo é fértil em produzir.

Com resultados felizmente menos trágicos do que na France Telecom, estes sentimentos invadem hoje muitos outros/as trabalhadores/as. Sem chegar à enorme tragédia da empresa francesa, muitas tragédias pessoais seguem os mesmos eixos. Porque o capitalismo não é apenas o nome do sistema económico dominante. É também o nome de um regime de vida, de crença e de desejo, que nos é imposto e vivido como dado inultrapassável. Cronos devorava os seus filhos, o capitalismo, por sua vez, alimenta-se de quem produz a um ritmo que desorienta o próprio tempo. Poderá ele alterar a sua natureza antropofágica? Ou melhor, será que sobreviveria se lhe impuséssemos uma dieta globalizada de direitos dos trabalhadores que permitisse novas formas de vida?

Carlos Carujo

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