O Muro de Berlim na Cooperativa Bonifrates criar PDF versão para impressão
07-Nov-2009
Milhares de pessoas exigiram a abertura da fronteira na Bornholmer Strasse e foram os primeiros a atravessá-la na noite de 9 NovembroRecordo 9 Outubro de 1989: o movimento “Sem violência” inspirado pela igreja evangélica levava para as ruas de Leipzig mais de 70 000 pessoas que gritavam “Nós somos o Povo!” e exigiam o fim da polícia política Stasi. Um mês depois, a 9 de Novembro, o movimento cívico Novo Fórum, a única organização civil que ousou enfrentar o regime da Alemanha Oriental lutando pela defesa dos direitos cívicos, reúne nas ruas de Berlim Oriental uma multidão pacífica que se dirige aos diversos pontos de passagem do muro e obriga a levantar as cancelas para o Povo passar. Nos dias seguintes, de parede brutal entre povos, o Muro transformou-se numa imensa galeria artística ao ar livre. Texto de Natércia Coimbra.

 

A East Side Galery sobreviveu até hoje e vai ser esta semana animada pelo regresso de muito dos pintores e artistas decididos a  “recolorir” as suas pinturas de há vinte anos, entretanto desbotadas pelo tempo...

O que recordo também desses Outubro e Novembro de 1989, está  profundamente ligado à minha militância cultural na Cooperativa Bonifrates, em Coimbra.

Tínhamos iniciado então, os ensaios de uma nova peça, um texto escrito por Afonso Sastre em 1983, “Os homens e as suas sombras”. Era um texto belo, intenso sobre o poder e a sua eterna tentação de controlar e vigiar. Sobre poder e sociedade vigiada: dos mitos ancestrais às novas formas de controlo tecnológico da liberdade individual e colectiva. A “tragédia” de Sastre inspirara ao cenógrafo a ideia de ter em cena, como pano de fundo, o Muro de Berlim. Assim nos vimos, em plena construção do muro encenado,  apanhados pelos ventos da história e pela destruição festiva do muro real.  Mas nem por isso a peça deixou de fazer sentido. Foi estreada em Janeiro de 1990 e esteve em cena por alguns meses sempre com casas cheias. Como então se leu no programa “o tema central – o núcleo “mitológico” – desta peça continua a ter plena actualidade (...) veremos se esta “tragédia” de Sastre não assinalará, no plano da ficção, uma notável antecipação do que pode ser a extensão do paradigma do controlo sofisticado a outros espaços geográficos.”

Recordo ainda, no plano pessoal, as discussões acesas que tivemos, entre amigos,  sobre o futuro e sobre a esperança de que o movimento não se esgotasse na queda do muro e no fim do “socialismo real”,  que pudesse ir mais longe e assim se  abrir para o  socialismo uma nova oportunidade de outras leituras e outras práticas.

Lembro-me de ouvir e ler atentamente algumas vozes do pensamento político crítico, alternativo. Castoriadous  lamentaria, já em 1991, "logo que a tirania foi derrubada, o movimento volatilizou-se, deixando o espaço para uma adopção cega das instituições do capitalismo liberal. O sonho de uma sociedade de consumo... sem consumo"

Esse sonho que assentava na vontade de que uma lufada de ar fresco vinda de leste, impelida pelo poder da imaginação, fosse mais longe do que contentar-se com  os modelos “pronto a usar” oferecidos  pela democracia liberal ocidental, não se realizou.

As multidões de Leipzig e Berlim, não tinham como horizonte ir mais além. E hoje vinte anos passados festejando-se a dimensão da reconquista de liberdades democráticas que a queda  do Muro representou para o Povo de Berlim Oriental, não podemos esquecer que a luta continua contra os novos muros que o modelo da democracia liberal ocidental permite que se construam nas fronteiras dos EUA com o México, ou na Palestina.

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