Inadmissível!!! criar PDF versão para impressão
02-Jan-2007

violante_saramagomatos.jpgNovamente uma notícia que dói fundo, cá dentro. Uma menina de dois anos morreu vítima de maus-tratos continuados e, num certo dia, fatais. Ao que parece, da mãe.
Arrepio-me, entristeço-me, e todas as minhas células gritam que Não. Não percebo como pode alguém, objectivamente,  matar um filho. Não há qualquer justificação para bater numa criança de 2 anos tão violentamente que lhe cause a morte. Não aceito, pura e simplesmente, tamanha selvajaria.

Mas como se isto não fosse suficientemente horrível, ainda falta o resto.

E o resto - são as denúncias por parte de uma educadora, de que a menina apresentava sinais de maus-tratos, que não são ouvidas a tempo e horas. Porque faltou atempada resposta da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco e apenas se marca uma consulta para avaliação, três semanas depois da denúncia. Tarde, outra vez.

E o resto - e aqui cito a imprensa, é um familiar próximo a revelar, agora, que não gostava do que a mãe fazia à criança ou outro a admitir a existência de nódoas negras na cara. Tarde demais. Eles também têm responsabilidades. Culpas, mesmo. Porque calaram e fecharam os olhos. Talvez até tenham procurado desculpar-se porque não eram os pais. E os pais é que saberiam das razões. A violência dentro de casa não é só um crime público quando se trata de violência entre o casal; é-o ainda com maioria de razão quando se trata de violência contra crianças. E quem assiste, quem conhece e cala é, afinal, cúmplice.

E o resto - são as outras crianças mortas, este ano como em anos anteriores, porque não foram salvas a tempo. E porque é que não se chegou a tempo? Por desinteresse? Porque não há capacidade de resposta? Porque não se leva a sério as denúncias? São precisas respostas. Em meu entender, mais do que explicações claríssimas para estas mortes, é preciso exigir aos responsáveis com a tutela deste sector que tomem as medidas concretas, as soluções necessárias que evitar outras. A violência contra os mais fracos e indefesos é uma violação dos direitos humanos e, neste caso, dos direitos das crianças. Calá-la ou minorá-la é próprio de gente sem moral nem valores. E quando essa gente são os responsáveis políticos, então claramente estamos perante uma inversão de valores do Estado social.

E o resto - são outra vez os responsáveis, depois do mal feito, a abrirem inquéritos. Inquéritos que não avaliam o modo como funcionam as Comissões de Protecção; apenas se limitam a penalizar, como aconteceu anteriormente, os técnicos. Mas como não se vai ao fundo, não se combatem as causas das faltas e dos erros. E numa próxima vez, far-se-á outro inquérito.

E o resto - é um país que faz sempre o mesmo: se agita num dia mas esquece nos seguintes, até à próxima vítima. Um país que não trata verdadeiramente das suas crianças. Um país que se conforma com uma justiça que não pune quem comete tais crimes com medidas exemplares e em tempo útil. Um país que se habituou a deixar correr os anos e, no fundo, acha que é uma chatice continuar a falar do processo da Casa Pia. Um país que não exige mudanças radicais. Um país que esquece.

Um país que está a ficar, apetece-me dizer, Inadmissível!!!

Violante Saramago Matos

 
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