“A recuperação económica internacional é uma miragem” criar PDF versão para impressão
29-Jan-2010
Nuno Teles em entrevista ao esquerda.net - Foto de Alexandre AbreuEm entrevista ao Esquerda.net, o economista Nuno Teles fala sobre o desemprego em Portugal, a influência da União Monetária, e aponta saídas para vencer a crise.

Como vê a situação do desemprego em Portugal?

O desemprego em Portugal é, de longe, o principal problema do país. De uma situação de quase pleno-emprego no inicio da anterior década, passámos para uma taxa real que já ultrapassa os 10% da população activa. Num país com baixos salários e um sistema de segurança social deficiente, estes níveis traduzem numa profunda crise social que afecta sobretudo os mais vulneráveis - trabalhadores com salários reduzidos e baixas qualificações, que se distribuem assimetricamente pelo território afectando sobretudo as regiões historicamente mais deprimidas.

A origem do desemprego pode ser atribuída a crise?

O recente aumento exponencial do desemprego deve-se certamente ao contexto de profunda crise económica internacional - a maior desde a grande depressão - que afecta economias pequenas e abertas, como a portuguesa, de forma mais aguda.
No entanto, ainda antes da crise financeira, assistimos a uma tendência de crescimento do desemprego que recua ao inicio da década passada. sinonimo de uma economia estagnada, sem perspectivas de crescimento, com as politicas publicas obcecadas com as contras públicas e o pacto de crescimento, em vez da necessária reconversão da economia.
É importante notar que não existem quaisquer perspectivas de redução da taxa de desemprego no actual contexto.

Qual a relação desta tendência de desemprego com a qualificação dos trabalhadores portugueses?

O desemprego é um fenómeno transversal em Portugal que afecta todos os portugueses. Há que distinguir entre a parte conjuntural, que afecta toda a Europa e não esta relacionado com o nível de qualificações e o aspecto mais estrutural, sobretudo relacionado com o declínio de sectores produtivos baseados em mão de obra barata não qualificada, como é o caso do sector têxtil. O problema é que este declínio não significa uma real reestruturação da economia portuguesa. A politica industrial em Portugal não existe de forma sistémica, é na verdade um conjunto de medidas mais ou menos “improvisadas” que não aponta aos agentes económicos novos caminhos para uma economia mais robusta e competitiva.

Qual a influência da União Monetária europeia nesta tendência?

O processo de convergência nominal que Portugal seguiu para entrar no euro, nomeadamente a ancoragem cambial do escudo ao marco, decidida nos governos de Cavaco Silva, tinha como principal objectivo controlar a inflação, expondo o sector dos bens transaccionáveis (exportáveis) à competição e à estrutura de custos europeia. Desta forma as empresas portuguesas estavam impossibilitadas de aumentar preços mas sofriam uma estrutura de custos a nível interno mais elevada do que as outras economias.

Com excepção dos salários.

Sim, os salários foram, nessa altura, a maior variável de ajustamento da economia portuguesa. Neste processo os incentivos a investir no sector mais protegido dos bens não transaccionáveis aumentou exponencialmente, ajudado pelos processos de privatizações de empresas sem competição internacional (como por exemplo a BRISA e a EDP). Este processo foi agudizado já com euro.
Embora todos os países tenham a mesma politica monetária, definida pelo BCE, sobretudo em função da economia alemã, as taxas de inflação foram divergindo desde 2001. Sem a possibilidade de desvalorizar a sua moeda, economias como a portuguesa foram perdendo competitividade externa, que resultou no, agora famoso, endividamento externo.

Neste quadro, quais as saídas para a economia portuguesa?

A questão coloca-se a vários níveis: Ao nível nacional o estado deve continuar a dinamizar a nossa frágil economia. Os défices orçamentais são males necessários sem os quais estaríamos numa situação bastante mais grave, reduzir o défice nesta altura é puramente irresponsável, devido à contracção da economia que tal implicaria. Com consequente maior aumento do desemprego. Isto não quer dizer que o estado não pode gastar melhor. Os níveis de desperdício devem ser combatidos e a despesa deve estar orientada para as categorias que tenham maior impacto sobre o emprego, nomeadamente, através do pequeno e médio investimento publico.
Outro foco das despesas deve ser a reconversão da economia portuguesa. Algumas boas propostas, como a de um New Deal verde, vinda de alguns economistas norte americanos, propõem um forte investimento público na área ambiental, criador de emprego e articulado agentes privados e instituições públicas, como as universidades. Tais medidas podem resultar numa vantagem internacional no médio prazo, dada a urgência de uma economia mais ambientalmente eficiente que todos enfrentamos.
Do lado da receita também muito pode ser feito no sentido de corrigir as profundas assimetrias sociais do nosso país: a taxação das mais valias, a reintrodução do imposto sucessório para as categorias de rendimento mais elevadas, o aumento do IVA para produtos de luxo, a introdução de um novo escalão no IRS, o fim do paraíso fiscal da madeira, são exemplos de boas propostas.

E ao nível europeu?

Tendo em conta que ao nível nacional muito possa e deva ser feito, existem questões estruturais da economia da zona euro que têm que ser urgentemente corrigidas. Hoje, temos países com enormes excedentes externos, como a Alemanha, graças a uma arquitectura económica que tem como contra ponto os défices externos de economias como a portuguesa, a grega ou a espanhola. A zona euro não pode só ter coordenação monetária, o orçamento europeu tem que ter um maior peso (além dos demasiado modestos 1% do PIB europeu) com capacidade de endividamento, e que sirva de correcção às assimetrias regionais existentes.
As recentes noticias da negociação de um plano europeu de salvação da economia grega podem ser o inicio de uma discussão mais alargada, em que a esquerda tem de estar envolvida e mobilizada. Além disto, precisamos claramente de uma nova politica monetária que contribua para o crescimento económico europeu e a luta contra o desemprego.

O que podemos esperar da situação económica internacional?

A recuperação económica internacional não passa de uma miragem. Nos últimos meses assistimos a algum tipo de estabilização económica - depois da queda livre dos mercados em 2008 - mas não existem reais sinais de recuperação, com a excepção da China e do Brasil.
Nas últimas semanas tivemos notícias negativas, os EUA reviram a sua taxa de desemprego anual em alta, mostrando que o aumento do crescimento económico americano no terceiro trimestre mais não foi que um ajustamento de inventários das empresas. Por outro lado, o motor económico europeu, a Alemanha, voltou no ultimo trimestre a uma situação recessiva.
Concluindo: Existem alguns sinais de estabilização, mas poucos de retoma. Qualquer potencial recuperação esta a ser posta em causa pela obsessão dos mercados financeiros com os níveis de despesa e dívida pública, comprometendo o papel do estado na redinamização económica. Convém lembrar que foi graças ao aumento de despesa publica que não caímos numa situação igual à da grande depressão.
Há mesmo um paralelo histórico. Em 1937, perante os primeiros sinais de recuperação da economia norte americana, graças ao New Deal de Roosevelt, as autoridades monetárias decidiram começar a aplicar politicas monetárias mais restritivas. Num ambiente de grande nervosismo dos agentes o resultado foi um retorno à contracção economia, só resolvida com a segunda guerra mundial. Devemos aprender com os erros.

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