Obama e a esperança que diminui criar PDF versão para impressão
21-Dez-2009
Foto Steve Rhodes/FlickrO primeiro ano da administração Obama veio confirmar as reticências de muitos acerca da prometida "mudança" no sistema político e económico dos EUA. A promessa falhada de encerrar Guantanamo no prazo de um ano e o reforço da guerra no Afeganistão são a marca deste início de mandato.

 

A escolha dos colaboradores mais próximos na Casa Branca foi o primeiro teste para verificar que a proclamada intenção de mudança não correspondia à realidade. Afastados os nomes considerados da esquerda do partido Democrata, Obama escolheu vários republicanos para o governo, a começar pela pasta da Defesa onde manteve Robert Gates no mesmo posto onde fora nomeado por George W. Bush após a demissão de Donald Rumsfeld. Também Ray LaHood, secretário dos Transportes e John McHugh, secretário do Exército, ocuparam cargos de responsabilidade no partido Republicano.

Outra das promessas falhadas de campanha foi a de que "nenhum lóbista conseguirá emprego na minha Casa Branca". Após ser eleito, Obama fez aprovar a regra que impedia que lóbistas registados nos últimos dois anos e nomeados para a administração pudessem intervir em áreas relacionadas com o antigo lóbi durante um prazo de dois anos após a nomeação. A contradição valeu-lhe muitas críticas, mas não impediu Obama de nomear 21 ex-lóbistas para a Casa Branca.

O fracasso da emblemática promessa de encerrar a prisão ilegal de Guantanamo em Janeiro de 2010 já foi admitido pelo próprio Obama, com os EUA em dificuldades para dar algum destino aos mais de duzentos detidos sob acusações de terrorismo. Na maior parte dos casos, a falta de provas que possam sustentar as acusações tornam impossível qualquer julgamento civil ou miltar, e as tentativas de colocar esses suspeitos noutros países nem sempre tem sido bem recebida. Alguns deles deverão ser mesmo julgados e a alternativa deverá passar pelo transporte da maioria dos prisioneiros para os EUA, apesar da oposição da opinião pública.

A questão da tortura também esteve no topo da agenda presidencial, com Obama a assinar logo na primeira semana uma ordem executiva proibindo acções de tortura por parte dos militares norte-americanos. Mas deixou de fora a chamada "tortura por procuração", executada por soldados ou mercenários estrangeiros sob a supervisão norte-americana, e que constitui a esmagadora maioria dos actos de tortura praticados nos cenários de guerra ou intervenção dos EUA.

No plano militar, Obama recuou em relação aos planos de Bush para implementar o escudo antimíssil no leste europeu, aliviando a tensão com a Rússia, que considerava o plano como uma ameaça à sua segurança nacional. Mas por outro lado anunciou o reforço das tropas no Afeganistão para um total de 100 mil soldados para proteger o desacreditado governo de Karzai e atacar os talibãs e a al-Qaeda.

O primeiro ano de Obama terminou sob o signo da contradição, com o discurso de aceitação do seu Nobel da Paz a centrar-se na defesa da guerra no Afeganistão e, dias depois na cimeira de Copenhaga, dizendo que era altura de acções e não de palavras para combater as alterações climáticas, sem que a isso tenha correspondido uma proposta concreta sobre metas para a redução das emissões de carbono que pudesse dar origem a um acordo vinculativo.

Uma das prioridades da campanha que está perto de ser alcançada é a da reforma do sistema de saúde, com a Câmara dos Representantes a aprovar pela margem mínima a proposta que visa alargar a protecção na saúde a todos os norte-americanos. Antes de vir a ser lei, a proposta terá ainda de passar no Senado e ser redesenhada para aprovação final em ambas as Câmaras. Apesar de nunca ter posto em causa os seguros privados como base do sistema de saúde no país, a proposta inicial já foi sujeita a tantas alterações que a versão final deverá conter apenas o reforço da regulação das seguradoras e o alargamento da cobertura aos 36 milhões que actualmente não a têm.

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