Irão: presidenciais abrem brecha no regime criar PDF versão para impressão
21-Dez-2009
Foto GhalamnewsA revolta encheu as ruas de Teerão quando foram anunciados os resultados das presidenciais de Junho. O poder de Ahmadinejad tremeu pela primeira vez na campanha, mas apesar das denúncias de irregularidades acabou por ser validada a sua vitória com 64%. A repressão que se seguiu matou dezenas de pessoas e levou quatro mil à prisão. Seis meses depois, cerca de 140 opositores continuam presos e pelo menos cinco foram condenados à morte.

 

O descontentamento dos iranianos com as promessas falhadas de Ahmadinejad, nomeadamente no campo da recuperação económica do país, catapultaram o ex-primeiro-ministro Mir-Hossein Moussavi para o lugar de principal adversário do presidente nas presidenciais. A seu lado teve o apoio de boa parte da juventude urbana, que deseja ver no poder os políticos que acompanhem o grande ritmo da modernização dos costumes na sociedade iraniana nos últimos 30 anos

Ao perceber a dimensão da ameaça, o regime não perdeu tempo e logo no início da campanha bloqueou o acesso dos iranianos à rede social Facebook, usada pelos apoiantes de Moussavi para se organizarem e anunciarem as suas iniciativas. Usando o verde como cor de campanha, a onda de esperança da oposição cresceu durante a campanha até ao dia do voto em que participaram mais de 46 milhões de eleitores, 82% dos inscritos.

O anúncio da vitória esmagadora de Ahmadinejad foi por isso recebido por Moussavi como "uma farsa perigosa" e pediu em seguida a repetição das eleições. O governo só admitiu fazer uma recontagem e proibiu as manifestações de contestação aos resultados, bloqueando o envio de sms e restringindo as chamadas de telemóvel. Indiferentes à proibição, milhares de pessoas saíram às ruas de Teerão, gritando "Onde está o meu voto?", num cortejo encabeçado pelo candidato da oposição. Sete manifestantes morreram e iniciou-se uma vaga de prisões e buscas domiciliárias nas residências de dirigentes da oposição

Ahmadinejad mobilizou também a sua base eleitoral e deu uma prova de força, juntando o mesmo número de manifestantes na capital. A televisão do Irão transmitiu em directo esta iniciativa e o governo proibiu todos os canais de sequer filmarem a manifestação da oposição. Nas manifestações das semanas seguintes morreram dezenas de pessoas vítimas da repressão - o governo admitiu 20 mortes - e o Conselho dos Guardiães, a máxima autoridade constitucional do país, concluiu que em 50 cidades houve mais votantes que inscritos, o que implica erro em três milhões de votos. A recontagem dos votos não iria colocar em risco a vitória previamente anunciada.

Na sequência dos protestos após as eleições, a linha dura do regime apelou ao julgamento dos candidatos da oposição por quererem liderar um "golpe de estado". Mas a oposição, embora sem o ímpeto inicial, continuou a sair à rua e a fazer-se ouvir, quer durante as habituais marchas anuais anti-Israel, quer nas comemorações do 4 de Novembro, que marcou o 30º aniversário da crise dos reféns da embaixada dos EUA.

Em Outubro, chegaram as primeiras sentenças de morte, para 3 dos cerca de 400 opositores presos, entre os quais estão jornalistas, professores e estudantes das universidades e políticos afectos ao candidato derrotado Mir Hussein Moussavi, e aos ex-presidentes Rafsanjani e Khatami. Um dos líderes estudantis presos e levados a confessar em tribunal, Abdullah Momeni, alega ter sido vítima de tortura na prisão.

Os protestos da oposição voltaram a sair à rua em Dezembro, no funeral do ayatollah Ali Montazeri, que cindiu com Khomeini e se tornou numa voz defensora dos direitos humanos no Irão. Centenas de milhar de pessoas participaram no cortejo fúnebre gritando slogans ant-governamentais.


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Dossier "A revolta iraniana"
 

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