Copenhaga, 2049 criar PDF versão para impressão
01-Dez-2009
A Foto khalid almasoud/FlickrRede Internacional Ecosocialista apanhou a máquina do tempo de H.G. Wells e relata-nos o diálogo à beira-mar entre uma avó e o seu neto, não muito longe da cidade submersa de Copenhaga...

 

 

12 de Abril de 2049. Era uma agradável e fresca manhã de primavera, com a temperatura a não ultrapassar os 42ºC à sombra. A avó Sarah, de 71 anos, foi dar um passeio à beira-mar com o seu neto Stefan, de 10 anos. E iniciaram uma conversa muito animada.

Stefan: Avó, é verdade o que me disse o papá de manhã, que aqui em frente debaixo do mar está uma cidade que se chamava Copenhaga?

Sarah: Sim, meu querido. Era uma cidade grande, linda e encantadora, cheia de palácios, igrejas, torres, teatros. Era lá que vivíamos, com os nossos amigos e a família, antes da Catástrofe.

Stefan: O que aconteceu?

Sarah: Não te ensinaram na escola? Os gases de efeito de estufa emitidos pelas energias fósseis - carvão, petróleo - produziram um aumento da temperatura que derreteu milhares de milhões de toneladas de gelo do Polo Norte e Gronelandia. Começou lentamente, mas ao fim de uns anos tornu-se repentino. Enormes blocos de gelo cairam ao mar e o nível dos oceanos subiu vários metros.

Stefan: Estou a ver... Mas isso foi só aqui na Dinamarca?

Sarah: Oh não, meu filho. Foi no mundo inteiro. Muitas outras cidades maravilhosas, como Veneza, Amesterdão, Londres, Nova Iorque, Rio de Janeiro, Daca, Hong Kong, estão agora debaixo do mar...

Stefan: Já não vou poder ver Copenhaga e essas cidades?

Sarah: Temo que não, Stefan. Alguns climatologistas dizem que daqui a uns milhares de anos, quando o clima voltar a mudar outra vez, o mar pode retroceder, revelando as ruínas dessas esplêndidas cidades. Mas não vamos estar lá para ver.

Stefan: Mas avó, e ninguém previu a catástrofe?

Sarah: Muita gente! Alguns cientistas, como James Hamsen, o climatologista da NASA, previu com bastante precisão, há 40 anos, o que ia acontecer se continuássemos a fazer as coisas como de costume. Outros previram o que aconteceu no sul da Europa: em vez das terras verdes do sul de Itália, França e Espanha, agora temos o chamado deserto do Saara da Europa do Sul.

Stefan: Mas avó, a Catástrofe era inevitável?

Sarah: Nem por isso, filho. Há algumas décadas ainda era possível evitá-la, se se tivessem feito mudanças radicais.

Stefan: E porque é que os governos daquela altura não fizeram alguma coisa?

Sarah: A maior parte servia os interesses das classes dominantes, que se recusavam a aceitar mudanças que ameaçassem o sistema - a economia de mercado capitalista -, os seus privilégios e estilo de vida. Eram uma espécie de "oligarquia fóssil", que se agarrava obstinadamente ao petróleo e ao carvão, e via as propostas de trocá-los rapidamente por energias renováveis (como a solar) como "irrealistas" ou uma "ameaça" à competitividade das suas empresas. O mesmo se aplica à indústria automóvel, ao transporte de mercadorias em camiões, etc.

Stefan: Como puderam ser tão cegos?

Sarah: Olha, em 2009, quando ainda existia a cidade de Copenhaga, os governantes do mundo vieram aqui para uma Conferência Mundial sobre Alterações Climáticas. Fizeram discursos muito bonitos, mas não chegaram a nenhumas conclusões quanto ao que fazer nos anos seguintes; alguns países industrializados ricos anunciaram que iriam reduzir a metade as suas emissões de gases de efeito de estufa... em 2050. E entretanto não arranjaram nada melhor que um "sistema de comércio de direitos de emissões", em que os grandes poluidores compravam o direito de continuar a poluir.

Stefan: E ninguém protestou?

Sarah: Claro que houve protestos. Massas de gente irritada vinda de toda a Europa e até de países longínquos chegaram a Copenhaga para dar voz ao protesto e reclamar medidas radicais e imediatas, como a redução das emissões a 40% em 2020 (devíamos ter pedido 80%!). Entre os apoiantes destas medidas, havia alguns - eu incluída! - que se chamavam ecosocialistas.

Stefan: E o que propunham?

Sarah: Dizíamos que é necessária uma mudança social radical, tirando os meios de produção das mãos da oligarquia captalista e entregá-los ao povo; apelávamos a uma nova forma de civilização, um novo padrão de produção - usando a energia solar - e de consumo, acabando com a publicidade e as porcarias inúteis que promove. Em vez do "crescimento" ilimitado, baseado no lucro ilimitado e na acumulação do capital, propusemos o planeamento democrático da produção, de acordo com as reais necessidades sociais e a protecção do ambiente.

Stefan: Isso a mim parece-me razoável! E o que é que eles disseram?

Sarah: Bem, tanto nós como os outros jovens no protesto fomos recebidos com os bastões da polícia e gás lacrimogéneo.

Stefan: E bateram-te, avó?

Sarah: Sim! Um polícia bateu-me com um cassetete de borracha e quase cortava a minha orelha esquerda. Vê aqui, ainda tenho a marca debaixo do cabelo...

 


Conto de Michael Löwy, with the help of Klaus Engert, Danièle Follet, Joel Kovel, Joaquin Nieto and Ariel Salleh.


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