Tripalium: trabalho ou tortura? criar PDF versão para impressão
26-Out-2009

José Soeiro Tripalium é o nome de um instrumento de tortura, feito de três estacas, que era usado na Roma Antiga. Tripaliare significava, por isso, torturar alguém com esse objecto. Curiosamente, esta é a origem etimológica da palavra trabalho e do verbo trabalhar na nossa língua. Na verdade, desde sempre as análises críticas sobre este tema oscilaram entre a denúncia do trabalho enquanto fonte de exploração, de cansaço e de alienação e a apologia do trabalho enquanto fonte de dignidade, realização, identidade e de direitos sociais. Hoje, com a precariedade generalizada no novo regime do capitalismo, como vai a nossa relação com o trabalho?

Num estudo agora publicado sobre as atitudes sociais dos portugueses, perguntava-se o seguinte: se as pessoas gostariam de ter um emprego remunerado mesmo que não precisassem de dinheiro. A pergunta pode parecer absurda num país com mais de meio milhão de desempregados e com quase 2 milhões de precários. Mas não é. A esmagadora maioria dos portugueses respondeu que, mesmo que não precisasse do dinheiro, gostaria ainda assim de ter um emprego remunerado. O que é que isto significa? Que o trabalho é tão importante e tão central na vida das pessoas que ultrapassa a sua dimensão financeira. Além do rendimento, um trabalho é uma forma de reconhecimento, de relação com outros, de identificação. Ele determina uma parte importante da felicidade e do sofrimento das pessoas. E porque o trabalho é muito mais que um mero "factor económico", ele precisa de ser entendido do ponto de vista social, cultural e político. Desgraçadamente, cada vez isso vai acontecendo menos.

Há cerca de uma semana, voltou a suicidar-se mais um trabalhador da France Telecom. É o 25º trabalhador que se mata naquela empresa nos últimos 18 meses. Porquê? Porque um plano de reestruturação da empresa, além de ter suprimido cerca de 40 mil postos de trabalho, começou a deslocar trabalhadores da sua cidade para outras, intensificou cruelmente os ritmos de trabalho, transferiu vendedores especializados para enormes call-centers em espaço aberto e sem gabinetes, apertou uma avaliação desumana e começou a solicitar o compromisso dos trabalhadores mesmo em dias de descanso. Como dizia um dos colegas de uma das vítimas deste plano macabro, "ele morreu de sofrimento, entre a vontade de fazer bem e a falta de meios para poder fazê-lo". O trabalho volta a matar - e de que maneira.

O sofrimento associado ao trabalho voltou em força. Para os que sofrem por não terem trabalho nem forma de subsistirem e sentem esse vazio na sua existência. Mas também para os que têm um trabalho cada vez mais sujeito às novas formas de gestão agressivas e à precarização. Curioso efeito, este de vivermos numa sociedade em que o crescimento dos serviços e a diminuição do peso do trabalho industrial nas sociedades europeias ocidentais chegou a dar a sensação de que o trabalho duro e penível tenderia a desaparecer, mas onde a realidade aponta precisamente para que as formas ditas "modernas" de organização do trabalho - polivalência, autonomia, etc. - aumentaram o sofrimento no trabalho, muitas vezes mental, ligada à fadiga da pressão para executar mais tarefas em menos tempo, à redução das margens de autonomia, a um maior controlo, à intensificação dos ritmos, para além da questão da insegurança associada à precariedade e à degradação da própria condição salarial.

Por isso mesmo, é neste contexto em que o trabalho se reveste perigosamente de aspectos de tortura, que se torna mais importante lutar pelo trabalho digno como fonte de direitos e realização. Porque essa luta civilizacional é a condição de um outro direito, que é ter tempo para viver. E isso é uma das chaves da nossa libertação.

José Soeiro

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