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18-Out-2009

Miguel PortasQuando teve que comentar o resultado das legislativas, Manuela Ferreira Leite preferiu aguardar pelas autárquicas para proceder a um balanço global de «todo o ciclo eleitoral». É capaz de não ser má ideia, antes que a formação do novo Governo e as danças presidenciais ocupem, por completo, o espaço mediático.

Primeira constatação: todas as forças políticas definiram as legislativas como o momento decisivo do ciclo eleitoral.

As europeias tinham importância variável de per si, mas, no essencial, serviram para os estados-maiores confirmarem ou rectificarem as opções que tinham feito para o todo o ciclo. À luz do desgraçado resultado que obteve, o PS, por exemplo, abandonou qualquer pretensão de renovação da maioria absoluta nas legislativas e passou da ‘fera' à versão ‘português suave'.

Quanto ao PSD, conquistou nas europeias o direito a sonhar com o Governo e a confirmação da sua hegemonia no poder local.

Já com os partidos médios, as escolhas foram diferentes: CDS, BE e PCP pretendiam, obviamente, que o primeiro resultado ‘alavancasse' os seguintes. Mas, enquanto os dois primeiros partidos se focaram estritamente na eleição parlamentar - a ponto de nas europeias terem testado o discurso que aí viriam a fazer -, os comunistas tiveram que distribuir as suas forças e expectativas porque a implantação autárquica é decisiva para a resistência do próprio partido.


Uns acertaram mais do que outros.

O PS perdeu as legislativas ganhando-as, e obteve prémio de consolação nas autárquicas, onde se comportou melhor do que esperava. Do ponto de vista simbólico, Sócrates é hoje um pouco menos minoritário do que há duas semanas.

O PSD só ganhou nas ‘primárias'. Perde estrondosamente a eleição principal e, surpreendentemente, prolonga a derrota onde se esperaria que ganhasse para lá de qualquer dúvida razoável - nas autarquias. Isto quer dizer que a crise é para continuar. Mesmo a sua sombra protectora, a Presidência da República, acabou, por erros próprios, a sair ferida deste estonteante ciclo eleitoral. Cavaco Silva deixou de ser imbatível; e o PSD encontra-se à mercê da acção combinada entre PS e CDS.


CDS e BE estabeleceram estratégias quase simétricas. Europeias e autárquicas subordinaram-se às legislativas. Ambos as venceram de forma clara e indiscutível e ambos esperavam que a dinâmica de vitória se prolongasse nas autárquicas - o que não se verificou. Entre os partidos médios, o Bloco é quem mais ganha e quem mais paga. Com efeito, BE e PCP optaram por ficar de fora de qualquer coligação em Lisboa e no Porto, para não terem que fazer a campanha legislativa sob suspeita de que se iriam aliar, mais tarde, a José Sócrates.

Este risco calculado revelou-se mais caro para o Bloco do que para o PCP, que atravessou todo o ciclo numa posição defensiva, minorando perdas. Deixo o mais importante para a próxima semana: o que há de novo no novo ciclo...

Miguel Portas, artigo publicado no jornal "Sol" de 16 de Outubro de 2009, disponível em sol.sapo.pt/Blogs/miguelportas/

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