Estes caminhos que vão dar a Março… criar PDF versão para impressão
06-Mar-2010
Mulheres grevistas do sector têxtil, nos Estados Unidos, no início do século XX.“Que vivências, que memórias de lutas colectivas conduziram a este momento – 8 de Março de 1857, Nova Iorque, operárias têxteis nas ruas?” Artigo de Helena Neves.

 

Em pleno século XIX, o pensamento progressista americano reflecte um conjunto de influências, desde o iluminismo subjacente aos ideais da Revolução Francesa de 1789 (recordemos que muitos revolucionários, banidos pelo domínio napoleónico, emigram para a América) e ao socialismo utópico, nomeadamente de Calvet e de Owen. Este chega mesmo a fundar, em Maio de 1825, uma comuna em território americano «A Nova Alemanha» e influenciará a parte mais silenciada do feminismo americano através da comunalista Fanny Wright.

 Entretanto, em meados do século, surgem timidamente alguns centros de pensamento marxista ligados ao núcleo revolucionário de Marx e Engels em Bruxelas que constitui o embrião da Associação Internacional de Trabalhadores.

O próprio Marx publicará, em 1853 e 1854, diversos artigos ao New York Dally Tribune. Paralelamente, o movimento operário americano apresenta já um forte carácter reivindicativo, patente nas enormes manifestações de massas, em Fevereiro, contra o desemprego e a inflação, quando do pânico da crise de 1837.

É babilónico, na sua composição, este jovem proletariado americano. Entre 1815 e 1860, oriundos não só de Inglaterra mas também de outros países da Europa do Norte, aportavam à América do Norte, 5 milhões e meio de estrangeiros que, em 1850, constituem já 43% da população urbana.

Provavelmente mais desprotegido do que qualquer outro, porque a abundância de mão-de-obra, por um lado, e a concentração industrial favorecida pelo desenvolvimento da rede ferroviária, proporcionam níveis de exploração intensíssimos, a par do desemprego, da insegurança, das tensões no movimento operário. O escritor inglês Frederick Marryat conta que os mecânicos desempregados de Nova Iorque têm «ar de lobos esfomeados».

Charles Dickens fala da «pobreza, desgraça e vício da cidade», em 1842. Lydia Maria Child, autora de «uma invocação a favor da classe dos negros americanos», desabafa «It is sad to talking in the city» («é triste andar na cidade»). Mais triste ainda, a sorte da mulher trabalhadora. A ela os salários mais miseráveis; as piores condições de trabalho, a opressão mais profunda.

Neste contexto de fermentação ideológica e social sucederá o 8 de Março. Mas as mulheres que ganham as ruas de Nova Iorque, na primeira grande manifestação de mulheres, não lêem o New York Dailly Tribune, não conhecem Owen, estão longe de saber o que significa a Igualdade, Liberdade e Fraternidade apregoados pela Revolução Francesa e assimilados pelo pensamento progressista americano. Não são iguais a não ser entre si, irmanadas na mesma sorte pois até em relação aos operários elas são discriminadas.

Não conhecem a fraternidade a não ser a da nascente solidariedade feminina pois que os trabalhadores, particularmente os desempregados lhes são, amiúde hostis.

Quais então as «causas» do 8 de Março nos EUA, Nova Iorque em 1857?

Elas não são imediatas e muito menos, simples. Necessariamente terão de ser buscadas na própria vivência feminina no território americano, desde a participação das mulheres na colonização ao movimento feminista, passando pela intervenção feminina na guerra da independência, nas associações filantrópicas e pacifistas e no movimento abolicionista.

A mulher na colonização e independência

«São elas as verdadeiras escravas do país» escreve uma inglesa referindo-se à mulher americana do período de colonização. Desde a primeira chegada dos colonos no séc. XV e até ao século XIX, com o desafio do Oeste, o trabalho feminino será vital no desbravar do novo continente.

As primeiras a chegar serão as inglesas, recrutadas nos hospitais, asilos, orfanatos, prisões e nos bairros marginais de Londres, Bristol e Southampton, obrigadas a 5 ou 7 anos de trabalhos forçados nas colónias inglesas, findos os quais, as que sobrevivem, podem constituir família e fixar-se num quinhão de terra.

