O Governo de Zapatero parece um piloto
desnorteado. Não é capaz de apresentar uma linha de actuação
vigorosa. E quando anuncia medidas acaba por desdizer-se no dia
seguinte.
Por Albert Recio do Conselho Científico de ATTAC
Espanha.
I - Entramos numa situação
asfixiante. Com duas linhas de força que nos levam a isto: os níveis
de desemprego e o crescimento do défice. Os sofrimentos, medos,
necessidades da população sofredora parecem conjugar-se com as
reivindicações dos ineficientes e obscenos poderes financeiros.
Interesses contraditórios que se orientam num mesmo sentido: Façam
algo! Façam-no, rápido! Sejam contundentes! Muitos acrescentam: Não
temam medidas impopulares!
Perante esta pressão o Governo de
Zapatero parece um piloto desnorteado. Não é capaz de apresentar
uma linha de actuação vigorosa. E quando anuncia medidas acaba por
desdizer-se no dia seguinte. Nesta trajectória errática há muito
de desorientação intelectual, diante de um panorama imprevisto. Mas
também reflecte a dificuldade de articular uma resposta ao mesmo
tempo aceitável pelo cidadão comum (de quem depende
fundamentalmente a possibilidade de continuar no Governo após as
próximas eleições) e o que pedem "os mercados" (um eufemismo
para nomear os interesses do capital financeiro e dos rentistas à
escala global). Uma contradição que o próprio Governo é incapaz
de explicar e articular, o que reforça a sua imagem de imaturidade e
fragilidade, e dá maior credibilidade às vozes que clamam por
soluções enérgicas.
II - As situações de emergência
são propícias aos promotores de receitas simples. Jogam com a
vantagem da contundência das suas propostas e da presumida rapidez
dos seus efeitos. E obtêm fácil aceitação de alguns meios de
comunicação e de uma população doutrinada na cultura do "pronto
a consumir" e no seguidismo dos taumaturgos de plantão.
Não há maior simplicidade da que
oferecem as receitas neoliberais se, além disso, vão avalizadas por
aqueles que se supõe serem as melhores cabeças da ciência
económica nacional. Quem quer que analise em profundidade os
problemas da economia espanhola descobre facilmente que não existem
respostas simples. Transformar uma estrutura produtiva, que viu ser
desmantelado parte do sistema industrial (ou perdeu o seu controlo
local) e concentrou a sua actividade em torno da construção, não é
uma tarefa que se resolva a curto prazo. Absorver um exército de
reserva propiciado pelo modelo de desenvolvimento, agora colapsado,
não se pode fazer em pouco tempo. Alterar as enormes desigualdades
sociais que estão na base de muitos dos nossos problemas, incluindo
o recorrente tema do fracasso escolar, gerará resistências difíceis
de minar. Romper com uma cultura fiscal, que converte grande parte da
população em cúmplice dos grandes evasores e mantém a
depauperação do sistema público, exige um processo de acção
sustentado no tempo... Mas esta evidência choca, diante da urgência,
com a "matraca" de um discurso facilitista e injustificado que
vende, como únicas alternativas, uma velha lista de "reformas
estruturais" que na prática se reduzem a cortes nos direitos
sociais e laborais, a um emagrecimento do nosso anoréctico sector
público e a novas medidas liberalizadoras.
As urgências estão a servir também
para legitimar uma cultura política discutivelmente democrática.
Começando pela tentativa de legitimar a casa real, apresentando-a
como uma solução supra-política que soa mais a cultura absolutista
que a mediação efectiva. E continuando pela importuna insistência
de alguns meios de comunicação de que é tempo de caminharmos todos
juntos e seguir os conselhos da autoridade competente (leia-se
Governador do Banco de Espanha, "os 100 peritos", ou qualquer
outra figura da mesma camada). Em qualquer destes cenários voltamos
ao mundo da solução única, do tecnocrata ou do soberano salvador e
do acordo baseado nas imposições dos poderes fácticos (neste caso,
mercados financeiros, grandes empresas e tecnocracia neoliberal).
O Governo não está em condições de
superar este perigo. Nunca teve uma visão distinta da que oferecem
os seus assessores áulicos e da que exigem os poderes económicos
que balizam a sua actuação. E é de temer que, no final, a soma de
pressões do ambiente e a busca de uma imagem de actuação acabem
por propiciar uma política de pactos que signifiquem outra viragem
neoliberal. Não deixa de ser preocupante que na actual situação um
indivíduo como Duran Lleida, líder de um partido cheio de processos
de corrupção (alguns dos quais terminaram em condenações) se
apresente como a voz da razão e do bom senso do país. Na presente
situação a linha de pactos conduz a um caminho já trilhado, o da
reforma laboral de 1994, o de uma política fiscal que socave ainda
mais as possibilidades das políticas públicas reduzirem
desigualdades e ampliarem direitos sociais.
