Honduras: o regresso dos golpistas à América Latina criar PDF versão para impressão
21-Dez-2009
Foto YamilGonzales/FlickrQuando alguns membros do exército hondurenho tiraram Manuel Zelaya do palácio presidencial para o levar para a Costa Rica, foi difícil não lembrar o passado da América Latina repleta de golpes de estado com a bênção de Washington. A história voltou a repetir-se nas Honduras do século XXI.

 

Naquela madrugada de 28 de Junho, os golpistas conseguiram impedir a realização de uma consulta popular convocada por 400 mil assinaturas que perguntava aos hondurenhos se concordavam ou não com uma nova urna nas eleições gerais de Novembro para eleger uma assembleia constituinte em 2010. A oposição representada no Congresso Nacional e nos Tribunais Superiores, nomeados pelo Congresso, opôs-se veementemente à consulta popular e às mudanças na Constituição propostas por Zelaya, que comprometiam os poderes instalados nas Honduras, ao nível económico e militar.

Afastado Zelaya, os golpistas começaram por sofrer o isolamento internacional, com a suspensão do país da Organização dos Estados Americanos e a União Europeia a retirar os seus embaixadores do país. Em Portugal, o parlamento aprovou por unanimidade um voto de condenação do golpe, por iniciativa do Bloco de Esquerda.

Na capital Tegucipalga, a população não respeitou o recolher obrigatório decretado pelos golpistas e as ruas foram invadidas pela presença militar para conter a revolta dos que pediam o regresso do presidente.

"Se os Estados Unidos não estão por detrás deste golpe, os golpistas não poderão manter-se nem 48 horas no poder", declarou Zelaya à cadeia Telesur no dia seguinte a ter sido expulso do país. Mas a posição norte-americana foi evoluindo desde a condenação até à preocupação, terminando na aceitação da marcação de eleições presidenciais pelos golpistas, boicotadas pelos apoiantes do presidente Zelaya.

Zelaya nunca desistiu de voltar ao país, e após algumas tentativas falhadas acabou por encontrar abrigo na embaixada brasileira, que a partir daí foi alvo de um bloqueio pelas tropas apoiantes do golpe. O presidente do Congresso, Roberto Micheletti, foi designado presidente das Honduras, com o apoio da direita e da Igreja e a reunião da OEA foi dominada pelo golpe de estado no país

As negociações entre os golpistas e Manuel Zelaya para permitir o regresso do presidente ao cargo que lhe pertence duraram até Novembro e fracassaram por completo, com Zelaya a considerar ilegais as eleições marcadas para Novembro e a recusar-se "a encobrir o golpe de estado", como escreveu numa carta a Barack Obama. O suposto governo de unidade acabou por ser composto apenas por apoiantes de Micheletti, naquela que foi a machadada final nos esforços para conseguir um acordo entre ambas as partes.

Já após as eleições boicotadas pelos apoiantes do presidente, a situação das Honduras também fez parte da agenda da cimeira ibero-americana no Estoril, onde os países membros não chegaram a acordo acerca da atitude a tomar face ao reconhecimento ou não das eleições. Divergências diplomáticas que não afectaram a cimeira do Mercosul, com os presidentes do Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e da Venezuela (na qualidade de país associado) a manifestarem "o total e pleno desconhecimento do pleito eleitoral realizado em 29 de novembro pelo Governo de facto".

 


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Dossier Golpe de Estado nas Honduras


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