Na
verdade, da análise dos números resulta uma conclusão
incontornável, a de que a violência doméstica é sobretudo
violência contra as mulheres. Os números dizem-nos, portanto, que a
dominação masculina existe, persiste e tem de ser combatida.
Dizem-nos que precisamos de transformação, de emancipação, de
organização social, de luta feminista.
Artigo de Sofia Roque
Em
2009, os dados do Observatório de Mulheres Assassinadas da UMAR,
ainda provisórios, contabilizam desde já, 25 mulheres assassinadas,
1 vítima mortal associada, 43 mulheres vítimas de tentativa de
homicídio, 3 vítimas feridas na sequência dos homicídios e 23
vítimas na sequência das tentativas.
Segundo
o relatório do primeiro semestre de 2009, da Direcção Geral da
Administração Interna, disponibilizado pela Comissão para a
Cidadania e a Igualdade de Género (CIG),
foram registadas pelas Forças de Segurança, um total de 14.600
queixas de violência doméstica, o que corresponde a uma média de
cerca de 81 queixas por dia, verificando-se um aumento de 12% face ao
período homólogo do ano passado. Sabe-se que a larga maioria das
vítimas (85%) é do sexo feminino e que quase dois terços destas
(65%) possuía uma relação de tipo “conjugal” com o/a
denunciado/a (em 17% existira essa relação). Em 91% dos casos há a
indicação da existência de situações anteriores de violência
doméstica praticadas pelo/a mesmo/a denunciado/a em relação à
presente vítima.
Em
Outubro deste ano foi apresentado um estudo da Associação
Portuguesa de Mulheres Juristas, divulgando que muitas vítimas de
violência doméstica têm de viver escondidas mais de um ano até à
conclusão do inquérito judicial o que revela a ineficácia da
Justiça no combate ao crime que mais mata em Portugal. Além disto,
também se sabe que apenas cerca de 2% das denúncias dão de facto
origem a uma condenação.
Através
deste cálculo frio da realidade, ficamos a saber que o número de
mulheres assassinadas diminuiu, mas também que as queixas aumentaram
embora não correspondam a um aumento de condenações. Há indícios
de mudança mas não são satisfatórios. São apenas sinais de que a
violência doméstica começa a ser menos mortal e de que os
mecanismos legais e de apoio social, ainda muito imperfeitos e
insuficientes, existem e vão permitindo às mulheres não terem
tanto medo e fazerem uma queixa. Mas serão sempre muitas as mortes,
serão sempre muitas as queixas - não há mínimos aceitáveis.
Na
verdade, da análise dos números resulta uma conclusão
incontornável, a de que a violência doméstica é sobretudo
violência contra as mulheres. Os números dizem-nos, portanto, que a
dominação masculina existe, persiste e tem de ser combatida.
Dizem-nos que precisamos de transformação, de emancipação, de
organização social, de luta feminista.
O
ano de 2009 começou com o agendamento da discussão no parlamento de
vários projectos de lei sobre violência doméstica. A maioria PS
aprovou o documento do Governo mas rejeitou as propostas do Bloco de
Esquerda e do PCP. Não
se registam avanços no combate à violência contra as mulheres.
A
proposta do Governo foi acertadamente criticada por criar algo como o
“estatuto da vítima”, que depende do pedido da própria e sem o
qual esta não tem acesso a vários apoios, pelo não reconhecimento
da violência doméstica como uma forma de violência de género, por
pôr em causa a necessidade de confidencialidade das casas abrigo e
por causa da obrigação do chamado “encontro
restaurativo”.
Contudo, o debate político alargou-se e
centrou-se também em torno do projecto
de lei
do Bloco que não foi aprovado pela maioria PS, mas cujas propostas
mereceram a aceitação das várias organizações que participaram
na Audição Parlamentar sobre Violência Doméstica, promovida pelo
Bloco em Fevereiro de 2009.
Em causa estavam as propostas da
criação de Juízos Especializados nos Tribunais, da alteração do
Código Penal, no sentido de se deixar de aplicar o conceito de crime
continuado a crimes contra pessoas, uma vez que cada acto de
violência deverá ser tratado como um crime isolado e não como um
amontoado de ocorrências considerados depois no seu conjunto, e a da
introdução de meios electrónicos de controlo à distância
(pulseiras electrónicas) para fazer cumprir as ordens de afastamento
dos agressores.
O Bloco não desiste das suas propostas e já
anunciou que irá reapresentá-las para debate nesta legislatura. Uma
outra questão virá à discussão também, a da limitação legal
específica do crime de homicídio conjugal. Trata-se de uma
alteração que permitirá julgar e prevenir os homicídios que
resultam de uma violência específica, não apenas qualificada, e
que é exercida por quem é muito próximo ou foi, implicando
maioritariamente uma dominação de género.
No final de 2009, em
Novembro, iniciou-se uma nova campanha, de âmbito internacional,
promovida conjuntamente pela CIG,
em colaboração com o Instituto
Português da Juventude.
Uma campanha que tem por objectivo unir os 22 países
ibero-americanos, em especial a juventude, no comprometimento contra
a desigualdade e contra a violência de género através do movimento
social “Maltrato
Zero”.
Mesmo que não acompanhem os sucessivos governos descomprometidos com
o combate à violência de género, estas iniciativas são positivas
porque são fundamentais para a politização do problema, isto é,
para a sua consciencialização e discussão pública.
O ano que
passa ficou então marcado pela diferença dos números e pela
oportunidade perdida no parlamento para melhorar a legislação e a
própria Justiça, a par da importância das campanhas institucionais
e do trabalho das organizações feministas que se revela permanente
e consequente. Daqui para a frente, o novo parlamento poderá
voltar a ser palco de disputa de medidas transformadoras mas as ruas
terão de ser o espaço do movimento que tem de abrir, enraizar-se.
Materializando-se em qualquer aspecto da vida, a violência
contra as mulheres deve ser entendida e combatida como violência
estrutural. É um tipo de violência cuja legitimidade aparece
diluída e é transmitida através dos vários mecanismos de
socialização que estão ainda dominados por uma moral patriarcal
cujo véu é a formalidade da igualdade consagrada na lei e o
discurso politicamente correcto.
A violência contra as mulheres
tem de invadir o espaço público, não através dos rostos
envergonhados ou dos corpos batidos que passam, mas a partir do
confronto com a verdade dos números e com as mentalidades, com a
desconstrução dos conceitos e com a crítica dos costumes, com a
imposição da escolha: entre a dominação e a igualdade, entre a
opressão e a liberdade, entre a indiferença e a
responsabilidade.
2010 poderá ser um ano de escolhas, se
quisermos.
Sofia
Roque
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