Aqui elas trabalham o solo, cuidam dos animais, cardam a lã, tecem, fiam, cozem, parem os filhos dos colonos. E sabem ainda manejar a espingarda. O francês Crèvécoeur diz «A indústria de sua mulher é o verdadeiro tesouro do cultivador americano».

Estas mulheres estão longe de ser pacíficas. Cedo contestam. O exemplo mais subversivo vem de Ann Hutchinson, a primeira vez a erguer-se pela liberdade de expressão na América, que se revolta em 1636 contra o dogmatismo do governo da jovem colónia de Massachussets. Julgada no Conselho da Colónia ela será condenada e banida.

O texto da sentença é exemplarmente significativo da filosofia dominante em relação ao papel da mulher: «Vós fostes um marido e não uma esposa; um pregador e não uma ouvinte; um magistrado e não uma administrada».

A raiz da rebeldia, alimentada pela própria actividade económica da mulher, está lançada. Em 1647, as mulheres reclamam, pela primeira vez, o direito ao voto. Em 1691, ganham-no no Estado de Massachussets, direito que perderão em 1780.

Na causa abolicionista e no despertar para a luta pelos direitos

Envolvidas na causa abolicionista as mulheres vêem-se atingidas pela censura social. Não pela causa que defendem, bem tolerada no Norte onde agem, mas pelo facto de ousarem erguer a voz publicamente, de saírem à rua recolhendo assinaturas e fundos. As primeiras atingidas serão as irmãs Sarah e Angeline Grimke, chamadas à ordem pelos ministros da Igreja protestante, compelidas a cessar as suas conferências públicas:

«Quando a mulher assume o papel de um homem para reformar a sociedade… ela abandona o poder que Deus lhe deu para a sua própria protecção e afasta-se da sua natureza».

A própria ausência de direitos femininos, a experiência de cercos, eis a aprendizagem que as mulheres completam enquanto militantes da causa abolicionista. No seu país e fora dele, já que em 1840, quando da Conferência Internacional contra a Escravatura, em Londres, se vêem constrangidas a assistir aos trabalhos atrás de um cortinado, não podendo mostrar-se e muito menos intervir.

Entre elas estão Lucrecia Mott e Elisabeth Vady Squanton que impulsionarão a primeira assembleia pelos Direitos das Mulheres realizada em Seneca Fall, em 1848. Daqui emerge a primeira organização feminista americana o Woman’s Right Movement, em ligação quase umbilical com a causa abolicionista.

O poder em todas as suas esferas perturba-se perante as mulheres que se descobrem sujeitos de direitos. Olha-as como negação de um eterno feminino construído social e culturalmente. Elas são outro género que faz correr riscos ao género edificado pela sociedade classista e patriarcal.

Enfrentando opositores, a trabalhadora Soojurner Truth afirma no discurso perante a Convenção dos Direitos das Mulheres, em Ohio, em 1851:

“Aquele homem diz que as mulheres precisam de ser ajudadas a subir para as carruagens, e carregadas ao colo para passar as valas, e ter o melhor lugar em toda a parte. Nunca ninguém me ajudou a subir para as carruagens, ou carregou comigo para atravessar lamaçais ou me dá jamais o melhor lugar. E não sou eu uma mulher? Olhem para o meu braço! Eu cavei e plantei e recolhi a ceifa nos celeiros e nenhum homem me pode suplantar... E não sou uma mulher”.

 O poder real e o simbólico, senhores e Igreja bradam aos homens e aos céus contra as «reivindicações absurdas, imorais e criminosas das mulheres… segundo as quais, homens e mulheres têm de ser iguais.

Nós sabemos que Deus criou o homem e mulheres têm de ser iguais. Nós sabemos que Deus criou o homem como representante da espécie… não há outro meio de defender a honra dos homens senão fechado as esposas a sete chaves».

Mas quem conseguem eles fechar?

Mas quem se deixa fechar?

