“É preciso um corte com a cultura da guerra fria do pensamento” criar PDF versão para impressão
03-Mar-2010
WAR - Foto de Vinicius Depizzol / FlickrNa última sessão do colóquio organizado pela Cultra com o tema “O que fará um governo de esquerda socialista?” o tema foi a política externa e de defesa. A apresentação ficou a cargo do deputado do Bloco de Esquerda José Manuel Pureza, seguida de comentários do general Pezarat Correia.

Pureza partiu do pressuposto de que o debate nos termos propostos pelo colóquio, "seja em que domínio for, é sempre normativa, e não de resolução de problemas". Afirmando ainda que as propostas não podem ser de optimização do funcionamento do sistema vigente, propondo em seguida três reflexões prévias concretizadas na forma de perguntas.

Em primeiro lugar, Pureza sugere o questionamento dos "fundamentos": "Quais é que são os referentes de uma política externa e de defesa de uma esquerda socialista? Assume ou deve assumir o interesse nacional como o seu fundamento? Ou junta-lhe, ao menos, outros ingredientes como, por exemplo, interesses de escala transaccional como o meio-ambiente". Neste sentido Pureza lembrou que o conceito de interesse nacional é uma abstracção, onde se misturam agendas muito contraditórias e arrematou: "Podemos ignorar o interesse nacional? É fazível num mundo de estados uma política externa que não tenha o interesse nacional como fundamento?"

O segundo ponto da reflexão prévia sugerida por Pureza foi sobre a questão da metodologia e destacou dois pressupostos genéricos da óptica conservadora de política externa: (i) A "tríade" poder político, militar e económico (competição entre Estados), e (ii) os "reformismos" que defendem a ideia de que países pequenos protegem-se melhor dentro de plataformas. "Esta política é uma política manifesto? Ou é uma política marcada nos modelos tradicionais?" questionou Pureza.

Por fim, destacou o tema da orientação sintetizado na pergunta: "Qual é o doseamento certo entre a realpolitik e as aspirações de uma política socialista? Os Direitos Humanos e a paz podem ser primados das políticas de esquerda socialista?".

Pureza defendeu ainda a necessidade de uma reflexão contextualizada, que no caso concreto português significa ter em conta o que chamou de síntese do pensamento do bloco central, com duas perspectivas que estariam no "código genético" da formulação da política externa e de defesa em Portugal: A "ideologia do destino", centrada no atlântico e a "ideologia da modernização", preponderante numa retoma da imagem de re-europeização. Para Pureza tanto o projecto "atlantista", quanto o "europeísta" sempre apresentaram contradições.

Nestes termos pureza propõe um "duplo corte, uma dupla ruptura". Um corte com a cultura da guerra fria do pensamento que caracterizou como "uma mistura de etnocentrismo e realismo conservador". E por outro lado, cortar com o prolongamento no cenário europeu do viver e acumular riqueza com rentismo garantido que, segundo Pureza, é o projecto da burguesia nacional que há muitos e reproduz, lembrando o passado colonial nas relações com Brasil e África e, agora, com os fundos europeus.

Na tentativa de formular algumas respostas José Manuel Pureza sugeriu uma reflexão crítica sobre o conceito estratégico internacional, lembrando que é imprescindível re-identificar o papel que queremos ter no mundo. Lembrou ainda que as actuais relações de dominação não são iguais às do passados e que a multipolaridade vem da existência de redes de hegemonia desterritorializadas: "Sul e Norte habitam nos nortes e nos suis geopolíticos e geoeconómicos".

Para Pureza, Portugal deve tomar uma posição nestas dinâmicas que potencie o máximo as vantagens do estatuto de semi-periférico, numa combinação de interesses geopolíticos próprios. O que na prática significaria assumir, como interesse estratégico próprio, a introdução de factores de correcção nos actuais mecanismos de desequilíbrios e assimetrias e assumir o papel de porta-voz do imperativo da justiça nos sistemas de dominação.

Defendeu ainda a prática da "diplomacia de paz", dando como exemplo as operações de intermediação como função no mundo, onde a Palestina seria o exemplo maior, e o desarmamento nuclear total, que, segundo Pureza, passou de algo inimaginável para algo imperativo e possível assumir. Pureza destacou ainda a necessidade de dar visibilidade a um "cosmopolitismo progressista", que materialize coisas concretas com as políticas de imigração e o reforço de jurisdições internacionais.

No âmbito da diplomacia económica José Manuel Pureza afirmou que deve combinar dois objectivos: (i) Travar a perda da competitividade das exportações portuguesas e a perda de quota de mercado: "voltar a ganhar aquilo que perdemos", e (ii) dar destaque às política de desenvolvimento de escala internacional e não uma política de "apaziguamento de consciências".

A "diplomacia de paz e intermediação" defendida por Pureza teria implicações práticas, imediatas e evidentes, como a saída de todos os teatros de ocupação: "Pugnar pela saída de Portugal da NATO é a prioridade que damos às políticas de paz e intermediação, não de revisão histórica". Teriam ainda a vigilância dos nossos recursos naturais como uma das prioridades e a defesa externa de princípios de solidariedade concretizada em missões de apoio de assistência humanitária.

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