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06-Jan-2007

 OS DESAFIOS DAS POLÉMICAS ELECTRÓNICAS


Primeiro é preciso ver a conversa em família do 31 dias, como em qualquer comunicação ao país, estão presentes as verdadeiras, e encapotadas, prioridades de uma determinada classe política. Este momento oficial tem a supina vantagem de ser divertida. Depois, é preciso analisar o grosso da polémica que está centrada no referendo do aborto. Vamos buscar textos do Daniel Oliveira, Henrique Raposo e André Carapinha. Finalmente, dão-se algumas sugestões de textos sobre coabitação, a universidade, a regionalização e a busca das políticas e dos políticos.  

Vamos então às questões de fundo, Daniel Oliveira pretende balizar aquilo que está em discussão no referendo do aborto: “Ao contrário do que é comum dizer, o debate sobre a descriminalização não é um debate essencialmente moral ou ético. A ele estão ligadas questões morais e éticas, mas não é aí que está o centro da discussão. É, antes de tudo, uma questão política, porque se relaciona com o papel do Estado e os direitos e deveres dos cidadãos.
A questão do aborto é uma questão moralmente complexa. Ela toca em sentimentos profundos, convicções fortes. No meu caso, devo dizer, com toda a sinceridade, que quase só tenho dúvidas. Mas não condeno as certezas dos outros. São as suas. Pessoais. Só têm a obrigação de ser, na sua vida, coerentes com elas. E mesmo essa obrigação é estritamente pessoal e não me diz respeito. Não opino sobre a hipocrisia ou coerência alheia quando se tratam de opções pessoais e íntimas.
Mas é por isso que, na minha opinião, o debate é político e não está no terreno estritamente moral” . Respondendo a estas ideias, Henrique Raposo do Atlântico defende que a questão do aborto não é uma questão meramente política, mas sobretudo moral: “uma multidão de gente a defender que a vida é determinável pela política. "Se o Estado diz que até às 10 semanas é possível abortar, então, só há vida no início da 11ª semana". Entregar à Política a responsabilidade para decidir a partir de que momento é que há vida, eis uma coisa que assusta. Sobretudo num país, o nosso, onde o Estado mete o bedelho em tudo. Parece-me uma daquelas caixas sem qualquer tipo de bombom lá dentro. Uma daquelas que diz ‘made in pandora’.
O aborto é uma questão moral. E a moral não começa às cinco e fecha à nove como a política, como a lei. O aborto é uma decisão moral com implicações pessoais que não são mensuráveis pela lógica da lei. Aborte ou não dentro da legalidade, o peso moral da decisão vai pesar na mulher em causa. Na política, as coisas são transmissíveis. Na moral, o que é nosso é nosso e ninguém pode acartar com o peso que tem o nosso nome. Em política, a culpa morre muitas vezes sozinha. Na moral, a coisa pia mais fininho: quando a culpa existe, existe mesmo e não vale a pena transferi-la para a política (dizendo que é legal) porque a dita vai continuar a atormentar. A culpa moral não se limpa pela lei”. A tréplica a este debate é dado pelo André Carapinha no 2+2=5: “Henrique Raposo escreve no blogue da Revista Atlântico um texto onde justifica a sua abstenção no referendo de 11 de Fevereiro. Vale a pena debruçarmo-nos sobre os seus argumentos, uma vez que espelham uma opinião que se começa o ouvir por aí: a de que, sendo esta uma questão moral, não deveria ser a política, ou a lei, a resolvê-la.
Essa é, justamente, a contradição original do argumento. Se o aborto é uma questão moral, o que é evidente para mim, e parece ser também para HR, então de facto não deve ser resolvida pela lei. Acontece que, como é bom de ver, já existe uma lei, proibicionista. Se HR defende de facto que esta é uma questão da consciência de cada um, então o que deve fazer é votar Sim, ou seja, votar contra uma lei que nega o primado da consciência. Mas se tem assim tantas dúvidas, que vote branco ou nulo em vez de se abster. É que este referendo tem três resultados possíveis: vitória do sim vinculativa, vitória do não vinculativa ou resultado não vinculativo; e só o primeiro irá alterar alguma coisa. Ao abster-se, HR cauciona um dos resultados possíveis que não mudam a lei, essa que, justamente, prevê aquilo com que desacorda. Contradição? Lá saberá.
Parece-me que esta visão contraditória de HR tem uma explicação psicológica: uma repugnância por tudo o que seja "Estado" (é só ler o ínicio do artigo). Pena que não consiga perceber que, neste caso, está a fazer o jogo contrário ao seu, o daqueles que entendem que a lei deve interferir em questões da moral íntima de cada um”.

Sobre outras matérias, cá fica as sugestões:

1.    Sobre a Universidade (Alexandre Andrade, Umblogsobrekleist)
2.    Sobre a Regionalização (Rui, Blasfémias)
3.    Sobre a Coabitação (Martim Silva, Mau Tempo no Canil)
4.    Previsões para 2007 (Isabel Faria, Troll Urbano)


 
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