Ocupação militar do Haiti - reserva estratégica dos Estados Unidos? criar PDF versão para impressão
26-Jan-2010
Os cientistas Daniel e Ginette Mathurin avançam sem rodeios: «as reservas petrolíferas do Haiti foram declaradas reserva estratégica dos Estados Unidos».
Artigo do leitor António do Espírito Santo

O Haiti é o País mais pobre do hemisfério ocidental e ocupa no ranking da pobreza o lugar 146 num total de 153. Esta dimensão da pobreza é repetida vezes suficientes para ser associada à ideia da mais completa ausência de recursos naturais. Aparentemente, o Haiti teria escapado ao paradoxo de ser um país rico em recursos naturais mas com população ultra-pobre, como é de regra neste mundo global, para ser «pobre tout court». Mas a ser assim, que razões têm os Estados Unidos para, em plena catástrofe, dar a prioridade à ocupação militar do Haiti em detrimento da ajuda médica e medicamentosa, da ajuda alimentar e em equipas de resgate?

Os cientistas Daniel e Ginette Mathurin avançam sem rodeios: «as reservas petrolíferas do Haiti foram declaradas reserva estratégica dos Estados Unidos». Em artigo de língua francesa publicado no site metropolehaiti.com, sob o título «O Haiti é rico em petróleo», aqueles dois cientistas afirmam que as reservas de petróleo do Haiti são superiores às da vizinha Venezuela (é mesmo isso que eles querem dizer!), e que existem também urânio 238 e 235 bem como zircónio no subsolo da ilha. Seria a decisão dos Estados Unidos em fazer desse petróleo uma reserva estratégica que justificaria a sua não-exploração até agora.

Aparentemente, o mundo estaria perante uma «revelação» feita por aqueles cientistas mas o artigo indica que o próprio ditador Jean Claude Duvalier já tinha verificado a existência de uma importante jazida de petróleo na baía de Port-au-Prince pouco tempo antes da sua queda. Igualmente, documentos do Partido Fanmi Lavalas no poder en 2004, tinha delimitado os numerosos campos de petróleo no Haiti. O site «AfricaMaat», dirigido por investigadores, nomeadamente egiptólogos, da escola de Cheik Anta Diop, chama a atenção para aquele artigo e para estes aspectos, avançando outros resultados de investigação histórica muito importantes para uma compreensão da situação actual longe dos clichés, falsificações e omissões eurocentristas que impregnam a cultura dos mídia que nos entram casa adentro. Em termos de informação, a consulta deste site seria muito útil para aqueles que podem ler o francês. Sobre o petróleo, um desses artigos (de 2004) aí citados indica que, «...o mapa físico e político da ilha do Haiti, desenhado em 1908 pelos senhores Alexandre Pujol e Henry Thomasset, assinalava uma importante jazida de petróleo no Haiti, nas proximidades da nascente rio Todo El Mondo, afluente da margem direita do rio Artibonite, hoje conhecido por rio Thomonde» (citado por Jean Philippe Omotunde), diz que «No decorrer dos anos 50, a companhia Knappen-Tippen-Abbet (que a população chamou «Compagnie Ti-pain à beurre») efectuou perfurações» [...cujos resultados] «estiveram para além de quaisquer expectativas», afirmando mais à frente que nessa altura a «ARAMCO punha e dispunha da Arábia saudita contra um preço vil, pilhando mesmo os preciosos recursos petrolíferos desse reino», o que favoreceu algum silêncio e sobretudo a não exploração do recurso no Haiti sob pressão das corporaçoes americanas.

Com a chegada do século XXI e o risco de esgotamento das reservas do médio oriente, o petróleo do caribe é então fundamental para os lucros das grandes companhias americanas. Com o petróleo do México aparentemente não há problemas para os americanos; com Cuba há problemas porque desenvolveram alguma tecnologia própria de exploração em certos casos, o que pode ser um «perigo» para o monopólio americano; com a Venezuela há um braço de ferro; o Brasil tem tecnologia própria, descobriu mais reservas, só que a quantidade descoberta é suficientemente grande para justificar um «passeio» provocatório da quarta frota americana para a região brasileira.

Num contexto desses, em que segundo Daniel e Ginette Mathurin, as reserva haitianas, diante das reservas venezuelanas lembrariam «Uma piscina Olímpica comparada com um copo de água», haverá sempre alguma razão de sobressalto para o tio Sam. Para a América há que promover a sua garantia estratégica. Isso faz-se à força, sempre sob invocação de algum pretexto, seja a presença do católico-alegado-«comunista» JB Aristide na presidência do Haiti que foi pretexto (com sucesso parcial), para um golpe militar com ocupação internacional, seja a mortandade que se segue ao sismo que agora pode ser a oportunidade ouro para os Estados Unidos e fazer dela tempo de ocupação militar, de antecipar concorrentes-ocupantes do Haiti como a França, que já protestou, e de pesar ainda mais na evolução política da região.

António do Espírito Santo, 23/01/2010.

 


Nota: As citaçoes e principais informações deste texto são retiradas de artigos dos sites WWW.AfricaMaat.com (autor Jean Philipe Omotunde in Haiti: souffrance, chaos et dignité) e www.metropolehaiti.com (Daniel e Ginette Mathurin)

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