O que é o ecosocialismo? "Fundado nos argumentos básicos do movimento ecologista e da crítica
marxista da economia política, esta síntese dialéctica - tentada por um
vasto espectro de autores, de André Gorz (nos seus primeiros escritos)
a Elmar Altvater, James O’Connor, Joel Kovel e John Bellamy Foster – é
ao mesmo tempo uma crítica da “ecologia de mercado”, que não desafia o
sistema capitalista, e do “socialismo produtivista”, que ignora a
questão dos limites naturais". Artigo de Michael Löwy, publicado na revista Vírus.
Ecosocialismo é a tentativa de fornecer uma alternativa
civilizacional radical ao que Marx chamou o “processo destrutivo” do
capitalismo.(2) Ela avança com uma política económica fundada nos
critérios não-monetários e extra-económicos das necessidades sociais e
do equilíbrio ecológico. Fundado nos argumentos básicos do movimento
ecologista e da crítica marxista da economia política, esta síntese
dialéctica - tentada por um vasto espectro de autores, de André Gorz
(nos seus primeiros escritos) a Elmar Altvater, James O’Connor, Joel
Kovel e John Bellamy Foster – é ao mesmo tempo uma crítica da “ecologia
de mercado”, que não desafia o sistema capitalista, e do “socialismo
produtivista”, que ignora a questão dos limites naturais.
Segundo O’Connor, o objectivo do socialismo ecológico é uma nova
sociedade baseada na racionalidade ecológica, no controlo democrático,
na igualdade social e no predomínio do valor de uso sobre o valor de
troca.(3) Eu acrescentaria que estes valores requerem: (a) propriedade
colectiva dos meios de produção (‘colectiva’ significa aqui propriedade
pública, cooperativa ou comunitária); (b) planeamento democrático, que
torna possível a sociedade definir os seus objectivos de investimento e
produção; e (c) uma nova estrutura tecnológica das forças produtivas.
Por outras palavras, uma transformação revolucionária, económica e
social.(4)
Para os ecosocialistas, o problema das principais correntes da ecologia
política, representadas pela maioria dos partidos Verdes, é que eles
não parecem tomar em conta a contradição intrínseca entre as dinâmicas
de expansão ilimitada do capital e de acumulação de lucros, e a
preservação do ambiente. Isto conduz a uma crítica do produtivismo,
muitas vezes relevante, mas não vai além de uma economia de mercado
ecologicamente reformada. O resultado é que muitos partidos Verdes se
tornaram no álibi ecológico de governos social-liberais de
centro-esquerda.(5)
Por outro lado, o problema das correntes dominantes na esquerda ao
longo do século XX – a social-democracia e o movimento comunista de
inspiração soviética – é a sua aceitação do padrão de forças produtivas
realmente existente. Enquanto a primeira se limitava a uma versão
reformada do sistema capitalista, keyenesiana na melhor das hipóteses,
a segunda desenvolveu uma forma autoritária de produtivismo
colectivista – ou capitalista de Estado.
Os próprios Marx e Engels não ignoravam as consequências de devastação
ambiental do modo de produção capitalista; há várias passagens do Capital
e de outros textos que indicam esta compreensão.(6) Além disso, eles
acreditavam que o objectivo do socialismo não é produzir mais e mais
bens, mas proporcionar aos seres humanos tempo livre para desenvolverem
plenamente as suas potencialidades. Nesta medida, têm pouco em comum
com o ‘produtivismo’, i.e., com a ideia de que a expansão ilimitada da
produção é um objectivo em si.
Porém, as passagens dos seus escritos sobre o efeito do socialismo no
desenvolvimento das forças produtivas para além dos limites impostos
pelo sistema capitalista, circunscrevem a transformação socialista às
relações de produção capitalistas, que se tornaram um obstáculo
(‘amarras’ é o termo frequente) ao livre desenvolvimento das forças
produtivas existentes. Socialismo significaria, acima de tudo, apropriação social da capacidade produtiva, colocando-a ao serviço dos trabalhadores. Citando uma passagem do Anti-Dühring,
uma obra canónica para muitas gerações de marxistas, sob o socialismo
“a sociedade toma posse, abertamente e sem rodeios, das forças
produtivas, que se tornaram demasiado grandes” para o presente
sistema.(7)
A experiência da União Soviética ilustra os problemas que resultam da
apropriação colectivista dos aparelhos de produção capitalistas. Desde
o início, predominou a tese da socialização das forças produtivas
existentes. É verdade que, nos primeiros anos após a Revolução de
Outubro, desenvolveu-se uma corrente ecologista e foram tomadas pelas
autoridades soviéticas algumas medidas limitadas de protecção
ambiental. Mas com o processo estalinista de burocratização, os métodos
produtivistas na indústria e na agricultura impuseram-se por meios
totalitários, enquanto os ecologistas foram marginalizados ou
eliminados. A catástrofe de Chernobyl foi o exemplo acabado das
consequências desastrosas desta imitação das tecnologias produtivas
ocidentais. Uma mudança nas formas de propriedade a que não suceda uma
gestão democrática e a reorganização do sistema produtivo só pode levar
a um beco sem saída.
Uma crítica da ideologia produtivista do “progresso” e da ideia de uma
exploração “socialista” da natureza, aparecia já nos escritos de alguns
dissidentes marxistas dos anos 30, tais como Walter Benjamin. Mas é
sobretudo ao longo das últimas décadas que o ecosocialismo
se desenvolve como um desafio à tese da neutralidade das forças
produtivas, que continuam a predominar nas principais correntes da
esquerda do século XX.
