Uma linha na areia criar PDF versão para impressão
15-Nov-2009

Uri AvneryMahmoud Abbas está farto. Anteontem, retirou a sua candidatura para as próximas eleições presidenciais na Autoridade Palestina.

Compreendo-o.

Sente-se traído. E o traidor é Barack Obama.

Há um ano, quando Obama foi eleito, despertou grandes esperanças no mundo muçulmano, entre o povo palestiniano, assim como no campo da paz israelita.

Finalmente um presidente americano que compreendera que tinha de pôr fim ao conflito israelo-palestiniano, não só para o bem dos dois povos, mas principalmente por causa dos interesses nacionais dos EUA. Esse conflito é em grande parte responsável pelas ondas de ódio anti-americano que varrem as massas muçulmanas de oceano a oceano.

Toda a gente acreditava que uma nova era havia começado. Em vez do Choque de Civilizações, do Eixo do Mal e de todos os outros slogans idiotas mas fatídicos da era Bush, uma nova abordagem de compreensão e de reconciliação, respeito mútuo e soluções práticas.

Ninguém esperava que Obama trocasse a linha pró-israelita incondicional por uma atitude pró-palestiniana unilateral. Mas todos pensaram que os EUA passariam a adoptar uma abordagem mais equilibrada e a pressionar os dois lados para a Solução dos Dois Estados. E, não menos importante, que o fluxo contínuo de verborragia hipócrita e moralista seria substituído por uma política não provocadora mas intencional, determinada, vigorosa.

Tão elevadas como eram então as esperanças, é agora profunda a decepção. Nada disto aconteceu. Pior: a administração Obama demonstrou pelas suas acções e omissões que não é verdadeiramente diferente da administração de George W. Bush.

* * *

Desde o primeiro momento, ficou claro que o critério decisivo viria na batalha dos colonatos.

Pode parecer que este é um assunto marginal. Se a paz deve ser alcançada dentro de dois anos, como o pessoal de Obama nos assegura, porquê preocuparmo-nos com mais umas poucas casas nos colonatos que serão desmantelados de qualquer forma? Portanto, vai haver alguns milhares de colonos mais para reinstalar. Grande coisa.

Mas o congelamento dos colonatos tem uma importância muito para além do seu efeito prático. Para voltar à metáfora do advogado palestiniano: «Estamos a negociar a divisão de uma pizza e, entretanto, Israel está a comer a pizza».

A insistência americana no congelamento dos colonatos em toda a Cisjordânia e em Jerusalém Oriental foi a bandeira da nova política de Obama. Como num filme Western, Obama traçou uma linha na areia e declarou: até aqui e não mais! Um verdadeiro cowboy não pode retirar-se dessa linha, sem ser visto como covarde.

Foi precisamente isso que aconteceu agora. Obama apagou a linha que ele próprio traçou na areia. Ele desistiu da exigência clara de um congelamento total. Benjamin Netanyahu e o seu pessoal anunciaram orgulhosamente - e sonoramente - que tinha sido alcançado um compromisso, não, Deus nos livre, com os palestinianos (quem são eles?), mas com os americanos. Eles permitiram a Netanyahu construir aqui e ali, em prol da "vida normal", do "crescimento natural", da "finalização de projectos não concluídos" e de outros pretextos transparentes deste tipo. Não haverá, evidentemente, quaisquer restrições em Jerusalém, a Indivisível Eterna Capital de Israel. Em suma, a actividade de colonização prosseguirá em pleno ritmo.

Para adicionar o insulto à injúria, Hillary Clinton deu-se ao trabalho de ir a Jerusalém, em pessoa, a fim de alagar Netanyahu com bajulação untuosa. Não há precedente para os sacrifícios que ele está a fazer em prol da paz, adulou ela.

Isso foi demais, mesmo para Abbas, cuja paciência e autocontrole são lendários. Ele retirou as consequências.

* * *

«Compreender tudo é perdoar tudo», dizem os franceses. Mas, neste caso, algumas coisas são difíceis de perdoar.

Certamente, pode-se compreender Obama. Ele está envolvido numa luta pela sua vida política na frente social, a batalha pelo serviço de saúde. O desemprego continua a aumentar. As notícias do Iraque são más, o Afeganistão está rapidamente a transformar-se num segundo Vietname. Mesmo antes da cerimónia de entrega, o Prémio Nobel da Paz parece uma anedota.

Talvez ele sinta que o tempo não está maduro para provocar o todo-poderoso lóbi pró-Israel. Ele é um político, e política é a arte do possível. Seria possível perdoá-lo por isso, se ele admitisse francamente que é incapaz de concretizar as suas boas intenções nesta área por enquanto.

Mas é impossível perdoar o que está realmente a acontecer. Não o tratamento americano escandaloso do relatório Goldstone. Não o comportamento repugnante de Hillary em Jerusalém. Não a conversa mentirosa sobre a "contenção" das actividades de colonização. Tanto mais que tudo isto se passa com total desprezo pelos palestinianos, como se fossem apenas figurantes num musical.

Não só Obama desistiu da sua reivindicação de uma mudança completa na política norte-americana, como está de facto a continuar a política de Bush. E dado que Obama pretende ser o oposto de Bush, isso é traição dupla.

