Ano novo, que movimentos e lutas sociais? criar PDF versão para impressão
27-Dez-2009
Manifestação nacional da CGTP realizada em Março de 2009Defende-se aqui que é urgente que a militância social se torne uma aposta decisiva de toda a esquerda anti-capitalista.
Artigo de Carlos Carujo

1- O grande circo da governabilidade

Ao que parece, o clima político imediato continuará marcado pela histeria do governo minoritário que vive entre a provocação e a vitimização face às "coligações negativas" e à existência de uma oposição em geral e as picardias com um Presidente baralhado à procura de uma reeleição. Ironicamente, é o regresso do "deixem-me trabalhar" hoje como arma de arremesso também contra Cavaco. Mas o trabalho em causa talvez não seja substancialmente diferente...

Dos orçamentos mais ou menos limianos às negociatas políticas de fundo sempre feitas com a direita, das acusações de corrupção e deficit democrático à continuação do business as usual do centrão político, o país arrisca-se a viver uma conjuntura em que a uma agitação de superfície corresponde o pano de fundo intocável de uma modernização conservadora assente em baixos salários e qualificações de fachada, "novas oportunidades" que são a velha oportunidade para os mesmos de sempre e choques tecnológicos que não passam de arrepios mediáticos.

Trata-se de um jogo vazio de "crises políticas" que instalam um discurso hegemónico sobre a governabilidade que favorece o arco do poder. A governabilidade é a tese de resistência dos partidos dominantes à crise política de fundo que se esconde por sob as crises mediatizadas. A governabilidade enquanto irmã gémea destas crises mediatizadas é, portanto, para reafirmar o mesmo por outras palavras, uma tentativa de manter o status quo face à profunda crise económica e ambiental e não a resposta que é necessário dar-lhe.

2- Do circo da governabilidade à resposta das lutas sociais

A governabilidade enquanto discurso da necessidade de um governo de maioria absoluta ou de uma coligação estável pode também alimentar a esperança de uma via de saída alternativa: uma governabilidade estabelecida pela soma de uma maioria relativa do PS com os partidos à sua esquerda através de um apoio crítico ou de uma pressão permissiva à esquerda. É a ideia de desfazer o nó górdio do sistema político nacional apenas a golpe de espada eleitoral, como se fosse assim tão simples alterar a natureza do partido do governo já para não falar na correlação de forças na luta de classes. Desta forma, essa "governabilidade alternativa" encerrar-se-ia no plano do político enquanto partidário, parlamentar ou governamental e escapar-lhe-ia o elemento fundamental nesta equação: os movimentos e as lutas sociais.

Claro que estes são também marcados pela conjuntura e pelas construções "teóricas" feitas a seu propósito. É para responder a esta conjuntura que se traçam tácticas em que um dos elementos importantes a ponderar é o quadro político-partidário; a conjuntura interfere também com os ritmos das lutas sociais, com os compassos de espera face aos novos governos, as intensificações quando os calendários eleitorais apertam, os momentos de suposta vulnerabilidade política que se aproveitam etc.; a conjuntura influenciará assim a percepção dos protagonistas dos movimentos sociais sobre a sua capacidade de impor mudanças não se encontrando estes também imunes aos discursos hegemónicos que sub-repticiamente vão ocupando o espaço público.

Mas, para além das reflexões tácticas, os futuros imediatos têm-se vindo a encarregar repetidamente de desmontar as esperanças dos/as que, a partir do ponto de vista das lutas sociais, invistam numa solução governamental para as suas questões. De cada vez, a um mínimo eleitoralista de esquerda o PS faz corresponder um máximo político do governo dos interesses dos poderosos. Sendo assim, se o momento já é defensivo para a esquerda, a ilusão política que se instale nos movimentos sociais corre o risco de encerrar as lutas num quadro mínimo de apertadíssimas possibilidades e em conquistas mais que parciais. Não perdendo de vista que o clima de "crises" do próximo ano pode ser propenso a vitórias parciais ou a vitimizações do poder que culpem também as forças da esquerda social, é necessário ultrapassar o plano da táctica e pensar estrategicamente nas debilidades e forças dos movimentos sociais portugueses.

3- Por debaixo da calçada política, a praia ou o deserto?

Tendo a consciência de que não se pode desfazer o puzzle calçada política de um sopro, somos forçados a ponderar no que está, à esquerda, se mexe no plano social por debaixo deste.

