Markus Wolf, o espião legendário criar PDF versão para impressão
07-Nov-2009
Markus Wolf, fotografia autografada de 1995A 24 de Setembro de 1991, apresentava-se à polícia na fronteira da Baviera o ex-chefe do serviço de espionagem da ex-República Democrática Alemã (RDA). Markus Wolf tinha conseguido passar um ano escondido em Moscovo.

Por Doris Bulau, da Deutsche Welle

Parecia um roteiro de filme policial. O espião mais bem-sucedido da Europa, Markus Wolf, fugiu misteriosamente da Alemanha Oriental, poucos dias antes da cerimónia oficial da reunificação. A sua esposa, Andrea, recordou aqueles dias tensos, numa entrevista à televisão:

"Sabíamos que, no dia 3 de Outubro de 1990, Markus seria preso. Os advogados aconselharam-nos - e nós éramos da mesma opinião - que o melhor era fugir do país. Portanto, no dia 27 de Setembro, juntamos os nossos papéis e fomos de carro de Berlim para a Tchecoslováquia e, de lá, para a Áustria."

A Procuradoria Geral da República, em Karlsruhe, expedira o mandado de prisão de Wolf por traição à pátria. O espião, que há tempos abandonara o serviço público e se tornara escritor de renome, crítico das lideranças da Alemanha Oriental e autocrítico de sua actividade no Ministério da Segurança, era quase um dissidente. O que o tornava um personagem interessante, tanto para os serviços secretos ocidentais quanto orientais.

Wolf deixou a barba crescer e conseguiu esconder-se das autoridades austríacas. Quatro semanas depois de escapar da RDA, telefonou para um número secreto em Moscovo. O casal foi levado para o aeroporto num carro da KGB - o serviço secreto soviético - e voou para Moscovo. Assim, o ex-chefe de espionagem voltou, perigosamente, às suas origens. Após um ano de asilo político, o casal deixou Moscovo e retornou à Áustria.

No dia 24 de Setembro de 1991, Markus Wolf entregou-se às autoridades alemãs. A RDA, de onde havia fugido, já não existia mais. Com duas limusinas blindadas, foi levado a Karlsruhe, onde permaneceu apenas sete dias na cadeia. Em Maio de 1993, foi julgado em Düsseldorf. Condenado a seis anos de prisão por traição à pátria e suborno, pouco depois passou à liberdade condicional.

Milhares de espiões

Durante o processo no Tribunal do Estado da Renânia do Norte-Vestfália, ficaram evidentes as dimensões do aparato delator da Stasi (serviço secreto da ex-RDA). Mil funcionários fixos e 10 mil "colaboradores não-oficiais" actuavam na Alemanha Oriental, enquanto 1500 informantes espionavam na Alemanha Ocidental. Eram "soldados" do Partido Comunista, aventureiros, criminosos por convicção, idealistas e até parlamentares.

Os subordinados de Wolf espreitavam por toda a parte: nos ministérios, repartições públicas, partidos e inclusive por cima dos muros dos vizinhos. A vítima mais famosa foi Willy Brandt. O líder social-democrata, precursor e arquitecto dos Tratados do Leste, tropeçou no seu assessor, Günter Guilleaume, informante de Wolf, e acabou por ter de renunciar.

Missão de espionagem

Sobre a sua actividade, Wolf declarou, posteriormente, que a via como missão política da direcção do partido. "Para mim, isso não fazia parte do aparato repressivo, como se diz hoje. Aquilo era uma missão de espionagem, algo romântico, importante e respeitável, que eu conhecia de antigos filmes da União Soviética", alega.

Markus Johannes Wolf sempre foi considerado brilhante. Nascido no sul da Alemanha em 19 de Janeiro de 1923, filho de médico judeu, cresceu em ambiente burguês, mas foi educado no credo comunista. Em 1934, a família buscou refúgio dos nazis na União Soviética. Wolf estudou na escola de aeronáutica de Moscovo e em 1942 entrou no Partido Comunista. Entre 1943 e 1945, trabalhou como redactor e locutor numa rádio alemã em Moscovo.

Após a guerra, começou a trabalhar numa rádio em Berlim e fez a cobertura do julgamento dos criminosos nazis, no Tribunal de Nurembergue. Aos 29 anos, assumiu o serviço secreto na condição de general mais jovem da RDA. Teve uma carreira fulminante e coleccionou várias condecorações. Em 1997, publicou as suas memórias.


Leia também:

A extensa entrevista a Markus Wolf feita pelo jornalista Alexander Thoele em 1995 e publicada no seu blogue

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