Entrevista com Mohamed Sidati da Frente Polisario criar PDF versão para impressão
20-Mar-2010

Esquerda.net entrevistou Mohamed Sidati, Ministro Delegado para a Europa e membro do Secretariado Nacional da Frente Polisário sobre a presente situação do Sahara Ocidental.

O esquerda.net entrevistou o dirigente da Polisario em Granada, durante a Conferência Internacional de apoio ao povo saharauí realizada a 6 e 7 de Março passados:

Mohamed Sidati (MS): O povo saharauí luta, há mais de 34 anos, contra a invasão e a ocupação. Lutou contra o colonialismo espanhol desde 1973. A causa saharauí é uma causa nobre, o povo defende um valor universal, fundamental que é o direito à autodeterminação, o direito à liberdade. Creio que, lutando há tanto tempo e tentando continuar a lutar dentro do que é o critério e a norma de uma luta legítima pela liberdade, fê-lo e continua a fazê-lo com métodos pacíficos, porque tem a convicção que se pode conseguir vencer por via pacífica. O povo saharauí privilegia a via pacífica e continuará a lutar com todos os meios legítimos ao seu alcance

O que é que a comunidade internacional tem feito pela causa saharauí?

As Nações Unidas não fizeram o suficiente para garantir e proteger o direito à autodeterminação e permitir que o povo saharauí o exerça. As organizações internacionais e, sobretudo, as Nações Unidas reconhecem o direito à autodeterminação do povo saharauí. Proclamaram este direito, que normalmente se deveria aplicar. Porém, não houve muita firmeza com Marrocos para impor que se aplique o direito internacional.

A comunidade internacional é também uma correlação de forças, o que significa que há países, que até são membros do Conselho de Segurança, como por exemplo a França, que desde o início ajudou Marrocos a ocupar o Sahara e é hostil ao povo saharauí e à sua luta pela libertação. E França tem uma responsabilidade imensa, porque tem uma ambição colonial e se opõe ao direito à autodeterminação do povo saharauí. Mas sobretudo o papel também muito negativo que teve a potência colonial que é a Espanha. A Espanha foi a potência colonizadora tal como Portugal foi potência colonizadora de Timor Leste. A Espanha foi a potência colonizadora de Sahara Ocidental e, como sabem, abdicou das suas responsabilidades, abandonou o povo saharauí à sua sorte, e inclusive tornou-se cúmplice da invasão e da ocupação ilegal de Sahara Ocidental, assinando com Marrocos e com a Mauritânia um acordo tripartido para dividir o território e repartir as riquezas. Se a Espanha tivesse actuado de outra maneira teria permitido ao povo saharauí exercer o seu direito à autodeterminação e assim teria também mobilizado a comunidade internacional para evitar esta indiferença, esta marginalização, que se viveu em relação a este conflito, muitas vezes encarado como a crise esquecida, o conflito esquecido, o problema esquecido.

Penso que se Espanha tivesse assumido as suas responsabilidades a situação seria completamente diferente.

Como é a vida quotidiana do povo saharauí nos territórios ocupados?

A vida nos territórios ocupados em geral, e em particular em El Aiun, é uma vida muito difícil. Muito difícil pela simples razão de que é uma zona onde Marrocos estabeleceu um estado de sítio excepcional. Não há liberdade de movimentos, não há liberdade de expressão, nem possibilidade de associação para os saharauís. Vive-se uma ocupação, as pessoas têm medo. O medo prevalece, há um sistema que é muito parecido a algo como o terror de Estado, com o exército, a polícia, todos os corpos de repressão. Dito isto, direi também que quando há repressão também há resistência. Encontramo-nos num ciclo de repressão/resistência e portanto as populações recusam esta situação e tentam à sua maneira, cada um em seu sítio, resistir e isso nos indica o que é uma situação de ocupação e uma população civil desarmada, sem defesa, que está a tentar lutar de peito aberto para tentar defender a sua dignidade e com a esperança de recuperar um dia a sua liberdade.

Que mensagem gostava de dizer ao mundo?

Não só esta luta é exemplar, como o que se está a defender no Sahara Ocidental são valores universais de liberdade, de justiça, de independência, do direito a viver e à dignidade e sobretudo pela Paz, pelo desenvolvimento e pela convivência entre os povos, porque o povo saharauí aspira a ter relações privilegiadas com todos os vizinhos inclusive com o povo marroquino. Então, eu creio que devido a esta mensagem, os valores que estão contidos na essência da luta do povo saharauí são os nossos valores, mas são também os valores da comunidade internacional, valores universais, elementares, fundamentais, pelos quais estamos a lutar. Nós saharauís dizemos que estes valores são mais importantes que o nosso pão. A sua defesa e a resistência são o pão nosso de cada dia.

Leia notícia anterior no esquerda.net:

"Espanha e UE dobram-se perante o regime totalitário de Marrocos"

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