Afastaram-se os carrascos, perdoaram-se
os desobedientes, reformulam-se algumas políticas. Os professores
ganharam uma batalha, mas falta muito para que a escola vença a
guerra.
Artigo de Miguel Reis
Vale a pena lutar, mesmo quando a
montanha parece não se mover. Se 2008 foi o ano dos protestos
gigantes dos professores, foi preciso esperar por 2009 para o governo
declarar oficialmente tréguas. Mas a luta pela escola pública vai
continuar em 2010.
Depois de tanta força colidir contra a
muralha do autoritarismo, parecia sobrar apenas a resistência longa
e desgastante. Em 2009 os professores tentaram inventar novos
fôlegos. Repetir os cem mil na rua seria sempre difícil. Restava a
luta arriscada das dezenas de milhares que não se renderam e
experimentaram o que é a desobediência civil.
Ainda assim, foram mais de 50 mil os
que em Maio desceram a avenida. A uma semana do período eleitoral,
experimentava-se a vingança. Assim foi: o PS perdeu as eleições
europeias e deixou fugir a maioria absoluta nas legislativas. A luta
dos professores pesou nas urnas tal como já tinha pesado nas ruas.
Porque o voto dos professores não foi só deles: foi de todos e
todas os que disseram não à tecnocracia de rosto desumano.
Encostado à parede, o governo declarou
tréguas mas ao mesmo tempo mostrou-se viscoso como uma serpente.
Nova ministra, nova atitude, mas sem largar o osso das políticas.
Nesta tentativa de manter a face contou com um aliado previsível: o
PSD contemporizou e salvou Sócrates de uma derrota contundente no
parlamento.
O projecto da escola empresa que produz
estatísticas agradáveis à vista está agora em cheque, mas ainda
longe de ser vencido. Afastaram-se os carrascos, perdoaram-se os
desobedientes, reformulam-se algumas políticas. Os professores
ganharam uma batalha, mas falta muito para que a escola vença a
guerra.
Directores, cadeias de comando e
professores que competem contra professores. Hierarquias
militarizadas e obedientes que garantem a produção e reprodução
de resultados artificiais. Instituições baratas, sem recursos para
o sucesso real de todos os alunos, sustentadas à custa da
precariedade e do medo servil de milhares de profissionais. Esta é a
escola de Sócrates. É uma escola refém do neoliberalismo.
Resta aos professores levar a luta até
ao fim. Movimentos e sindicatos devem recusar a precarização e
menorização da carreira docente, mas têm a obrigação de ir mais
longe.
Impõe-se um desafio mais ambicioso:
lutar por uma escola que não desista de ninguém. Exigir menos
alunos por turma e equipas multidisciplinares que previnam o
insucesso. Reformular os currículos e reduzir a carga horária.
Munir as escolas de todos os meios que garantam a igualdade de
oportunidades.
Porque faz falta libertar a escola. Faz
mesmo muita falta fazer dela uma arma: contra a selva neoliberal e
pela cidadania crítica e sem exclusões.
Miguel Reis
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