Os ecosocialistas deveriam inspirar-se nas observações de Marx sobre a
Comuna de Paris: os trabalhadores não podem tomar posse do aparelho de
Estado capitalista e colocá-lo ao seu serviço. Eles têm de “quebrá-lo”
e substitui-lo por um poder político radicalmente diferente,
democrático e não-estatista. O mesmo se aplica, mutatis mutandis,
ao aparelho produtivo, que não é “neutro”, antes transporta na sua
estrutura a marca do seu desenvolvimento ao serviço da acumulação de
capital e da expansão ilimitada do mercado. Isto coloca-o em
contradição com as necessidades de protecção ambiental e com a saúde da
população. Ele deve portanto ser “revolucionarizado”, num processo de
transformação radical.
É claro que muitas conquistas científicas e tecnológicas da modernidade
são preciosas, mas o conjunto do sistema produtivo deve ser mudado, e
isto só pode ser feito por métodos ecosocialistas, i.e, através de um
planeamento democrático da economia que tenha em conta a preservação do
equilíbrio ecológico. Para alguns sectores da produção, isto pode
significar uma descontinuidade. Por exemplo: instalações nucleares,
certos métodos de pesca industrial em massa (responsáveis pelo
quase-extermínio de numerosas espécies marinhas), o abate destrutivo de
florestas tropicais, etc. – a lista é muito longa. No entanto, começa
por exigir uma revolução no sistema energético, com a substituição das
actuais fontes (sobretudo fósseis), responsáveis pelo envenenamento do
ambiente, por fontes renováveis de energia: água, vento, sol. Este tema
é decisivo porque as energias fósseis (petróleo, carvão) são
responsáveis por muita da poluição no planeta, tal como pelas mudanças
no clima. A energia nuclear é uma falsa alternativa, não só pelo perigo
de novos Chernobyl, mas também porque ninguém sabe o que fazer com
milhares de toneladas de resíduos nucleares – tóxicos durante centenas,
milhares e por vezes milhões de anos – e com gigantescas instalações
obsoletas e contaminadas. A energia solar, que nunca levantou grande
interesse nas sociedades capitalistas (não sendo “rentável” ou
“competitiva”), deve tornar-se objecto de investigação e
desenvolvimento intensivos e ter um papel-chave no desenvolvimento de
um sistema energético alternativo.
Tudo isto deve ser realizado sob as condições necessárias do pleno
emprego e do emprego justo. Estas condições são essenciais, não só para
cumprir um desígnio de justiça social, mas também para assegurar o
apoio da classe trabalhadora ao processo de transformação estrutural
das forças produtivas. Este processo é impossível sem o controlo
público dos meios de produção e sem planeamento, i.e. decisões públicas
sobre investimento e mudança tecnológica que devem ser tomadas longe
dos bancos e das empresas capitalistas, de modo a servirem o bem-comum
da sociedade.
Mas não basta colocar estas decisões nas mãos dos trabalhadores. No terceiro volume do Capital, Marx definiu o socialismo como a sociedade onde os produtores associados organizam racionalmente as suas trocas (Stoffwechsel) com a natureza”. Mas no primeiro volume do Capital é feita uma abordagem mais ampla: o socialismo é concebido como “uma associação de seres humanos livres (Menshen) que trabalha com meios de produção comuns (Gemeinschaftlichen)”(8).
Esta concepção é muito mais apropriada: a organização racional da
produção e do consumo tem que ser obra não são só dos “produtores”, mas
também dos consumidores; com efeito, de toda a sociedade, com a
população produtiva e também “não-produtiva”, a qual inclui estudantes,
jovens, domésticas (e domésticos), pensionistas, etc.
Neste sentido, toda a sociedade poderá escolher, democraticamente, que
linhas produtivas devem ser privilegiadas, e que recursos deverão ser
investidos em educação, saúde ou cultura.(9) Os próprios preços dos
bens não serão deixados à leis da oferta e da procura, mas
determinados, até onde fôr possível, por critérios sociais, políticos e
ambientais. Inicialmente, isto envolveria apenas taxas sobre alguns
produtos e preços subsidiados para outros. Mas, idealmente, com o
avanço da transição para o socialismo, mais e mais produtos poderiam
ser distribuídos sem custos e de acordo com a vontade dos cidadãos.
Longe de ser “despótico” em si, o planeamento democrático é o
exercício, pelo conjunto da sociedade, da sua liberdade de decisão. É
isto que é necessário para a libertação das “leis da economia”,
reificadas e alienantes, caixa forte das estruturas capitalistas e
burocráticas. O planeamento democrático, combinado com a redução do
tempo de trabalho, seria um passo decisivo da humanidade para o que
Marx chamou “o reino da liberdade”. Isto porque um aumento
significativo do tempo livre é de facto uma condição para a
participação da população trabalhadora na discussão democrática e na
gestão da economia e da sociedade.
Os partidários do mercado livre apontam o falhanço do planeamento
soviético como uma razão para rejeitar qualquer ideia de economia
organizada. Sem entrar no debate sobre os feitos e misérias da
experiência soviética, era obviamente uma forma de ditadura sobre as necessidades
– para usar a expressão de György Markus e dos seus amigos da Escola de
Budapeste: um sistema não-democrático e autoritário que deu o monopólio
de todas as decisões a um punhado de tecno-burocratas. Não foi o
planeamento que levou à ditadura, mas sim as crescentes limitações à
democracia no Estado soviético e, após a morte de Lenine, o
estabelecimento de um poder burocrático totalitário, que
conduziu a um sistema de planeamento cada vez mais autoritário. Se o
socialismo significa o controlo pelos trabalhadores e pela população em
geral do processo produtivo, a URSS sob Estaline e seus sucessores era
um longínquo eco disso.