Na luta operária

A indústria americana, jovem, florescente, ávida crescerá, em grande parte, à custa da dupla exploração do trabalho feminino. Na indústria de conservas de Chicago, nas lavandarias húmidas e sombrias das caves de Pittsburg a Nashville nas fábricas de algodão de Massachussetts e de Alabama, na indústria têxtil de Nova Iorque, as mulheres fazem a passagem à revolta.

Um decisivo aspecto para a busca dos caminhos que conduzem a Março, passa pela própria movimentação das mulheres operárias.

Nas crises em que mais dramaticamente se revela o desemprego e a inflação galopante, como no Pânico de 1837, elas encontram-se nas manifestações de massas «Give us work!» («Dêem-nos trabalho!»), é o seu grito de desespero e raiva. E encetam, também, cedo, uma luta específica. Em 1834, as trabalhadoras têxteis de Lowell, Massachussetts, em greve contra o corte de salários, chegam a manifestar-se nas ruas de Lowell, cantando.

«Oh não é uma pena que uma rapariga bonita como eu seja mandada para uma fábrica para sofrer e morrer? Oh eu não posso ser uma escrava, porque eu amo tanto a liberdade».

Neste mesmo centro operário, em 1841, operários fabris editam o seu próprio jornal Factory Girl’s Album, denunciando os baixos salários, as jornadas brutais em duração e cadências, os pagamentos em espécie.

Da consciência já específica dos seus problemas enquanto mulheres trabalhadoras nasce o Female Labor Association e, a partir de 1850, a organização de departamentos de mulheres no interior dos sindicatos masculinos.

E, finalmente, a 8 de Março de 1857, serão centenas de mulheres, vestidas pobremente, de xaile de lã, vindas das fábricas de confecção e calçado para as ruas de Nova Iorque. Trabalham 16 horas e reivindicam «o dia das 10 horas» que os homens empregados na cidade conquistaram há cerca de 17 anos.

Passam os dias em salas sombrias e pesadas e exigem «oficinas claras e sãs para trabalhar». Sofrem a ânsia de lucro dos patrões como mão-de-obra mais barata e querem «salários iguais aos dos alfaiates».

É ainda uma luta marcada pela urgência da necessidade, tem a marca da reivindicação meramente económica, mas como vislumbrar sonhos na agressividade dos dias de cansaço, exploração insana?

Mas elas, as mulheres do 8 de Março de 1957 abrem para outras exigências, outras reivindicações. Na greve têxtil de Lawrence, Massachusetts, em 1912, jovens trabalhadoras moleiras trazem nos estandartes que seguram nas mãos de trabalhadoras, a expressão de um outro querer, mais amplo, a dimensão do humano: “Pão e Rosas! Pão e Rosas!”. James Oppenheirmer canta estas mulheres em luta, pela luta das mulheres de todos os Marços.

“(...) à medida que marchamos, marchamos, lutamos também pelos Homens! Pois que eles são filhos das mulheres e nós somos novamente as suas mães. As nossas vidas não serão adoçadas, desde o nascimento até que a vida se feche; Os corações têm fome, tal como os corpos; dai-nos, mas dai-nos rosas.

À medida que marchamos, marchamos, inúmeras mulheres mortas gritam através do nosso canto, o seu velho grito por pão. Pouca arte, o amor e a beleza conheceram os seus espíritos escravizados. Jim é por pão que nós lutamos... mas lutamos também por rosas.

À medida que marchamos, marchamos, trazemos os dias maiores. A elevação da mullher representa a elevação da raça. Não mais o escravo nem o vadio... Mas uma partilha das glórias da vida: Pão e Rosas! Pão e Rosas!” - Joan Baezo cantará nos anos 60.

Nos passos, nos gritos das mulheres de todos os Marços, de todos os dias da sua luta subjacente a memória da vivência e experiência revolucionária da mulher americana do 8 de Março de 1857. A memória das lutas colectivas. Memória na qual se enraízam outras e outras lutas, este Dia.

Helena Neves, feminista, professora universitária e investigadora nas áreas de Filosofia, Sociologia, Estudos sobre o Género e História de Movimentos de Mulheres, foi deputada parlamentar do Bloco de Esquerda de 1999 a 2002.
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