"É impossível sair da crise se não se apoia o emprego" criar PDF versão para impressão
19-Fev-2010
Alexis Tsipras. Foto Esquerda.netO presidente do Synaspimos da Grécia, Alexis Tsipras, diz ao Esquerda.net que é preciso apresentar uma solução alternativa à crise, reunindo os países da União Europeia que são as cobaias, como Portugal, Espanha e Grécia.


Os grandes capitalistas tentam retirar vantagens desta crise para ganhar mais benefícios para os seus próprios interesses, e em desfavor da massa do povo que vai ter de pagar, alerta o engenheiro e deputado Alexis Tsipras, presidente do Synaspimos, um dos principais partidos da esquerda grega. Tsipras esteve em Portugal para contactos com o Bloco de Esquerda. Em seguida reuniu-se em Madrid com o PCE e a Esquerda Unida. Nesta entrevista ao Esquerda.net, Alexis Tsipras alertou que a crise económica e financeira ultrapassa as fronteiras da própria Grécia. "Se deixam a Grécia desprotegida diante do capital especulativo, é muito possível que a crise possa envolver mais países, num efeito dominó."

 

De quem é a responsabilidade pela crise financeira da Grécia?

Os que certamente não são responsáveis são os trabalhadores, os empregados e os não empregados. Mas uma vez mais são eles que se quer que paguem a crise.

Durante muitos anos, a esquerda grega criticou os governos da direita e do Partido Socialista (Pasok) por levarem a cabo uma política baseada em empréstimos anti-produtivos. Tanto a direita quanto os governos socialistas da Grécia insistiram em tentar convencer as pessoas de que tínhamos uma economia forte e estável, baseada numa moeda e num equilíbrio financeiro poderosos. O que se provou foi que este equilíbrio era na verdade frágil e estava baseado principalmente em empréstimos. Era impossível que esta política se aguentasse e levasse ao desenvolvimento do país.

Os principais responsáveis por esta crise são não só os governos que o nosso país teve nos últimos anos - os governos socialista e de direita - mas também os grandes capitalistas que tentam retirar vantagens desta crise, para ganhar mais benefícios para os seus próprios interesses, e em desfavor da massa do povo que vai ter de pagar.

Como vê o papel da União Europeia nestes dias?

A União Europeia demorou a dar-se conta de que o exemplo da Grécia era perigoso. Um perigo para a Eurozona e para o próprio euro.

E é um perigo específico que ultrapassa as fronteiras da própria Grécia, porque se deixam a Grécia desprotegida diante do capital especulativo, é muito possível que a crise na Grécia possa envolver mais países, num efeito dominó.

Porém, parece que as potências dominantes da União Europeia, como a Alemanha e a sra. Merkel, ainda hesitam e resistem à ideia de uma ajuda directa aos países que estão sob pressão devido à crise. Por exemplo, ainda resistem a aceitar a ideia de um empréstimo directo do Banco Central Europeu ao governo grego, ou à ideia da emissão de obrigações europeias.

A resistência das grandes forças políticas em relação a medidas democráticas, medidas progressistas que poderiam levar a alternativas de solução real para a crise, mostra duas coisas. A primeira é que a abordagem dogmática tolhe a possibilidade de mudar seja o que for que diga respeito à estrutura e ao modelo de construção da União Europeia. Recusam-se a mudar qualquer coisa que tenha a ver com o Tratado de Lisboa ou o Tratado de Maastricht, etc., etc.

A segunda coisa é que as grandes potências encaram a crise como uma oportunidade de avançar ostensivamente com reformas realmente duras para as pessoas e os grupos sociais oprimidos.

Qual é a alternativa proposta pelo Synaspismos e a Syriza?

Desde os primeiros momentos da crise, as nossas forças propuseram uma alternativa completa e alternativa para a saída da crise.

Explicámos às pessoas e aos partidos políticos rivais no Parlamento que é impossível sair da crise se não se apoia o emprego. É impossível sair da crise se enfrentamos taxas de desemprego de 20%.

Também explicámos que para enfrentar e reduzir a dívida pública, a única via não é reduzir os salários e as pensões. Há uma via alternativa que implica numa radical redistribuição de riqueza.

A opção do governo grego, sob pressão da União Europeia, de reduzir salários e pensões, não pode trazer resultados, é uma estratégia destrutiva.

Se reduzirmos salários e pensões, o mercado morrerá. E não haverá dinheiro para impostos e para o rendimento dos contribuintes. Ao mesmo tempo, a explosão do desemprego criará novas necessidades de despesa pública, o que significa que o défice público vai aumentar.

Tentamos explicar, em primeiro lugar, que esta política das forças dominantes é uma política anti-social e é também uma política que trará efeitos negativos para fazer face à crise. Por outro lado, também tentamos provar às pessoas que é preciso uma solução alternativa comum à crise, incluindo especialmente os países da União Europeia que são o primeiro alvo, que são as cobaias da crise, países como Portugal, Espanha e Grécia.

Na verdade, é por esse motivo que estamos em Portugal discutindo com o Bloco e tentando encontrar alternativas nestas direcções.

Está marcada uma greve geral para o dia 24. Crê que pode ser o início de uma resposta de massas à crise?

Esperamos que sim, mas não temos a certeza...

Na Grécia, as pessoas ainda estão hesitantes e à espera de ver o que vai acontecer. A compreensão das pessoas é que estamos numa situação e circunstâncias tão difíceis que é preciso tomar medidas. O que as pessoas ainda não entenderam de momento é que há um caminho alternativo e que existem soluções alternativas. É o que estamos a tentar promover através de lutas sociais, como a greve geral.

Na nossa opinião, há dois perigos muito grandes. Um deles é se, devido à desilusão, as pessoas decidem ficar passivas diante das novas medidas aprovadas pelo governo. O segundo perigo é uma abordagem etnocêntrica ao problema - ficarmos dentro das fronteiras nacionais e tentar soluções de tipo nacional.

Acreditamos que o problema da Grécia não é um problema grego, é um problema europeu. Por isso estamos a tentar abrir novos caminhos e pontes em nível europeu, para tentar mudar o equilíbrio político e social e também tentar soluções alternativas.

Acreditamos que é um grande erro deixar o oponente sozinho no estratégico terreno da Europa, deixar as forças do mercado e do capital à vontade no terreno europeu. Acreditamos que chegou a hora de um novo agente, de um novo actor entrar neste terreno estratégico e esse é o factor social, os trabalhadores, os desempregados e os movimentos sociais.

Se isto não acontecer no futuro imediato, não há forma de fazer retroceder as reformas conservadoras. Ontem, na Grécia, decidiram cortar o 14º salário. Hoje estão a discutir reduzir o 13º salário. Amanhã podem mesmo propor a redução dos salários normais.

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