Outra escola, outro intelecto criar PDF versão para impressão
17-Nov-2009

Bruno MaiaUma equipa de neurocientistas da Universidade de Oxford descobriu que aprender a fazer malabarismo provoca alterações na estrutura cerebral, que dotam o cérebro de novas capacidades. Num estudo conduzido em indivíduos saudáveis que em apenas 6 semanas aprenderam a fazer malabarismo, ficou demonstrado que o cérebro forma novas ligações entre os seus neurónios em indivíduos de qualquer idade. Essas novas ligações são responsáveis pela aprendizagem do indivíduo, com a aquisição de novas capacidades motoras.

Este estudo vem, mais uma vez, demonstrar aquilo que alguns autores do século XX, nomeadamente Luria e Hughlings Jackson, já tinham postulado - o cérebro é a sede das capacidades não só do intelecto tradicional mas também da motricidade. E essas capacidades são passíveis de serem aprendidas em qualquer idade. Sabemos hoje que o cérebro é um centro integrado de processamento de informação, que todas as suas áreas estão inter-relacionadas e dependem umas das outras; que circuitos neuronais semelhantes podem ser responsáveis pela aprendizagem abstracta e ao mesmo tempo pela motora. Talvez por isso a intelectualidade e o intelecto já não tenham o seu sentido tradicional - não é só o indivíduo dotado de uma grande capacidade de memorização ou de um raciocínio lógico extraordinário que pode ser o grande intelectual. Talvez o artesão habilidoso com as suas mãos ou o malabarista tenham, do ponto de vista orgânico, um "intelecto" muito superior à maioria dos indivíduos.

O indivíduo que chuta uma bola de futebol com brilhantismo, também ele possui um cérebro que passou por uma aprendizagem e um processo de memorização espectaculares e terá por isso um cérebro muito desenvolvido nas áreas da práxis motora. E um indivíduo que toca piano como ninguém é aquele cujo cérebro está mais preparado para trocar informação entre os seus dois hemisférios.

As conclusões de estudos como este incomodam alguns "intelectuais" tradicionalistas mas o que quero dizer com isto tudo é que, talvez ele nos prove que indivíduos como os grandes jogadores de futebol, um excelente cozinheiro ou um mestre carpinteiro sejam pessoas inteligentíssimas, com capacidades cerebrais invejáveis.

Se olharmos para a escola que temos, facilmente nos apercebemos que existe uma hierarquia de saberes - os melhores alunos são os que têm as melhores notas a matemática, ou a física, ou a economia; a escola estimula, promove e sobrevaloriza o conhecimento da língua ou da lógica matemática. Todos os outros saberes e capacidades são deixados para os tempos livres, relegados para segundo plano. E há alunos que progridem e outros que ficam para trás. E não porque o cérebro de uns seja melhor do que o cérebro de outros mas simplesmente porque a sociedade decidiu que há saberes e capacidades que devem ser mais valorizadas do que outras. E no entanto o cérebro dos futuros artesões, cozinheiros, pianistas ou desportistas fica desaproveitado, porque a escola assim o decidiu.

À hierarquização dos saberes na escola corresponde uma divisão do trabalho cujo valor social é desigual. À actividade cerebral do juiz ou do médico reserva-se um status intocável - para cérebro do carpinteiro resta a menoridade no reconhecimento.

A escola é o espaço fundamental para as crianças aprenderam a diferença e a diversidade de saberes. Para escolherem, entre os saberes e as capacidades, aquelas que mais se ajustam a si. E assim reconhecer que a essas diferenças correspondem capacidades cerebrais tão extraordinárias quanto distintas. Mas a escola que temos não o faz - discrimina as capacidades e escolhe apenas alguns de entre os extraordinários. Não é uma escola que promova as diferenças em igualdade. Não é uma escola que estimule as crianças e as suas distintas matrizes. É uma escola à qual apenas alguns se ajustam e apenas algum terão nela sucesso.

Precisamos de outra escola e quem o pede é a própria diversidade biológica dos nossos cérebros. Uma escola que valorize todos e todas, nas suas diferenças de capacidade e que promova a qualidade dos outros saberes, que não os mesmos de sempre.

Bruno Maia

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