A primeira constatação, tal como as outras na verdade, é óbvia: o panorama nacional é marcado por um desequilíbrio forte entre esquerda política e esquerda social. A uma esquerda política (entenda-se a esquerda à esquerda do PS) forte, em crescimento eleitoral, corresponde uma esquerda social fraca. Com a excepção do sindicalismo, os movimentos sociais mobilizam poucos e intermitentemente. Uma fraqueza que se pode explicar por razões endógenas: os nativos viveram muitos anos de uma ditadura que instaurou processos fortes de conformismo apenas rasgados brevemente pelo vendaval de Abril. Ou também se pode ensaiar explicar esta fraqueza pela crise de cidadania própria dos regimes políticos actuais, pela precarização e atomização sistémica do capitalismo actual. Seja qual for a razão, a fraqueza dos movimentos sociais é um dos maiores entraves à possibilidade de uma transformação social socialista.

Uma fraqueza que não foi colmatada com o surgimento do "movimento dos movimentos", dos Fóruns Sociais Mundiais, da movida alterglobalização que em Portugal teve muito pouca expressão.

Só depois desta constatação se avança para uma outra de contornos globais: várias vezes esquerda social e esquerda política estão, na prática, de costas voltadas dificultando assim uma coligação positiva entre lutas sociais e o plano político-partidário. Para justificar este divórcio construíram-se auto-justificações diferenciadas. Sigo aqui Daniel Bensaïd que distingue a ilusão política (que atinge direcções políticas autistas e auto-suficientes, com a ideia de que a sua posição cimeira no plano político permite uma visão de conjunto que escapa aos activistas sociais, que atinge partidos com intenções dirigistas e controleiras a respeito dos movimentos sociais, que acaba por sacrificar o plano da luta social ao plano do combate político-partidário) e a ilusão social (que atinge movimentos sociais, sobretudo as novas teorias da alterglobalização, que acham arcaico e/ou inerentemente conspurcado o plano partidário e o Estado). A esquerda grande é, mais do que a que junta várias partes do espectro político, aquela que estabelece uma dialéctica prática e aberta entre as várias esquerdas sociais em si e entre estas e as esquerdas políticas.

4- Mil movimentos florescerão?

Constatando a fraqueza e o divórcio ou a subordinação entre planos, defende-se aqui que é urgente que a militância social se torne uma aposta decisiva de toda a esquerda anti-capitalista e que, para lá dos calendários eleitorais e das crises, o próximo ano poderia ser altura disso.

É o tempo em que sentimos que há mil militâncias onde sentimos necessidade de (re)investir de um ponto de vista activista e radical. É o tempo em que há a urgência de (re)inventar todas as lutas em que participámos e participamos. Contudo, há igualmente o sentimento natural da distância que vai entre todas as lutas transformadoras necessárias e aquelas em que podemos investir porque não nos podemos desdobrar em todas elas e porque não somos nunca tantos/as quantos/as os/as queremos ser. E, sendo a parte mais forte, a componente política deste processo tem a responsabilidade paradoxal de fazer um investimento não controleiro nos movimentos sociais. Fácil de dizer, difícil de escapar às tentações dirigistas ou de take-overs sobre movimentos, de conseguir diálogos frutuosos com as componentes apolíticas desses movimentos, de não acabar por reduzir estas lutas a agendas políticas e a ganhos eleitorais.

Há a necessidade de identificar pontos de fractura fundamentais do ponto de vista sistémico (dos movimentos ecologistas e ecossocialistas que respondem à crise ambiental estrutural, aos movimentos anti-precariedade que respondem à estrutura laboral dos nossos tempos, aos movimentos de lutas pelos direitos sociais e pelo bem comum atacado pelas perspectivas liberais que permanecem dominantes) mas há também a necessidade de não hierarquizar lutas nem menosprezar planos de militância sejam molares sejam moleculares, de não reduzir a riqueza da diversidade a um discurso simplista de prioridades (políticas ou sociais), de pensar com o que está fora da nossa zona de conforto, de dialogar com outros pontos de vista e de aprender com outras militâncias. Não há receitas para isto mas há encontros marcados no campo das lutas sociais a fazer. Há as muitas mãos necessárias para meter a estas (tantas) obras?

Carlos Carujo

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