O fracasso da URSS ilustra os limites e contradições do planeamento
burocrático, que é inevitavelmente ineficiente e arbitrário, e não pode
ser usado como argumento contra o planeamento democrático
(10). A concepção socialista de planeamento não é senão a
democratização radical da economia: se as decisões políticas não devem
ser deixadas a uma elite de governantes, porque não deveria tal
princípio aplicar-se às da economia? O equilíbrio a atingir entre
planeamento e mecanismos de mercado é uma questão assumidamente
difícil: durante os primeiros estágios de uma nova sociedade, os
mercados manterão certamente um lugar importante, mas à medida que
avançar a transição para o socialismo, o planeamento será cada vez mais
predominante, contra as leis do valor de troca.(11)
Engels insistiu que uma sociedade socialista “terá que estabelecer um
plano de produção levando em conta os meios de produção, especialmente
incluindo a força de trabalho. Serão, em última instância, os efeitos
úteis de vários objectos de uso, comparados entre si e em relação à
quantidade de trabalho necessária à sua produção, que determinarão o
plano”(12). No capitalismo, o valor de uso é apenas um meio –
frequentemente, um truque – ao serviço do valor de troca e do lucro
(que explica, aliás, porque tantos produtos na actual sociedade são
essencialmente inúteis). Numa economia socialista planeada, o valor de
uso é o único critério para a produção de bens e serviços, com
consequências económicas, sociais e ambientais de longo alcance. Como
Joel Kovel observou: “a alta do valor de uso e a correspondente
reestruturação das necessidades tornam-se o regulador social da
tecnologia, em lugar da conversão do tempo em mais-valia e dinheiro,
como sucede sob o capital”.(13)
No tipo de sistema de planeamento democrático aqui enunciado, o plano
abrange as principais opções económicas, não a administração de
restaurantes, mercearias e padarias, pequenas lojas, empresas artesãs e
serviços. É importante enfatizar também que o plano não entra em
contradição com a autogestão das unidades produtivas pelos seus
trabalhadores. Enquanto a decisão, tomada através do sistema de
planeamento, de converter, por exemplo, uma fábrica de automóveis ao
fabrico de autocarros e eléctricos seria tomada pela sociedade como um
todo, a organização interna e o funcionamento da fábrica deveriam ser
democraticamente geridos pelos seus trabalhadores. Houve muita
discussão sobre a natureza “centralizada” ou “descentralizada” do
planeamento, mas pode argumentar-se que o pomo da questão é o controlo
do plano a todos os níveis – local, regional, nacional, continental e,
desejavelmente, internacional, uma vez que as questões ecológicas tais
como o aquecimento global são planetárias e devem ser abordadas à
escala global. Deveríamos chamar-lhe planeamento democrático global.
Mesmo a este nível, seria bastante oposto ao que usualmente se chama
“planeamento central”, uma vez que as decisões económicas e sociais não
são tomadas por qualquer “centro”, mas sim democraticamente decididas
pelas populações envolvidas.
Claro que haverá inevitáveis tensões e contradições entre
estabelecimentos auto-geridos, administrações locais democráticas,
grupos sociais alargados. Mecanismos de negociação podem ajudar a
resolver alguns desses conflitos. Mas, em última análise, os maiores
grupos envolvidos, se forem maioritários, devem poder impor a sua
visão. Para dar um exemplo: uma fábrica autogerida decide evacuar no
rio os seus resíduos tóxicos. A população de toda a região está em
risco de contaminação: pode, portanto, decidir que a produção nesta
unidade deve ser interrompida até ser encontrada uma solução
satisfatória para o controlo dos resíduos. Desejavelmente, numa
sociedade ecosocialista, os trabalhadores fabris teriam a consciência
ecologista necessária para evitar decisões como aquela. Mas instituir
meios para assegurar que os interesses sociais mais amplos têm a
palavra final, como no exemplo anterior, não significa que assuntos
relativos à gestão interna deixem de ser encaminhados ao nível da
fábrica, escola, bairro, hospital ou cidade.
O planeamento socialista deve assentar no debate democrático e
pluralista, a todos os níveis em que as decisões são tomadas.
Organizadas sob a forma de partidos, plataformas, ou quaisquer outros
movimentos políticos, os delegados para o organismo de planeamento são
eleitos, e as diferentes propostas são apresentadas às populações
abrangidas por elas. A democracia representativa deve ser completada –
e corrigida – pela democracia directa, em que as pessoas escolhem
directamente sobre as grandes opções. Deve o transporte público ser
gratuito? Devem os possuidores de viatura privada pagar impostos
especiais para subsidiar os transportes públicos? Deve a energia solar
ser subsidiada para competir com as energias fósseis? Deve a semana de
trabalho ser reduzida a 30 ou 25 horas, ou menos, mesmo que isso
signifique uma redução na produção? A natureza democrática do
planeamento não é incompatível com a existência de especialistas: o seu
papel não é decidir, mas sim apresentar no processo democrático as suas
perspectivas (muitas vezes diferentes, senão opostas). Como Ernest
Mandel afirma, “governos, partidos, conselhos de planeamento,
cientistas, tecnocratas, ou seja quem for, podem fazer sugestões,
avançar propostas, tentar influenciar as pessoas. Mas sob um sistema
multi-partidário, tais propostas nunca serão unânimes: as pessoas terão
a escolha entre alternativas coerentes. E o direito e o poder para decidir
deve estar nas mãos da maioria dos produtores/consumidores/cidadãos e
nas de mais ninguém. Que há nisto de despótico ou paternalista?”.(14)
Há garantia de que as pessoas tomarão as decisões ambientais correctas,
mesmo à custa dos seus hábitos de consumo? Não existe tal “garantia”,
além da razoável expectativa que a racionalidade prevaleça nas decisões
democráticas quando o poder do fetichismo da mercadoria estiver
quebrado. Claro que serão cometidos erros por vontade popular, mas quem
acredita que os especialistas não erram? De resto, ninguém pode
imaginar o advento de uma nova sociedade sem que a maioria da população
tenha atingido, pela sua luta, pela auto-formação e experiência social,
um alto nível de consciência ecológica e socialista.(15) Seja como for,
não são as alternativas muito mais perigosas – o mercado cego, uma
ditadura ecológica de “especialistas” – do que o processo democrático,
com todas as suas limitações?