Abbas reagiu com a única arma que tem em seu poder: o anúncio de que vai deixar a vida pública.

* * *

A política americana no "Grande Médio Oriente" pode ser comparada a uma receita num livro de culinária: Pegue em cinco ovos, misture com farinha e açúcar...

Na vida real: Pegue num notável local, dê-lhe a parafernália de governo, realize "eleições livres", treine as suas forças de segurança, transforme-o num subcontratado.

Esta não é uma receita original. Muitos regimes coloniais e de ocupação a usaram no passado. O que há de tão especial sobre a sua utilização pelos norte-americanos são os adereços "democráticos" para a peça. Mesmo que um mundo cínico não acredite numa palavra dela, há que pensar no público em casa.

Foi assim que foi feito no passado, no Vietname. Como foram escolhidos Hamid Karzai no Afeganistão e Nouri Maliki no Iraque. Como Fouad Siniora foi mantido no Líbano. Como Muhammad Dahlan estava para ser instalado na Faixa de Gaza (mas foi, no momento decisivo, antecipado pelo Hamas). Na maioria dos países árabes, não há necessidade desta receita, uma vez que os regimes estabelecidos já satisfazem as exigências.

Era suposto que Abbas preenchesse esse papel. Ele ostenta o título de presidente, ele foi eleito de forma justa, um general norte-americano está a treinar as suas forças de segurança. É verdade que nas eleições legislativas seguintes o seu partido foi estrondosamente derrotado, mas os americanos simplesmente ignoraram os resultados e os israelitas prenderam os parlamentares indesejáveis. O espectáculo tem de continuar.

* * *

Mas Abbas não está satisfeito em ser o ovo na receita americana.

Encontrei-o pela primeira vez há 26 anos. Depois da primeira Guerra do Líbano, quando nós (Matti Peled, Ya'acov Arnon e eu) fomos a Túnis para nos encontrarmos com Yasser Arafat, vimos Abbas primeiro. Esse foi o caso de cada vez que fomos a Túnis depois disso. A paz com Israel era a "pasta" de Abbas.

As conversações com ele eram sempre directas ao assunto. Não nos tornámos amigos, como com Arafat. Os dois eram de temperamento muito diferente. Arafat era um extrovertido, uma pessoa calorosa que gostava de gestos pessoais e de contacto físico com as pessoas com quem falava. Abbas é um auto-contido introvertido que prefere manter as pessoas à distância.

Do ponto de vista político, não há verdadeira diferença. Abbas está a prosseguir a linha fixada por Yasser Arafat em 1974: um Estado palestino dentro da fronteiras pré-1967, com Jerusalém Oriental como sua capital. A diferença está no método. Arafat acreditava na sua capacidade de influenciar a opinião pública israelita. Abbas limita-se às negociações com os governantes. Arafat acreditava que tinha de manter no seu arsenal todos os meios possíveis de luta: as negociações, actividade diplomática, luta armada, relações públicas, manobras tortuosos. Abbas coloca tudo num cesto: negociações de paz.

Abbas não quer tornar-se um marechal Pétain palestiniano. Ele não quer encabeçar um regime de Vichy local. Ele sabe que está numa encosta escorregadia e decidiu parar antes que seja tarde demais.

Penso, portanto, que a sua intenção de deixar o palco é grave. Creio na sua afirmação de que não se trata apenas de um jogo de barganha. Ele pode mudar a sua decisão, mas apenas se estiver convencido de que as regras do jogo mudaram.

* * *

Obama foi completamente surpreendido. Isso nunca aconteceu antes: um cliente americano, totalmente dependente de Washington, de repente revolta-se e põe condições. Isso foi exactamente o que Abbas fez agora, quando reconheceu que Obama não está disposto a cumprir a condição mais básica: congelar os colonatos.

Do ponto de vista americano, não há substituição. Há certamente algumas pessoas capazes na liderança palestiniana, bem como corruptos e colaboradores. Mas não há um que seja capaz de reunir em torno de si toda a população da Cisjordânia. O primeiro nome que surge sempre é Marwan Barghouti, mas ele está na prisão e o governo israelita já anunciou que não será libertado, mesmo que seja eleito. Além disso, não é claro que ele esteja disposto a desempenhar esse papel nas actuais condições. Sem Abbas, toda a receita americana se desfaz.

Netanyahu, também, foi totalmente surpreendido. Ele quer negociações fingidas, desprovidas de substância, como uma camuflagem para o aprofundamento da ocupação e o alargamento dos colonatos. Um "processo de paz" como substituto para a paz. Sem um líder palestiniano reconhecido, com quem pode ele "negociar"?

Em Jerusalém, ainda há esperança de que o anúncio de Abbas seja apenas uma manobra, que seria suficiente atirar-lhe algumas migalhas para fazê-lo mudar de ideias. Parece que eles não conhecem realmente o homem. O seu auto-respeito não lhe permitirá voltar trás, a menos que Obama lhe conceda um êxito político sério.

Do ponto de vista de Abbas, o anúncio da sua retirada é a arma do juízo final.

{easycomments}

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.