III - Estamos perante uma "ofensiva
do realismo mágico", diante de uma realidade que exige mudanças e
de receitas mágicas que impedem que sejam abordadas com seriedade. E
perante a realidade o que há é um vazio e umas poucas linhas de
resposta que mais têm a ver com instinto do que com a existência de
um projecto alternativo mínimo. Rejeitar os cortes na segurança
social ou no desmantelamento dos direitos laborais é o mínimo que
têm que fazer os sindicatos e o pouco que resta de esquerda
organizada. Mas vai ser totalmente insuficiente e retórico se não
houver capacidade de articular um plano alternativo para situar os
problemas e as respostas e se não se construírem diques defensivos
que sejam eficazes perante esta nova ofensiva do capital financeiro.
No plano da cultura económica há
vários terrenos onde se perderam batalhas e vários espaços que não
se cultivaram. Entre os primeiros a aceitação acrítica do modelo
europeu e da cultura da competitividade. O primeiro impede a
abordagem, com seriedade, de propostas de resistência e reforma
frente a um modelo institucional, o da União Europeia, que constitui
uma parte do problema. A segunda confunde os planos nos quais se deve
articular a política económica e conduz a uma completa submissão
cultural às propostas do capital. Uma submissão que acaba por se
cristalizar na forma como se abordam muitos dos problemas reais da
nossa sociedade: a questão dos tempos e a interacção entre
actividade mercantil e vida social, a estrutura das desigualdades, a
reconversão para uma economia ecologicamente sustentável, a
política educativa, etc. Há que começar a criar um quadro de
referência onde as necessidades humanas (sua relevância,
sustentabilidade), a equidade, a cooperação social, a democracia
estejam no centro do projecto. O que não evita ter que negociar com
resistências e poderes, ainda que permita fazê-lo a partir de
posições diferentes e ao mesmo tempo reconheça os obstáculos, as
resistências e as necessidades de actuação. Já sugeri noutras
notas: a partir de uma abordagem assim não só surgem culturas de
resistência, mas também propostas concretas de intervenção no
plano económico convencional: sectores e actividades a potenciar,
regulações do quadro económico etc. Permite também identificar
quem são os responsáveis dos problemas, quais são as resistências
reais a uma mudança de modelo. Na crise que temos vivido quase
ninguém deu nome e assinalou a responsabilidade que cada um teve no
processo que nos conduziu ao desastre.
No plano da proposta concreta creio que
há que partir da hipótese que, a curto prazo, vai ser difícil
lutar contra a austeridade e as reformas estruturais. Do que se trata
é de impedir que este discurso difícil de discutir se converta num
"panzer" demolidor de direitos que impossibilite qualquer
alternativa. E para isso há que realizar uma manobra envolvente
consistente revertendo o discurso dominante e transformando-o em
contrapropostas:
Por um lado, convertendo o discurso
vazio tipo "este país tem vivido no esbanjamento" no discurso
concreto sobre os espaços reais em que esse esbanjamento se produz.
Há uma importante possibilidade de gerar resistências nas respostas
baseadas na exigência de que os custos do ajustamento se concentrem
nos mais favorecidos (para provocar debate: talvez não possamos
impedir algum tipo de congelamento de salários no sector público,
mas deveríamos evitar que afectassem os níveis inferiores e
supusessem o corte de empregos nos sectores mais necessitados de
pessoal) e no corte de gastos, subvenções e ajudas realmente
desadequadas. E garantir direitos e níveis básicos de bem-estar a
todas as pessoas, fazendo o sector financeiro carregar com os gastos
que ele próprio provocou.
Por outro lado, transformando as
propostas de "reformas estruturais" em propostas de reformas
realistas. É, por exemplo, evidente que os problemas da balança de
pagamentos se devem a uma desadequação entre produção e consumo,
no que tem uma importância crucial tanto o modelo energético como
os consumos dos rendimentos mais altos, ou os modelos produtivos de
algumas grandes empresas. Defender modelos energéticos alternativos
ou promover uma tributação que desencoraje determinados consumos
são reformas que podem ir na boa direcção e mudar o quadro do
debate.
E há um campo processual que não pode
deixar de explorar-se: exigir que os tempos e as formas do debate
sejam aceitáveis. Penso na reforma laboral, frente à qual deveria
exigir-se um debate público organizado, informado. E na reforma das
pensões, onde a questão do envelhecimento da população pode ser
um facto iniludível mas não a reforma, nem qualquer ajustamento a
curto prazo. (...)
Texto publicado no site de ATTAC
Espanha
Tradução de Carlos Santos
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