É verdade que o planeamento requer a existência de organismos
executivos/técnicos, encarregados de pôr em prática o decidido, mas
estes não serão necessariamente autoritários desde que colocados sob
controlo permanente a partir de baixo e se incluírem autogestão dos
trabalhadores num processo de administração democrática. É evidente que
ninguém quer imaginar a maioria do povo a gastar todo o seu tempo livre
em autogestão ou reuniões de participação. Como assinalou Mandel, “a
auto-administração não implica o desaparecimento da delegação, combina
a tomada de decisões pelos cidadãos com um controlo mais estrito dos
delegados pelo seu respectivo eleitorado”.(16)
A “economia participativa” (parecon)
de Michael Albert foi objecto de algum debate no movimento da
alterglobalização. Apesar de alguns atalhos na sua abordagem de
conjunto, que parece ignorar a ecologia, e contrapõe a parecon ao socialismo de modelo soviético, o parecon
tem elementos comuns com o tipo de planeamento ecosocialista aqui
proposto: oposição ao mercado socialista e ao planeamento burocrático,
compromisso com a auto-organização dos trabalhadores,
anti-autoritarismo.
O modelo de planeamento participativo de Albert
baseia-se numa complexa construção institucional:
Os participantes no planeamento participativo são os conselhos e
federações de trabalhadores, os conselhos e federações de consumidores
e vários Conselhos de Facilitação (CFI). Conceptualmente, o planeamento
é bastante simples. Um CFI anuncia o que chamaremos “preços
indicativos” para todos os bens, recursos, categorias de trabalho, e
capital. Os conselhos e federações de consumidores respondem com
propostas de consumo, tomando os preços indicativos dos bens e serviços
como estimativas do custo social do seu fornecimento. Os conselhos e
federações de trabalhadores respondem com propostas de produção,
listando os outputs que poderão disponibilizar e os inputs de que
precisarão para isso; tomando os preços indicativos como estimativas
dos benefícios sociais trazidos pelos outputs e dos verdadeiros custos
de oportunidade dos inputs. Um CFI calcula então o excesso de procura
ou oferta para cada bem e ajusta o respectivo preço, de acordo com
algoritmos socialmente aceites. Usando os novos preços indicativos, os
conselhos e federações de consumidores e trabalhadores revêem e
reformulam as suas propostas (…) Em vez do domínio dos capitalistas ou
dos coordenadores sobre os trabalhadores, a parecon é uma economia na
qual trabalhadores e consumidores, juntos, determinam cooperativamente
as suas opções económicas e beneficiam delas de forma a promover a
igualdade, a solidariedade, a diversidade e a autogestão.(17)
O principal problema desta concepção – a qual não é simples mas
extremamente elaborada e por vezes mesmo obscura – é que parece reduzir
o ´planeamento´ a uma espécie de negociação entre produtores e
consumidores em relação aos preços, inputs e outputs,
oferta e procura. Por exemplo, o conselho dos trabalhadores da
indústria automóvel poderia reunir-se com o conselho de consumidores
para discutir os preços e adaptar a oferta à procura. O que isto deixa
de fora é precisamente o que constitui a questão principal no
planeamento ecossocialista: a reorganização do sistema de transportes,
reduzindo radicalmente o lugar para o automóvel privado. Uma vez que o
ecossocialismo requer que sectores inteiros da indústria desapareçam –
centrais nucleares, por exemplo – e investimentos massivos em sectores
pequenos e praticamente inexistentes (e.g. energia solar), como pode
isto ser resolvido por “negociações cooperativas” entre as unidades de
produção existentes e os conselhos de consumidores em relação a “inputs” e “preços indicativos”?
O modelo de Albert olha para a estrutura produtiva e tecnológica
existente e é demasiado “economicista” para tomar em conta os
interesses gerais, socio-políticos e socio-ecológicos da população – os
interesses dos indivíduos, como cidadã/os e seres humanos, os quais não
podem ser reduzidos aos seus interesses económicos como produtores e
consumidores. Ele deixa de fora não apenas o Estado como instituição –
uma opinião respeitável – mas também a política
como o confronto entre as diferentes opções económicas, sociais,
políticas, ecológicas, culturais e civilizacionais, a nível local,
nacional e global.
