Xenofobia suíça contra minaretes criar PDF versão para impressão
01-Nov-2009
A extrema direita suíça lançou uma campanha islamofóbica para proibir os minaretes - Foto da Mesquita de GenebraA comunidade muçulmana da Suíça sofre nova campanha xenófoba a menos de um mês do plebiscito sobre uma reforma constitucional para proibir a construção de minaretes. A iniciativa "contra a construção de minaretes" foi apresentada no ano passado por um comité de políticos do Partido Popular Suíço (SVP, extrema-direita) e pela conservadora União Democrática Federal (EDU).
Artigo de Ray Smith, da IPS.

O SVP tem 58 cadeiras no Conselho Nacional (câmara alta da Assembleia Federal Legislativa) de 200 membros, enquanto a EDU tem apenas uma.

O comité argumenta que os minaretes constituem um "símbolo de aspirações de poder político-religiosas" e uma mostra da "horripilante islamização da Suíça".

Minarete é a elevada, cilíndrica e quase sempre fina torre das mesquitas, de onde o almuadem, ou muezim, convoca os crentes muçulmanos para a oração. Conscientes do mal-estar que esta iniciativa pode provocar nos muçulmanos de todo o mundo, o Conselho Federal, Poder Executivo na Suíça, pediu aos eleitores que rejeitem essa emenda constitucional. Neste país vivem cerca de 350 mil muçulmanos, aproximadamente 5% da população total.

Nos últimos 50 anos, a comunidade islâmica habilitou mais de 150 templos, a maioria em casas, garagens ou áreas industriais. Mas há apenas quatro minaretes na Suíça e a construção de um novo está paralisada por uma disputa legal na cidade de Langenthal, no norte do cantão de Berna. A tensão aumenta na medida em que se aproxima a consulta popular de 29 de Novembro. Um cartaz mostra uma mulher vestindo burca negra (roupa tradicional que cobre o corpo dos pés à cabeça) diante da bandeira suíça, atravessada por sete minaretes da mesma cor, que se assemelham a mísseis, e a legenda: "Basta. Sim à proibição dos minaretes".

Hisham Maizar, presidente da Federação de Organizações Islâmicas da Suíça, que reúne metade dos centros muçulmanos do país, questionou o argumento de que "os minaretes se propagarão como fungos". A reforma consiste em incorporar uma única frase à Constituição: "A construção de minaretes está proibida". Mas, para os opositores, não se trata disso apenas disso. "A intenção não é proibir que se construa uns poucos minaretes na Suíça", disse Balthasar Glättli, secretário-geral da Solidariedade sem Fronteiras, que defende os direitos dos imigrantes. "É óbvio que a campanha busca infundir medo quanto ao Islão e preconceitos contra as pessoas originárias de países muçulmanos".

O Conselho Suíço das Religiões, órgão nacional integrado por judeus, cristãos e muçulmanos, rejeita a reforma constitucional. Maizar, médico suíço de origem palestiniana e um dos muçulmanos mais influentes do país, é um dos seus fundadores. Para ele, os organizadores da campanha usam os minaretes para promover um debate sobre o Islão. "A sua falta de argumentos expressa-se na forma com que estereotipam. Alegam que os minaretes representam a shariá (lei islâmica), a islamização e as burcas. Mas isso não reflecte em nada a comunidade muçulmana da Suíça. Não me lembro quando foi a última vez que vi uma mulher com essa vestimenta neste país", afirmou.

Não é a primeira vez que nos últimos anos há campanhas extremistas na Suíça. Em 2002, a população aprovou uma lei para deter o "abuso de asilo". Um cartaz da época mostrava um homem negro, com óculos, luvas e roupa da mesma cor, saindo da bandeira suíça rasgando-a. Entre 2007 e 2008 o SVP organizou a colecta de assinaturas para pedir a deportação de criminosos estrangeiros. Nessa ocasião a propaganda mostrava uma ovelha branca pontapeando uma negra fora da bandeira nacional.

"A iniciativa tem continuidade em relação ao conteúdo e insere-se numa tradição de campanhas populistas de direita na Suíça", afirmou Damir Skenderovic, professor de história contemporânea da Universidade de Friburgo, perto da capital. "Mas o enfoque actual num sector específico da população é notável. As campanhas e os referendos vinculados à imigração na década de 90 eram de carácter geral. Concentravam-se nos ‘estrangeiros' e ‘nos outros', e principalmente visavam os que solicitavam asilo", disse Skenderovic à IPS.

"Agora, concentram-se num sector específico: os imigrantes muçulmanos", acrescentou Skenderovic, que tem vários estudos publicados sobre racismo, extremismo de direita e políticas migratórias na Suíça, e situa a origem desse discurso de direita nos últimos anos da década de 80. "Naqueles anos, grupos como Vigilância, Acção Nacional e União Democrática Federal esgrimiam a ameaça de uma suposta islamização, o avanço do Islão no Ocidente cristão", afirmou. O atentado de 11 de Setembro de 2001 em Nova York e Washington "reforçou esse discurso, mas o fenómeno em si mesmo tem uma tradição anterior", acrescentou.

A adopção de uma plataforma xenófoba foi chave para o crescimento do SVP nas duas últimas décadas. A nível nacional, o partido tratou de absorver todas as forças de direita do espectro político. Nas eleições federais de 2007, o partido Democratas Suíços, de extrema direita, perdeu a última cadeira que lhe restava no Conselho Nacional para o SVP, que conseguiu 29% dos votos. Como em muitos países europeus, aqui diz-se que os muçulmanos não podem integrar-se. Os debates mais acalorados surgem porque as mulheres usam véu, pela negativa de alguns pais em permitir que as filhas pratiquem natação na escola e o conceito geral da mulher dentro do Islão.

"As comunidades muçulmanas são muito diversas. É um absurdo agrupá-las como fazem os populistas", disse Maizar. A concepção hostil em relação ao Islão na Suíça "cultiva-se independentemente da quantidade de muçulmanos que há no país", segundo Glättli, da Solidariedade sem Fronteiras. Valentina Smajli é uma muçulmana originária de Kosovo, território sérvio que se proclamou Estado independente em 2008. No coração católico da Suíça onde vive, é uma integrante activa do Partido Socialista e trabalha em vários projectos políticos sobre migrações. Como ela, "muitos imigrantes de países islâmicos são indiferentes à religião e não se definem em função dela. Mas, às vezes, são vítimas de preconceitos disfarçados ou declarados" contra o Islão.

"Os muçulmanos da Suíça são vítimas de manchetes na imprensa de generalizações negativas" concordou And Geu, um dos directores do Instituto para Criar uma Coligação Nacional (NCBI), dedicado à luta contra os preconceitos, a discriminação racial e a violência. O NCBI organiza uma campanha de informação sobre o Islão e contra a reforma constitucional. Os governos da cidade de Basileia e de Lausanne decidiram proibir a propaganda xenófoba.

Várias cidades e cantões pediram assessoria à Comissão Federal contra o Racismo. O órgão considerou que os cartazes reforçavam os preconceitos contra o Islão e considerou-os negativos e uma potencial ameaça. Porém, Maizar não concorda. "Estou contra as proibições e defendo a liberdade de expressão. Mas, também me oponho a que se cruze as linhas vermelhas da nossa democracia desta forma e que um sector da população, como os muçulmanos, seja atacado de forma ímpia", acrescentou.

IPS/Envolverde

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