2010, a crise continua criar PDF versão para impressão
28-Dez-2009
A crise continua em 2010: Imagem de bolso vazioOs riscos sistémicos de economias presas a sistemas financeiros que flutuam sobre mares de activos tóxicos repercutem-se na economia portuguesa porque dominarão as grandes economias no ano de 2010.
Artigo de Francisco Louçã

"Acabou a recessão técnica", clamava o primeiro-ministro no Verão. Desde então repetiu sempre o mesmo: tudo resolvido, o governo fez o que tinha a fazer, o país voltou aos carris do progresso.

Só que havia nesta história, como na da morte da Mark Twain, um ligeiro exagero. Em primeiro lugar, porque este critério de "recessão técnica" é um critério técnico para esconder a recessão. Com estas contas, uma economia pode estar a decrescer e a criar desemprego durante anos seguidos e estar "tecnicamente" fora da recessão. Este conceito é ignorante e enganador.

Em segundo lugar, o governo escondeu os números do descalabro orçamental, consequência do aumento das despesas e diminuição de receitas que o prolongamento da recessão inevitavelmente provoca. Foi precisamente quando proclamava que tinha "terminado a recessão técnica" que o governo pediu um orçamento rectificativo para aumentar a dívida pública este ano em quase 10% do PIB. Veja-se um detalhe das contas enganadoras: neste momento, as contas públicas não registam o buraco do BPN (que haverá de andar entre os 2 e os 3 mil milhões de euros quando se apurarem as contas finais) e só regista um activo, os 380 milhões de euros da conta de participações do Tesouro, que correspondem ao capital social do banco, mesmo que este não valha nada. O pior das contas ainda está para vir.

Finalmente, a crise continua por uma outra razão. É que, ao longo de toda a década, o crescimento da economia foi medíocre, a divergência europeia acentuou-se e o desemprego estrutural de longo prazo agiganta-se. Nesta economia dependente de outras, nem as exportações crescem nem a produção se reconverte.

Assim, os riscos sistémicos de economias presas a sistemas financeiros que flutuam sobre mares de activos tóxicos repercutem-se na economia portuguesa porque dominarão as grandes economias no ano de 2010. O risco de nova recessão continua muito significativo.

A crise continua, ainda, porque o fracasso dos senhores da economia é a maldição nacional: Belmiro de Azevedo preocupa-se com a imposição das 60 horas semanais nos hipermercados e centros comerciais, e Américo Amorim preocupa-se com as rendas que o Estado lhe garante. Nem emprego, nem qualificação, nem inovação, nem justiça na economia. Essa é a crise de 2010.

Francisco Louçã

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