Isto é muito importante porque a transição do “progresso destrutivo”
capitalista para o socialismo é um processo histórico, uma
transformação revolucionária permanente da sociedade, cultura e
mentalidades – e a política
no sentido atrás definido não pode deixar de ser central. É importante
enfatizar que tal processo não pode começar sem a transformação
revolucionária das estruturas sociais e políticas, e o apoio activo,
pela grande maioria da população, de um programa ecossocialista. O
desenvolvimento de consciência socialista e percepção ecológica é um
processo, no qual o factor decisivo é a própria experiência colectiva
das pessoas em luta, partindo dos confrontos locais e parciais para a
transformação radical da sociedade.
Esta transição pode levar não apenas a um novo modo de produção e a uma sociedade igualitária e democrática, mas também a um modo de vida alternativo, a uma nova civilização
ecossocialista, para além do reino do dinheiro, dos hábitos artificiais
de consumo produzidos pela publicidade e da produção ilimitada de bens
que são inúteis e/ou danosos para o ambiente. Alguns ecologistas
acreditam que a única alternativa ao produtivismo é travar o crescimento, ou substitui-lo por crescimento negativo – o que os franceses chamam de décroissance
– e reduzir drasticamente o nível excessivamente elevado de consumo da
população cortando pela metade a utilização de energia, através da
renúncia às habitações individuais, aquecimento central, máquinas de
lavar, etc. Uma vez que estas e outras medidas similares de autoridade
draconiana se arriscam a ser bastante impopulares, alguns dos
defensores do décroissance jogam com a ideia de uma espécie de
“ditadura ecológica”.(18)
Contra estas perspectivas pessimistas, os
socialistas optimistas acreditam que o progresso técnico e o uso de
fontes de energia renovável vão permitir um crescimento ilimitado e
abundância e que cada um/a receba “de acordo com as suas necessidades”.
Julgo que ambas as escolas partilham uma concepção meramente quantitativa
de “crescimento” - positivo ou negativo – e do desenvolvimento das
forças produtivas. Há, no entanto, uma terceira posição, a qual me
parece mais apropriada: a transformação qualitativa do
desenvolvimento. Isto significa colocar um fim ao monstruoso
desperdício de recursos pelo capitalismo, baseado na produção, em larga
escala, de produtos inúteis ou danosos: a indústria de armamento é um
bom exemplo, mas uma boa parte dos “bens produzidos no capitalismo –
com a sua obsolescência própria – não têm outra utilidade que a de
gerar lucro para as grandes empresas. A questão não é o “consumo
excessivo” em abstracto, mas o tipo de consumo prevalecente,
baseado na apropriação conspícua, desperdício massivo, alienação
mercantil, acumulação obsessiva de bens e a aquisição compulsiva de
pseudo-novidades impostas pela ´moda´. Uma nova sociedade iria orientar
a produção para a satisfação das necessidades autênticas, começando por
aquelas que podem ser descritas como ´bíblicas´- água, alimentos,
vestuário, habitação – mas incluindo também os serviços básicos: saúde,
educação, transporte, cultura.
Obviamente, os países do Sul, onde estas necessidade estão muito longe
de estarem satisfeitas, vão precisar de um nível muito mais elevado de
“desenvolvimento” - construindo estradas, hospitais, sistemas de
saneamento e outras infra-estruturas – do que os industrialmente
avançados. Mas não há razão para isto não ser atingido com um sistema
produtivo amigo do ambiente e baseado em energias renováveis. Estes
países vão precisar de produzir grandes quantidades de alimentos para
alimentar as suas populações esfomeadas, mas isto pode ser muito melhor
conseguido – como os movimentos camponeses da Via Campesina
têm vindo a argumentar – através da agricultura biológica baseada em
unidades familiares, cooperativas ou explorações colectivizadas, do que
pelos métodos destrutivos e anti-sociais do agro-negócio
industrializado, assente no uso de pesticidas, químicos e transgénicos.
Em vez do presente sistema monstruoso de dívida, e da exploração
imperialista dos recursos do Sul pelos países capitalistas
industrializados, haveria uma corrente de apoio técnico e económico do
Norte para o Sul, sem a necessidade – como alguns puritanos e ascéticos
ecologistas parecem acreditar – da população da Europa ou América do
Norte reduzir os seus padrões de vida em termos absolutos. Em vez
disso, eles apenas se livrariam do consumo obsessivo e de mercadorias
inúteis que não correspondem a nenhuma necessidade real, enquanto se
redefiniria o significado de padrão de vida no sentido de modo de
vida.
Como distinguir as necessidades autênticas das artificiais, falsas e
criadas? A indústria da publicidade – induzindo necessidades através da
manipulação mental – invadiu todas as esferas da vida humana nas
sociedades modernas capitalistas: não apenas alimentação e vestuário,
mas também desporto, cultura, religião e política são moldadas de
acordo com as suas regras. Invadiu as ruas, caixas de correio, ecrãs de
televisão, jornais, paisagens, numa forma permanente, agressiva e
insidiosa, e contribui decisivamente para os hábitos de consumo
compulsivo e conspícuo. Além disso, gasta uma quantidade astronómica de
petróleo, electricidade, tempo de trabalho, papel, químicos e outras
matérias-primas – todas pagas pelos consumidores – para um tipo de
“produção” que não só é inútil, de um ponto de vista humano, mas
directamente em contradição com as reais necessidades sociais.
Enquanto
a publicidade é uma dimensão indispensável no mercado da economia
capitalista, não teria lugar numa sociedade em transição para o
socialismo, onde seria substituída por informação sobre bens e serviços
providenciados pelas associações de consumidores. O critério para
distinguir uma necessidade autêntica de uma artificial, seria pela sua
persistência após a supressão da publicidade. Claro que durante algum
tempo os velhos hábitos de consumo iriam persistir e ninguém tem o
direito de dizer às pessoas o que são as suas necessidades. Alterar os
padrões de consumo é um processo histórico, bem como um desafio
educacional.
