As Olimpíadas e a Geopolítica criar PDF versão para impressão
31-Out-2009

Immanuel WallersteinÉ suposto que as Olimpíadas modernas tenham dois objectivos: promover a paz em todo o mundo, através da competição não violenta que está acima da política, e exaltar os feitos atléticos. Sem dúvida que a maioria dos atletas entra na competição olímpica com o segundo objectivo em mente. Mas promover a paz parece ser quase a última coisa em que pensam os governos cujo apoio às estruturas atléticas nacionais sempre foi crucial para o sucesso dos seus participantes.

Isto foi sem dúvida verdade desde o início. O famoso idealizador das modernas Olimpíadas, o Barão de Coubertin, nasceu em 1863. Diz-se que ele foi criado sob o impacto do trauma nacional que a maioria dos franceses sofreu como resultado da sua derrota pelos alemães em 1871. Parece que ele considerou que a derrota era o resultado da falta de ênfase que a educação francesa dava ao desenvolvimento das capacidades atléticas, ao contrário do que acontecia no Reino Unido e na Alemanha, e dispôs-se a rectificá-lo.

Com o passar dos anos, as despesas nacionais com a preparação olímpica cresceram constantemente. Tanto ganhar a escolha da sede dos Jogos Olímpicos quanto ganhar os próprios jogos tornou-se mais um importante objectivo de governos. A geopolítica nunca esteve ausente dos Jogos.

Durante a Guerra Fria, a competição entre os blocos contava-se em número de medalhas de ouro conquistadas. O boicote dos Estados Unidos e de outras nações ocidentais aos Jogos Olímpicos de Moscovo de 1980 foi seguido pelo boicote soviético aos Jogos de Los Angeles de 1984. A lista dos países que podiam competir estava determinada pelas discussões da Guerra Fria acerca da legitimidade dos Estados e os seus limites

Por isso não é surpreendente que a recente votação do Comité Olímpico Internacional (COI) em Copenhaga que decidiu a sede dos Jogos de 2016 tenha sido interpretada pela imprensa mundial através das lentes da geopolítica. Na verdade, a imprensa internacional tem dado crescente atenção a estas decisões quadrienais do COI, porque os chefes de governo decidiram assumir a tarefa de lobistas directos das suas candidaturas a sede das Olimpíadas. Assim, dada a presença dos líderes do Brasil, da Espanha e do Japão na reunião de Copenhaga, era claro que Barack Obama também tinha de aparecer para defender Chicago.

Os agentes que aceitam apostas sobre os resultados destas competições tinham dado vantagens a Chicago, principalmente na base do anúncio de Obama de que iria comparecer pessoalmente. Na primeira rodada da votação secreta, os resultados dividiram-se entre os quatro candidatos. Mas para grande choque da imprensa dos EUA, de líderes desportivos e de políticos, Chicago não ficou em primeiro mas em quarto, e foi eliminada no primeiro turno.

Na terceira rodada, o Rio tinha emergido como vitorioso com dois terços dos votos, uma margem grande e pouco habitual. Não é difícil compreender porque isto aconteceu. Sendo o Rio sem dúvida uma sede atraente em si mesma, os membros do COI estavam a votar menos pelo Rio do que pelo Brasil. Os três outros candidatos eram todos do Norte - os Estados Unidos, a Espanha e o Japão. O Brasil representava o Sul.

O presidente Lula tinha usado como principal argumento que a América do Sul era o único continente que nunca sediara uns Jogos Olímpicos. Isto é verdade, mas penso que Fidel Castro tinha mais razão quando exultantemente descreveu a votação como "uma vitória do Terceiro Mundo."

Também não foi um qualquer país do Terceiro Mundo que ganhou a votação. Foi o Brasil, um dos gigantes que se erguem no Sul. O próprio Lula disse depois da votação: "O Brasil) passou de um país de segunda classe para um país de primeira classe, e hoje começamos a receber o respeito que merecemos."

"O respeito que merecemos" - e que não recebemos no passado - foi esta a exultação do Brasil, partilhada pelo resto do Terceiro Mundo.

Foi um revês de Obama? Claro que foi - não para ele pessoalmente, mas para os Estados Unidos. Por muito popular que Obama seja em todo mundo, e é-o realmente, ele continua a ser o presidente dos Estados Unidos. A votação foi claramente um vexame geopolítico. Não que Obama pudesse ter feito melhor. E se ele não tivesse comparecido, o público norte-americano podia ter culpado a sua ausência pela derrota.

Perder uma votação para a sede de umas Olimpíadas não é tão mau quanto ter as bases dos EUA no Afeganistão subjugadas pelos taliban, mas é parte do mesmo cenário.

O Prémio Nobel da Paz recebido por Obama vai mudar as coisas para a diplomacia dos EUA? Talvez momentaneamente. Mas a situação de base permanece a mesma. Na verdade, o prémio vai de certa forma tornar a posição de Obama mais difícil, porque este vai passar a ser avaliado por padrões ainda mais altos.

Immanuel Wallerstein

Comentário nº. 267, 15 de Outubro de 2009

Tradução de Luis Leiria

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