O presidente do Synaspimos da Grécia, Alexis Tsipras, diz ao
Esquerda.net que é preciso apresentar uma solução
alternativa à crise, reunindo os países da União Europeia que são
as cobaias, como Portugal, Espanha e Grécia.
Os grandes capitalistas tentam retirar vantagens desta crise para
ganhar mais benefícios para os seus próprios interesses, e em
desfavor da massa do povo que vai ter de pagar, alerta o engenheiro e
deputado Alexis Tsipras, presidente do Synaspimos, um dos principais
partidos da esquerda grega. Tsipras esteve em Portugal para contactos
com o Bloco de Esquerda. Em seguida reuniu-se em Madrid com o PCE e a
Esquerda Unida. Nesta entrevista ao Esquerda.net, Alexis
Tsipras alertou que a crise económica e financeira ultrapassa as
fronteiras da própria Grécia. "Se deixam a Grécia desprotegida
diante do capital especulativo, é muito possível que a crise possa
envolver mais países, num efeito dominó."
De quem é a responsabilidade pela
crise financeira da Grécia?
Os que certamente não são
responsáveis são os trabalhadores, os empregados e os não
empregados. Mas uma vez mais são eles que se quer que paguem a
crise.
Durante muitos anos, a esquerda grega
criticou os governos da direita e do Partido Socialista (Pasok) por
levarem a cabo uma política baseada em empréstimos anti-produtivos.
Tanto a direita quanto os governos socialistas da Grécia insistiram
em tentar convencer as pessoas de que tínhamos uma economia forte e
estável, baseada numa moeda e num equilíbrio financeiro poderosos.
O que se provou foi que este equilíbrio era na verdade frágil e
estava baseado principalmente em empréstimos. Era impossível que
esta política se aguentasse e levasse ao desenvolvimento do país.
Os principais responsáveis por esta
crise são não só os governos que o nosso país teve nos últimos
anos - os governos socialista e de direita - mas também os
grandes capitalistas que tentam retirar vantagens desta crise, para
ganhar mais benefícios para os seus próprios interesses, e em
desfavor da massa do povo que vai ter de pagar.
Como vê o papel da União Europeia
nestes dias?
A União Europeia demorou a dar-se
conta de que o exemplo da Grécia era perigoso. Um perigo para a
Eurozona e para o próprio euro.
E é um perigo específico que
ultrapassa as fronteiras da própria Grécia, porque se deixam a
Grécia desprotegida diante do capital especulativo, é muito
possível que a crise na Grécia possa envolver mais países, num
efeito dominó.
Porém, parece que as potências
dominantes da União Europeia, como a Alemanha e a sra. Merkel, ainda
hesitam e resistem à ideia de uma ajuda directa aos países que
estão sob pressão devido à crise. Por exemplo, ainda resistem a
aceitar a ideia de um empréstimo directo do Banco Central Europeu ao
governo grego, ou à ideia da emissão de obrigações europeias.
A resistência das grandes forças
políticas em relação a medidas democráticas, medidas
progressistas que poderiam levar a alternativas de solução real
para a crise, mostra duas coisas. A primeira é que a abordagem
dogmática tolhe a possibilidade de mudar seja o que for que diga
respeito à estrutura e ao modelo de construção da União Europeia.
Recusam-se a mudar qualquer coisa que tenha a ver com o Tratado de
Lisboa ou o Tratado de Maastricht, etc., etc.
A segunda coisa é que as grandes
potências encaram a crise como uma oportunidade de avançar
ostensivamente com reformas realmente duras para as pessoas e os
grupos sociais oprimidos.
Qual é a alternativa proposta pelo
Synaspismos e a Syriza?
Desde os primeiros momentos da crise,
as nossas forças propuseram uma alternativa completa e alternativa
para a saída da crise.
Explicámos às pessoas e aos partidos
políticos rivais no Parlamento que é impossível sair da crise se
não se apoia o emprego. É impossível sair da crise se enfrentamos
taxas de desemprego de 20%.
Também explicámos que para enfrentar
e reduzir a dívida pública, a única via não é reduzir os
salários e as pensões. Há uma via alternativa que implica numa
radical redistribuição de riqueza.
A opção do governo grego, sob pressão
da União Europeia, de reduzir salários e pensões, não pode trazer
resultados, é uma estratégia destrutiva.
Se reduzirmos salários e pensões, o
mercado morrerá. E não haverá dinheiro para impostos e para o
rendimento dos contribuintes. Ao mesmo tempo, a explosão do
desemprego criará novas necessidades de despesa pública, o que
significa que o défice público vai aumentar.
Tentamos explicar, em primeiro lugar,
que esta política das forças dominantes é uma política
anti-social e é também uma política que trará efeitos negativos
para fazer face à crise. Por outro lado, também tentamos provar às
pessoas que é preciso uma solução alternativa comum à crise,
incluindo especialmente os países da União Europeia que são o
primeiro alvo, que são as cobaias da crise, países como Portugal,
Espanha e Grécia.
Na verdade, é por esse motivo que
estamos em Portugal discutindo com o Bloco e tentando encontrar
alternativas nestas direcções.
Está marcada uma greve geral para o
dia 24. Crê que pode ser o início de uma resposta de massas à
crise?
Esperamos que sim, mas não temos a
certeza...
Na Grécia, as pessoas ainda estão
hesitantes e à espera de ver o que vai acontecer. A compreensão das
pessoas é que estamos numa situação e circunstâncias tão
difíceis que é preciso tomar medidas. O que as pessoas ainda não
entenderam de momento é que há um caminho alternativo e que existem
soluções alternativas. É o que estamos a tentar promover através
de lutas sociais, como a greve geral.
Na nossa opinião, há dois perigos
muito grandes. Um deles é se, devido à desilusão, as pessoas
decidem ficar passivas diante das novas medidas aprovadas pelo
governo. O segundo perigo é uma abordagem etnocêntrica ao problema
- ficarmos dentro das fronteiras nacionais e tentar soluções de
tipo nacional.
Acreditamos que o problema da Grécia
não é um problema grego, é um problema europeu. Por isso estamos a
tentar abrir novos caminhos e pontes em nível europeu, para tentar
mudar o equilíbrio político e social e também tentar soluções
alternativas.
Acreditamos que é um grande erro
deixar o oponente sozinho no estratégico terreno da Europa, deixar
as forças do mercado e do capital à vontade no terreno europeu.
Acreditamos que chegou a hora de um novo agente, de um novo actor
entrar neste terreno estratégico e esse é o factor social, os
trabalhadores, os desempregados e os movimentos sociais.
Se isto não acontecer no futuro
imediato, não há forma de fazer retroceder as reformas
conservadoras. Ontem, na Grécia, decidiram cortar o 14º salário.
Hoje estão a discutir reduzir o 13º salário. Amanhã podem mesmo
propor a redução dos salários normais.
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