A face oculta de La Fontaine criar PDF versão para impressão
14-Nov-2009

Alice BritoEstá em tudo quanto é sítio:

Urbanizações e campos de golfe; rotundas e marinas; blocos de apartamentos em sítios improváveis; autarquias e futebois; litorais solares e casinos; empresas públicas e privadas; off - shores; estradas, pontes, licenciamentos, deferimentos tácitos; na banca; na banca e nos seguros cúmplices e adjacentes; na informação sigilosa e privilegiada; nos concursos.

Não são apenas palavras.

É o empreendorismo português.

Um universo edificado na impunidade da sucata do compadrio. Do crime.

Os salários estreitos, tão estreitos que parecem linhas, tão precários que parecem nuvens, fazem o resto.

Enquanto isso, os mesmos de sempre exigem contenção e produtividade.

O país a pastar na ética dos discursos.

Cigarras, formigas e outros bichos das fábulas morais de La Fontaine, alapardados na democracia, na gloriosa e inevitável modernização, com mais ou menos arrojo e propensão para o lucro majestoso e fácil, vão minando o que aparece à volta.

Tudo tem o seu tempo. As cigarras preferem o anoitecer dos consulados, quando o cônsul já deposto descansa a preparar-se para um outro cargo. Começam então a cantar sob a luz crua da grande operação, em movimentos intercontinentais de especulação dolosa; as formigas, sempre mais modestas, quase humildes e sombrias, vão amontoando pequenas quantidades, em exercícios reiterados e compulsivos de armazenamento. Montinhos. Muitos. A banca ajuda, co-autora e comparsa.

Raposas e raposões, lebres e tartarugas vão desfilando por entre governos e amigos, com o à vontade de quem pisa um chão que é seu. Têm uma honra verbal e indesmentível. O porte virtuoso, o conhecimento dos segredos da geografia em que se movimentam, o cargo ou o post cargo, integram as ferramentas básicas da tecnologia da corrupção.

Os negócios viciados percorrem muitas vezes o caminho das formalidades cumpridas. Olham-nos então na menina dos olhos e ingénuos alegam inocências. A selva impõe-se, luxuriante e legal. As hienas riem.

Esta é a face oculta das fábulas do francês. Nelas os maus recebem o seu castigo.

La Fontaine ou era crédulo ou, definitivamente, desconhecia os meandros da justiça. Pelo menos da Justiça Portuguesa.

Alice Brito

{easycomments}

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.