Algumas mercadorias, como o carro individual, levantam problemas mais
complexos. Os carros privados são uma agressão pública, matando e
mutilando centenas de milhares de pessoas todos os anos à escala
mundial, poluindo o ar das cidades grandes – com consequências nefastas
para a saúde de crianças e idosos – e contribuindo significativamente
para as alterações do clima. No entanto, eles correspondem a
necessidades reais nas presentes condições diárias do capitalismo.
Experiências locais em cidades europeias com administrações com
preocupações ambientais mostram que é possível – e aceites pela maioria
da população – limitar progressivamente o papel do automóvel individual
a favor de autocarros e eléctricos. Num processo de transição para o
ecossocialismo, onde o transporte público seria amplamente expandido e
libertado de tarifas, e onde os peões e ciclistas teriam faixas de
protecção, o carro privado irá ter um papel muito menor que na
sociedade burguesa, onde se tornou um fetiche promovido pela
publicidade insistente e agressiva, um símbolo de prestígio, um sinal
de identidade (nos EUA a carta de condução é o cartão de identificação
reconhecido) e um foco da vida pessoal, social e erótica.(19) Na
transição para uma nova sociedade, será muito mais fácil reduzir
drasticamente o transporte de mercadorias por camiões – responsáveis
por terríveis acidentes e elevados níveis de poluição –, substituindo-o
pelo transporte ferroviário ou pelo que os franceses chamam de ferroutage
(camiões transportados nos comboios de uma cidade para outra). Só a
lógica absurda da “competitividade” capitalista explica o perigoso
crescimento do sistema de transporte rodoviário pesado.
Sim, responderão os pessimistas, mas os indivíduos são movidos por
aspirações e desejos infinitos que têm de ser controlados, vigiados,
contidos e se necessário reprimidos, e isto pode apelar a algumas
limitações na democracia. Mas o ecossocialismo é baseado na expectativa
razoável, já tratada por Marx: a predominância, numa sociedade sem
classes e liberta da alienação capitalista, do “ser” sobre o “ter”,
i.e. do tempo livre para a realização pessoal através de actividades
culturais, desportivas, científicas, eróticas, artísticas e políticas,
em vez do desejo infinito de posse de produtos. A aquisição compulsiva
é induzida pelo fetichismo das mercadorias inerente ao sistema
capitalista, pela ideologia dominante e a publicidade: nada prova que é
parte da “eterna natureza humana”. Como Ernest Mandel enfatizou, “a
acumulação contínua de mais e mais bens (com uma “utilidade marginal”
em declínio) não significa de forma alguma uma condição universal ou
sequer predominante do comportamento humano.
O desenvolvimento de
talentos e inclinações para benefício próprio; a protecção da vida e
saúde; o cuidado pelas crianças; o desenvolvimento de relações sociais
ricas (…) tudo isto se torna motivação maior assim que as necessidades
materiais tenham sido satisfeitas”.(20)
Como temos insistido, isto não significa que não vão surgir conflitos,
particularmente durante o processo de transição, entre os requisitos de
protecção do ambiente e as necessidades sociais, entre os imperativos
ecológicos e a necessidade de desenvolver infra-estruturas básicas,
particularmente nos países pobres, entre os hábitos populares de
consumo e a escassez de recursos. Uma sociedade sem classes não é uma
sociedade sem contradições e conflitos. Estes são inevitáveis:
resolvê-los será uma tarefa do planeamento democrático, numa
perspectiva ecossocialista, liberto dos imperativos do capital e do
lucro, através de discussões plurais e abertas, com decisões tomadas
pela própria sociedade. Tal democracia de base e participativa é a
única forma, não de evitar erros, mas de permitir a correcção, pelo
colectivo social, dos seus próprios erros.
É isto Utopia? No seu sentido etimológico – “algo que não existe em
lado nenhum” – certamente. Mas não serão as utopias, i.e. visões de um
futuro alternativo, de imagens desejosas de uma sociedade diferente,
condição necessária de qualquer movimento que queira desafiar a ordem
estabelecida? Como explicou Daniel Singer no seu testamento literário e
político, Whose Millenium?, num poderoso capítulo intitulado “Utopia Realista”:
…Se a ordem estabelecida agora parece tão sólida, apesar das
circunstâncias, e se o movimento dos trabalhadores ou a maioria da
esquerda está tão deficiente, tão paralizada, é por causa da falha em
oferecer alternativas radicais (…) O princípio básico do jogo é que tu
não questionas nem os fundamentos dos argumentos nem as fundações da
sociedade. Apenas uma alternativa global, rompendo com essas regras de
resignação e desistência, podem dar ao movimento de emancipação uma
perspectiva genuína. (21)
A utopia socialista e ecológica é apenas uma possibilidade objectiva,
não o resultado inevitável das contradições do capitalismo, ou das
“leis de ferro da história”. Não é possível predizer o futuro, excepto
nos termos tradicionais: o que é predizível é que na ausência de uma
transformação ecossocialista, de uma alteração radical do paradigma
civilizacional, a lógica do capitalismo vai levar a desastres
ecológicos dramáticos, ameaçando a saúde e a vida de milhões de seres
humanos, e talvez até a sobrevivência da espécie.
