Sofrimento por medida criar PDF versão para impressão
19-Dez-2006

violante_saramagomatos.jpgHá dias no estado da Florida, na América do Norte, um condenado a quem tinha sido administrada a injecção letal demorou 34 minutos a morrer. O dobro do que normalmente acontece. A Florida e a Califórnia decidiram suspender esta prática, não porque haverá que pensar se a crueldade da condenação à morte não terá que ser substituída por outra medida mas, apenas, porque as puras almas que constituem a administração norte-americana entenderam que foram ultrapassados os níveis suportáveis da dor!!!
A dor de quem? Do condenado ou dos assistentes?

Suprema hipocrisia a de uma justiça que aceita e pratica a pena de morte, pondo como única condição que os suportáveis níveis de dor não sejam ultrapassados. Tal prática pode continuar, desde que não choque as sensibilidades da administração americana e, diga-se de passagem, de um número bem apreciável dos seus cidadãos. Porque, se assim não fosse, a força da opinião pública já tinha ecoado na rua.

Agora tudo se resolverá, certamente, arranjando uma injecção mais eficaz. E todos irão para casa descansados.

Para esta gente o valor da vida é baixo. Extremamente baixo.

Por isso, todos estão voluntariamente cegos para os crimes que diariamente patrocinam.

O Afeganistão, a Palestina, o Iraque, Guantánamo, mais não são que outras faces da mesma moeda e da mesma ideologia.

África agoniza ao ritmo da doença, da guerra e de prática desumanas. Os emigrantes ilegais são a expressão do desespero. O Darfur é, como tantos outros casos, demasiado chocante para dormirmos descansados. O que se desperdiça na Europa ou na América do Norte daria para evitar a morte de milhões de crianças. Ainda assim, as grandes economias mundiais continuam a preferir o caminho do reforçar o seu poder. Sem remorsos nem preocupações. Mesmo que, quando for preciso, esmaguem os mais miseráveis. Os sem defesa.

Bush é o primeiro polícia do mundo, o escolhido, o justiceiro. Com o poder de decidir quem vive, independentemente de quem, por isso mesmo, terá que morrer. Com o poder supremo de decretar a guerra e de quem pode e quem não pode ter armas. Quem tem ou não tem o direito a usar o nuclear. O mundo dividido entre o bem e o mal. Que é como quem diz, o mundo dividido entre os que têm interesses económicos imensos e riquezas escandalosas e os que querem lá chegar. Quanto a todos os outros, os que fazem parte dos 95% da população mundial que é cada vez mais pobre, os milhões que não têm um euro por dia para subsistir, esses nem sequer interessam. Ficam à margem, porque não contam para a economia mundial nem fazem parte dos ‘interesses americanos'.

O seu par Blair, sempre com um sorriso hipócrita, ataca Saddam mas acolhe Pinochet. Para ele, há ditadores e ditadores; os assassinos e os que cometeram erros. A diferença, toda a diferença, não está nas práticas políticas, nem nos roubos que praticaram, nem no número de assassinatos por que são culpados; resume-se, apenas, em saber se seguem o Islão ou se se benzem na Igreja católica. É preciso acabar com os primeiros - são um perigo para o mundo; os segundos, enfim, já têm a sua idade e justifica-se um pouco de caridade. Até mesmo receber a extrema-unção.

Tenho a obrigação de não ficar surpreendida. Mas, ainda assim, não consigo. 

Violante Saramago Matos

 
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