Tirem-nos deste filme, sff criar PDF versão para impressão
13-Nov-2009

João Ricardo VasconcelosInfelizmente o caso Face Oculta é apenas mais um dos que vão povoando a agenda com grande regularidade. Encaixa-se na perfeição num perfil que já é bem conhecido dos portugueses: 1) envolve promiscuidades entre alta política e interesses económicos, 2) envolve figuras do PS e/ou do PSD (e/ou o CDS, importa não esquecer) e, para terminar em grande; 3) os responsáveis dificilmente serão encontrados, salvo um ou outro que acabará por assumir as culpas por todos os males ocorridos (uma espécie de Vale e Azevedo de serviço, portanto).

É todo um enredo a que já nos fomos habituando. Uma espécie de guião novelesco batido que, vá-se lá saber porquê, persiste em nos entrar pela casa dentro dia sim, dia sim. Da Face Oculta ao BPN, do Freeport aos Submarinos, do Portucale ao Bragaparques, eis apenas alguns exemplos dos casos que nos foram sendo oferecidos em prime time nos últimos anos. Verdadeiros blockbusters de gosto duvidoso.

Como é natural, sempre que surgem estes casos, vemos os responsáveis de determinados partidos a manifestarem-se surpresos com os tráficos de influências, com as redes clientelares, com as promiscuidades entre o público e o privado. "Quem diria? Ninguém conseguiria prever." Admitem até desenterrar pacotes de combate à corrupção que chumbaram sem hesitar há pouco tempo atrás. E é então que percebemos que também estas reacções são uma parte essencial do enredo novelesco.

Até porque quem frequenta os meios da governação, os meios da administração pública e os meios empresariais próximos do Estado nunca ouviu falar de jeitinhos, de mexer cordelinhos, de amigos, de "hoje pagas tu, amanhã pago eu". Que ideia... Nada disso, pá. A malta é integra e não faria nem admitiria ser conivente com coisas destas. Que ideia, pá...

Eis o jogo de imobilismos e de enganos mútuos, do "eu sei que tu sabes que eu sei", do finge que não vê e do finge que está surpreendido, que nos vai sendo servido todos os dias, todas as semanas. É todo um enredo de contornos decadentes protoganizado pelo good old bloco central de interesses. Enfim... É deprimente. Tirem-nos deste filme. Alguém mude o canal, sff.

João Ricardo Vasconcelos, Politólogo, gestor de projectos e autor do blogue Activismo de Sofá

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