Sonhar e lutar por um socialismo verde, ou, como alguns dizem, um comunismo solar,
não significa que não se lute por reformas concretas e urgentes. Sem
ilusões sobre um “capitalismo limpo”, deve tentar-se ganhar tempo e
impor aos poderes algumas alterações elementares: banir os CFCs que
estão a destruir a camada de ozono, moratória geral aos organismos
geneticamente modificados, redução drástica das emissões de gases de
efeito de estufa, regulações estritas na indústria pesqueira, taxação
dos carros poluentes, maior desenvolvimento dos transportes públicos,
progressiva substituição de camiões por comboios. Estas, e outras
similares, estão no coração da agenda do movimento de Justiça Global e
dos Fóruns Sociais Mundiais. Este é um novo desenvolvimento político
que permitiu, desde Seattle em 1999, a convergência de movimentos
sociais e ambientais na luta comum contra o sistema.
Estas exigências urgentes ecossociais podem levar a um processo de
radicalização, se essas exigências não forem adaptadas para encaixar
nos requerimentos da “competitividade”. De acordo com a lógica do que
os marxistas chamam “um programa de transição”, cada pequena vitória,
cada avanço parcial, conduz imediatamente a uma exigência maior, para
uma vontade de maior radicalidade. Tais lutas em torno de questões
concretas são importantes, não apenas porque as vitórias parciais são
elas próprias bem-vindas, mas também porque elas contribuem para
aumentar a consciência ecologista e socialista, e porque promovem o
activismo e auto-organização a partir da base: ambos serão
pré-condições necessárias e mesmo decisivas para uma transformação
radical, i.e. revolucionária, do mundo.
Experiências locais como as áreas livre de carros em várias cidades
europeias, cooperativas de agricultura orgânica, cooperativas agrícolas
lançadas pelo movimento camponês brasileiro do (MST), ou o orçamento
participativo em Porto Alegre e, há poucos anos, no estado de Rio
Grande do Sul (sob o Governador do PT Olívio Dutra), são exemplos
limitados mas interessantes de alteração social/ecológica. Ao permitir
que assembleias locais decidam as prioridades do orçamento, Porto
Alegre foi – até à esquerda perder as eleições municipais em 2002 –
talvez o exemplo mais atraente de “planeamento a partir de baixo”,
apesar das suas limitações.(22) Deve ser admitido, no entanto, que
mesmo existindo algumas medidas progressivas tomadas por alguns
governos nacionais, no todo a experiência do Centro-Esquerda ou
coligações “Esquerda/Verdes” na Europa ou América Latina foi uma
desilusão, ficando firmemente dentro dos limites da política
social-liberal de adaptação à globalização capitalista.
Não haverá transformação radical sem que as forças comprometidas com um
programa socialista e ecológico radical se tornem hegemónicas, no
sentido de Gramsci. Neste sentido, o tempo está do nosso lado, à medida
que trabalhamos para a mudança, porque a situação global do ambiente
está progressivamente a ficar pior, e as ameaças estão a aproximar-se
cada vez mais. Por outro lado, o tempo está a esgotar-se, porque dentro
de alguns anos – ninguém pode dizer quantos – o estrago pode ser
irreversível. Não há qualquer razão para optimismo: as elites
dominantes entrincheiradas no sistema são incrivelmente poderosas, e a
força da oposição radical é ainda pequena. Mas ela é a única esperança
de travar o “progresso destrutivo” do capitalismo. Walter Benjamin
definiu revolução como sendo não a locomotiva da história, mas a
capacidade humana de travar o comboio, antes que caia no abismo…(23)
MICHAEL LÖWY | sociólogo. director de investigação no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) de Paris.
Tradução de Rita Calvário e Jorge Costa
Notas:
1 — Richard Smith, ‘The Engine of Eco Collapse’, Capitalism, Nature and Socialism, 16(4), 2005, p. 35.
2 — K. Marx, Das Kapital, Volume 1, Berlin: Dietz Verlag, 1960, pp.
529-30. For a remarkable analysis of the destructive logic of capital,
see Joel Kovel, The Enemy of Nature. The End of Capitalism or the End
of the World?, New York: Zed Books, 2002.
3 — James O’Connor, Natural Causes. Essays in Ecological Marxism, New York: The Guilford Press, 1998, pp. 278, 331.
4 — John Bellamy Foster usa o conceito de “revolução ecológica”, mas
argumenta que a “revolução ecológica global merecedora do nome apenas
pode ocorrer como parte de uma revolução – e insisto, socialista – de
maioria social. Tal revolução (…) teria de exigir, como Marx insistiu,
que as associações de produtores racionalmente regulassem a relação
metabólica humana com a natureza (…) Deve tomar a sua inspiração em
William Morris, um dos seguidores mais originais e ecologistas de Karl
Marx, em Gandhi, e noutras figuras radicais, revolucionárias e
materialistas, incluindo o próprio Marx, indo tão atrás como Epicuro”.
Foster, ‘Organizing Ecological Revolution’, Monthly Review, 57(5),
2005, pp. 9-10.
5 — Para uma crítica ecossocialista da “ecopolítica actualmente
existente” – economia verde, ecologia profunda, bioregionalismo, etc –
ver Kovel, Enemy of Nature, capítulo 7.
6 — Ver John Bellamy Foster, Marx’s Ecology. Materialism and Nature, New York: Monthly Review Press, 2000.
7 — F. Engels, Anti-Dühring, Paris: Ed. Sociales, 1950, p. 318.
