A Economia Política do desastre no Haiti criar PDF versão para impressão
23-Jan-2010
Devastação em Port-au-Prinnce, Foto de United Nations Development Programme, FlickR O desastre no Haiti deve ser visto como o reflexo macabro das consequências irresponsáveis da implementação de políticas liberais num contexto de extrema desigualdade e pobreza.
Por Gustavo Toshiaki

O conceito de desastres naturais esconde o facto de que os impactos deste tipo de acontecimento são sistematicamente desproporcionais nos países mais pobres. 90% das vítimas de desastres naturais vivem em países em desenvolvimento.

Nos últimos 50 anos, o Haiti foi sistematicamente assolado por outras catástrofes naturais, cerca de 67 episódios, tais como inundações, furacões e desmoronamentos, onde para além da destruição em termos económicos, foram afectadas mais de 4 milhões de pessoas e contabilizadas mais de 14 mil vítimas mortais. Apenas uma catástrofe na dimensão dos eventos recentes foi capaz de captar a atenção internacional.

A história recente do Haiti talvez possa ser descrita com uma única palavra, "instabilidade". Entre 1986 e 2009 o Haiti teve nada mais do que 17 alterações de governos, 3 períodos sem chefe de Estado, uma ocupação por parte dos Estados Unidos, e vários períodos de intervenção das forças das Nações Unidas para assegurar um nível mínimo de segurança. Mais do que a influência directa que muitos países exerceram na busca pela exploração do povo e dos recursos haitianos, toda a lógica de apoio internacional era de alguma forma pervertida pela conivência cega justificada com a crença no caminho pelo mercado.

Diante de estruturas de poder onde o governante conta apenas com uma pequena parcela da população como suporte de seu Governo, as decisões sobre investimentos em prevenção de desastres naturais passam por duas questões fundamentais. Por um lado é importante lembrar que os investimentos deste tipo são pouco apelativos na "contabilidade eleitoral", visto que tendem a ter resultados demasiado dilatados no tempo e pouco visibilidade diante da ausência de catástrofes. No caso específico do Haiti outra questão mostrou-se fundamental para que nada fosse feito, o simples facto de os desastres naturais serem claramente favoráveis à consolidação do poder instaurado.

Tal fenómeno devia-se ao facto de uma pequena elite local concentrar os meios de produção no país. Todos os anos os desastres naturais geravam um afluxo de investimentos humanitários que perversamente era quase que exclusivamente capturado pelas elites locais, reforçando o poder destas elites e perpetuando um mecanismo de desincentivo à prevenção de desastres naturais.

As evidências mostram que medidas sistémicas de gestão e coordenação de resposta aos desastres naturais possuem um impacto muito mais significativo do que o montante de recursos envolvidos. O Haiti está prestes a atravessar o período de furacões, cujas consequências ainda podem ser muito graves. A comunidade internacional será novamente responsável por uma tragédia que podia e devia ter sido evitada e cujo a incidência nada tem de natural.

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