Efeitos das mudanças globais na Autoeuropa criar PDF versão para impressão
23-Nov-2009

Daniel BernardinoA semana que terminou teve uma notícia sobre a Autoeuropa, em que a comissão de trabalhadores divulgou uma carta dirigida pelo presidente da VW, àquela estrutura representativa dos trabalhadores. Entre algumas palavras que foram dirigidas aos representantes dos trabalhadores sobre flexibilidade, mereceu mais atenção, por parte dos órgãos de comunicação social, a possibilidade dos trabalhadores poderem vir a realizar semanas de seis dias de trabalho.

As reacções foram de cautela por parte da comissão de trabalhadores da Autoeuropa referindo o seu coordenador, António Chora, que "os trabalhadores não podem ser prejudicados" e por parte do coordenador da comissão sindical, Paulo Faleiro, que diz "recusar a semana de trabalho de seis dias".

A forma mais fácil é dizer que somos contra, porque conotamo-nos, logo à partida, que não pretendemos estar do lado da solução, mas sim do problema! Esta é a fórmula conhecida de há muitos anos e que tem levado a que as grandes empresas da indústria automóvel, no nosso país, sejam cada vez menos.

Será porque temos mão-de-obra mais barata que elas abandonam o país e se instalam em países com mão-de-obra mais cara, como Espanha por exemplo como foi o caso da Opel? Não. Mas sim porque a necessidade de ocupar a capacidade de produção nas diversas empresas da marca é uma prioridade. Não é novidade que muitas das fábricas de automóveis estão abaixo das suas capacidades de produção. Também porque alguns representantes dos trabalhadores sabem que a competitividade também é entre organizações dos trabalhadores, para tentarem defender os trabalhadores que representam na globalização em que vivemos. Foi isso que os espanhóis fizeram com a Opel quando aceitaram negociar as suas condições laborais para que recebessem a produção que estava em Portugal. Este foi sem dúvida um exemplo que demonstra que a competitividade não é só entre as empresas mas também entre os trabalhadores.

Mas no que respeita à Autoeuropa, é necessário ter em conta que umas das negociações que foram realizadas naquela empresa, sobre os dias de paragem de produção, os chamados "down days" estão a esgotar-se para enfrentar paragens superiores aos dias acordados (22 anuais). A necessidade de produções concentradas por se produzirem carros de nicho de mercado, que têm uma procura em determinadas épocas do ano, leva a que por vezes existam necessidades de produções também em determinadas épocas do ano.

Os construtores automóveis produzem cada vez menos para stock, e os carros produzidos são para entrega imediata aos seus clientes, os stands de automóveis, e quando isso não acontece perde-se mercado e consequentemente não produzem carros que já não fazem falta ao mercado!

A organização das produções está a mudar globalmente, e quem se adapta sobrevive ao mercado. Tal como os trabalhadores também as empresas se vão adaptando, é natural que as exigências aumentem. Mas que sejam ponderadas e tenham em consideração que só com o diálogo social se resolvem os problemas de natureza laboral, auscultando todos os trabalhadores e tendo em conta que estes devem contestar, participar, mas também retirarem contrapartidas das exigências que lhes fazem, proporcionando-lhes a manutenção do nível de emprego e boas condições de trabalho.

É isto que os trabalhadores no parque industrial da Autoeuropa devem exigir, que existam contrapartidas para que a flexibilidade se mantenha e a empresa também, nunca abandonando o diálogo pela luta, quando esta não é o objectivo.

A necessidade de encontrar alternativas colectivas no parque industrial passa pela organização colectiva de propostas que sejam construtivas na melhoria de soluções, é isso que se tem tentado fazer, é também para esse trabalho que aguardamos que a Ministra do Trabalho receba as organizações dos trabalhadores que aguardam resposta à sua carta de 11 de Novembro, tendo em conta os problemas do próximo ano e seguintes.

Daniel Bernardino

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