8 — K. Marx, Das Kapital, Volume 3, Berlin: Dietz Verlag, 1968, p. 828
and Volume 1, p. 92. Pode-se encotrar problemas similares no marxismo
contemporâneo; por exemplo, Ernest Mandel argumentou por um
“planeamento democraticamente centralista sob um congresso nacional de
conselhos de trabalhadores desde que a sua larga maioria seja de
trabalhadores reais” (Mandel, ‘Economics of Transition Period’, in E.
Mandel, ed., 50 Years of World Revolution, New York: Pathfinder Press,
1971, p. 286). Nos seus últimos escritos, ele referiu-se antes a
“produtores/consumidores”. Vamos frequentemente citar os escritos de
Ernest Mandel, porque ele é o teórico socialista mais articulado sobre
o planeamento democrático. Mas deve ser dito que até ao final dos anos
de 1980, ele não incluiu a questão ecológica como um aspecto central
dos seus argumentos económicos.
9 — Ernest Mandel definiu planeamento nos seguintes termos: “Uma
economia governada por um plano implica (…) que os recursos
relativamente raros da sociedade não são apropriados cegamente (“nas
costas do produtor-consumidor”) pelo jogo da lei do valor mas que eles
são conscientemente alocados de acordo com prioridades previamente
estabelecidas. Numa economia de transição onde a economia socialista
prevalece, a massa dos trabalhadores determina democraticamente esta
escolha de prioridades”. Mandel, ‘Economics of Transition Period’, p.
282.
10 — “Do ponto de vista da massa dos trabalhadores, os sacrifícios
impostos pelas arbitrariedades burocráticas não são mais nem menos
“aceitáveis” que os sacrifícios impostos pelos mecanismos cegos do
mercado. Representam apenas duas formas diferentes da mesma alienação”.
Ibid., p. 285.
11 — No seu impressionante recente livro sobre socialismo, o economista
marxista Argentino Claudio Katz enfatizou que o planeamento
democrático, supervisionado de baixo pela maioria da população, “não
equivale à centralização absoluta, estatização total, comunismo de
guerra ou economia de comando. A transição requer a primado do
planeamento sobre o mercado, mas não a supressão das variáveis do
mercado. A combinação entre ambas as instâncias deve ser adaptada a
cada situação em cada país”. No entanto, “a vontade do processo
socialista não é manter um equilíbrio inalterável entre o plano e o
mercado, mas promover uma perda progressiva das posições de mercado”.
C. Katz, El porvenir del Socialismo, Buenos Aires: Herramienta/Imago
Mundi, 2004, pp. 47-8.
12 — Anti-Dühring, p. 349.
13 — Kovel, Enemy of Nature, p. 215.
14 — Mandel, Power and Money, London: Verso, 1991, p. 209.
15 — Mandel observou: “Nós não acreditamos que a “maioria tem sempre
razão” (…) Todos cometem erros. Isto será certamente verdade para a
maioria dos cidadãos, a maioria dos produtores e também a maioria dos
consumidores. Mas haverá uma diferença básica entre eles e os seus
predecessores. Em qualquer sistema de poder desigual (…) os que fazem
as más decisões sobre alocação de recursos raramente são os que sofrem
as consequências desses erros (…) Desde que exista uma democracia
política real, escolha cultural real e informação, é difícil de
acreditar que a maioria prefere ver os seus bosques morrer (…) ou os
seus hospitais com falta de pessoal, do que corrigir rapidamente os
seus erros de alocação”. Mandel, ‘In Defense of Socialist Planning’,
New Left Review, 1/159, 1986, p. 31.
16 — Mandel, Power and Money, p. 204.
17 Michael Albert, Participatory Economics. Life After Capitalism, London, Verso, 2003, p. 154.
18 Para uma selecção do “crescimento negativo” ver Majid Rahnema (com
Victoria Bawtree), eds., The Post-Development Reader, Atlantic
Highlands, N.J.: Zed Books, 1997, e Michel Bernard et al., eds.,
Objectif Décroissance: vers une société harmonieuse, Lyon: Éditions
Parangon, 2004. O principal teórico francês do ‘décroissance’ é Serge
Latour, autor de La planète des naufragés, essai sur
l’après-dévéloppement, Paris: La Decouverte, 1991.
19 Ernest Mandel era céptico em relação às rápidas alterações dos
hábitos de consumo, como o carro privado: “Se, em vez de todos os
argumentos ambientais e outros, os produtores e consumidores quiserem
manter o domínio do automóvel privado e continuar a poluir as suas
cidades, eles estariam no seu direito. Alterações nas orientações de
longo prazo dos consumidores são geralmente lentas – poucos acreditam
que os trabalhadores nos EUA abandonariam a sua ligação ao automóvel no
dia seguinte à revolução”. Mandel, ‘In Defense of Socialist Planning’,
p. 30. Mandel está certo em insistir que as alterações nos padrões de
consumo não podem ser impostas, mas subestima seriamente o impacto que
teria um sistema extensivo e livre de encargos de transportes públicos,
bem como a aceitação da maioria dos cidadãos – já hoje, em várias
grandes cidades europeias – de medidas restritivas à circulação
automóvel.
20 Mandel, Power and Money, London: Verso, 1991, p. 206.
21 D. Singer, Whose Millenium? Theirs or Ours? New York: Monthly Review Press, 1999, pp. 259-60.
22 See S. Baierle, ‘The Porto Alegre Thermidor’, in Socialist Register 2003.
23 Walter Benjamin, Gesammelte Schriften, Volume I/3, Frankfurt: Suhrkamp, 1980, p. 1232.
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