Copenhaga: Seattle está a crescer criar PDF versão para impressão
01-Dez-2009
Dez anos após Seattle, Naomi Klein defende que o movimento está mais experiente e mais desobediente. Foto matthewbradley/FlickrHá dias, recebi uma cópia de pré-publicação de A Batalha da História da Batalha de Seattle, de David Solnit e Rebecca Solnit. Deve sair do prelo dez anos após uma coligação histórica de activistas ter impedido a cimeira da Organização Mundial do Comercio em Seattle, tendo sido a faísca que deu início a um movimento global anti- corporativo. Artigo de Naomi Klein.

 

O livro é o relato fascinante do que realmente aconteceu em Seattle, mas quando falei com David Solnit, o guru da acção directa que ajudou a projectar o impedimento, estava menos interessado em relembrar 1999 do que em falar da próxima cimeira das Nações Unidas em Copenhaga, sobre as alterações climáticas e as acções para uma «justiça climática» que está a organizar nos Estados Unidos para o dia 30 de Novembro. Solnit disse-me "Isto é definitivamente um momento do mesmo tipo que Seattle. As pessoas estão prontas para seguir em frente."

A mobilização para Copenhaga tem certamente uma qualidade semelhante à de Seattle: a presença de uma enorme variedade de grupos; as diversas tácticas que estarão em jogo; e os governos de países em desenvolvimento prontos para apresentar as exigências dos activistas na cimeira. Mas Copenhaga não é simplesmente uma repetição de Seattle. Pelo contrário, pressente-se mais como se as placas tectónicas progressivas estivessem a mudar, criando um movimento construído nas forças de uma era passada e que aprende com os seus erros.

A grande crítica ao movimento que os meios de comunicação insistiram em chamar "a antiglobalização" foi que tinha sempre uma «lista de roupa suja» e poucas alternativas concretas. Pelo contrário, o movimento que converge em Copenhaga concentra-se numa única questão – as alterações climáticas - mas tece um discurso coerente em torno da sua causa e das suas curas, que incorpora praticamente cada questão sobre o planeta. Neste discurso, o nosso clima não se está a alterar simplesmente por causa de determinadas práticas poluidoras, mas por causa da lógica subjacente do capitalismo, que valoriza o lucro a curto prazo e o crescimento perpétuo acima de tudo. Os nossos governos querem nos fazer acreditar que a mesma lógica pode agora ser utilizada para resolver a crise do clima - criando uma mercadoria comerciável chamada "carbono" e transformando as florestas e as terras de cultivo em «vazadouros» que supostamente compensarão as nossas emissões excessivas.

Os activistas pela justiça climática em Copenhaga argumentarão que, longe de resolver a crise do clima, o comércio do carbono representa uma privatização sem precedente da atmosfera, e que as compensações e «os vazadouros» tornar-se-ão um recurso de apoderamento com proporções coloniais. Não só estas "soluções baseadas no mercado" não irão conseguir resolver a crise do clima, mas este fracasso aprofundará dramaticamente a pobreza e a desigualdade, porque os mais pobres e os povos mais vulneráveis são as primeiras vítimas das alterações climáticas – semelhantes a cobaias para esses esquemas de comércio das emissões.

Mas os activistas em Copenhaga não dirão simplesmente não a tudo isso. Promoverão agressivamente soluções que simultaneamente reduzam as emissões e limitem as desigualdades. Diferentemente das cimeiras prévias, onde as alternativas pareceram uma reflexão tardia, em Copenhaga as alternativas tornar-se-ão o alvo central. Por exemplo, a acção directa da coligação Acção para a Justiça Climática mobilizou activistas a tomar de assalto o centro de conferência no dia 16 de Dezembro. Muitos o farão como parte do «bike bloc», montados em conjunto numa "nova máquina irresistível até agora não revelada da resistência" composto por centenas de velhas bicicletas. O objectivo da acção não é impedir a cimeira, ao estilo de Seattle, mas abri-la, transformando-a num «espaço para falar sobre a nossa agenda, uma agenda vinda de baixo, uma agenda da justiça climática, de verdadeiras soluções contra as falsas soluções... Será o nosso dia."

Algumas soluções oferecidas pelo campo dos activistas são as mesmas que o movimento de justiça global tem promovido durante anos: agricultura local sustentável; pequenos projectos de energia descentralizados; respeito pelos direitos da terra dos indígenas; deixar o combustível fóssil na terra; alivio das protecções em tecnologia verde; pagando para essas transformações por meio de uma taxa as transacções financeiras e cancelando as dívidas estrangeiras. Algumas soluções são novas, tais como a exigência acrescida de que os países ricos paguem reparações «de dívida climática» aos pobres. Essas são prioridades, mas acabamos todos por ver o tipo de recursos que os nossos governos mobilizam quando se trata de salvar as elites. Tal como podemos ler num slogan de pré - Copenhaga: "se o clima fosse um banco, teria sido salvo" – e não abandonado à brutalidade do mercado.

Além do discurso coerente e a ênfase nas alternativas, há também muitas outras mudanças: uma aproximação mais reflectida para acções directas, que reconhece que há urgência em fazer mais do que simplesmente conversar, e está determinado em não entrar no esquema costumeiro dos policias contra os manifestantes. "A nossa acção é do tipo de desobediência civil," dizem os organizadores da acção de 16 de Dezembro. "Superaremos qualquer barreira física que esteja no nosso caminho - mas não responderemos com violência se a polícia tentar provocar conflitos." (Dito isto, não haverá maneira de evitar durante as duas semanas da cimeira que hajam alguns confrontos entre policias e jovens arruaceiros; afinal, isto é a Europa.)

Há uma década, numa crónica do New York Times e publicada depois de Seattle, escrevi que um novo movimento que defende uma forma radicalmente diferente de globalização " acabou de emergir". Qual será o significado de Copenhaga? Fiz a pergunta a John Jordan, cuja previsão do que eventualmente aconteceu em Seattle citei no meu livro No Logo. Ele respondeu: "Se Seattle foi o movimento dos movimentos que «acabaram de emergir», então talvez Copenhaga será uma celebração do nosso amadurecimento."

Contudo, ele adverte que crescer não significa jogar pelo seguro, evitando a desobediência civil a favor de reuniões calmas. "Espero que tenhamos crescido para nos tornarmos muito mais desobedientes," disse Jordan "porque a vida neste nosso mundo pode acabar devido de demasiados actos de obediência."


Este artigo saiu na edição de 30 de Novembro de 2009 do The Nation.

Traduzido por Ana da Palma.


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