EUA: Entrega de correio ao sábado ameaçada criar PDF versão para impressão
29-Mar-2010
Carteiro do USPSO Serviço dos Correios Norte-Americano prepara-se para cortar 50 mil postos de trabalho, acabando com a entrega de cartas aos sábados, serviço que é prestado desde a sua fundação por Benjamim Franklin em 1775. Por Tom Eley


O Serviço de Correios Norte-Americano (USPS), preparando-se para conter as largas perdas operacionais, pediu maior "flexibilidade" para controlar os custos laborais e propôs o fim da entrega da maior parte do correio aos sábados. O Director-Geral dos Correios dos Estados Unidos, John Potter e outras autoridades delinearam os cortes numa conferência de imprensa.

Potter informou que o USPS já tinha diminuído a sua mão-de-obra em 200 mil na última década, ainda que o número de endereços postais dos Estados Unidos tenha aumentado em 18 milhões. No ano passado reduziu o seu pessoal em 40 mil. Em 2010 atingirá os 30 mil cortes no emprego, o que, em conjunto com as reduções ao pagamento de horas extras aos trabalhadores, será equivalente a cortar outros 20 mil empregos.

O Serviço de Correios dos Estados Unidos tem vindo a perder dinheiro desde 2007, uma consequência da crise económica e da substituição do correio de papel pelas comunicações via Internet. O volume de correio caiu de 213 mil milhões em 2006 para 177 mil milhões em 2009 - mesmo assim cerca de metade do total global. Potter disse que espera um défice de 7 mil milhões de dólares para o ano fiscal em curso e que as "projecções para o futuro não são brilhantes."

Segundo uma análise interna, em 2020 o Serviço de Correios poderá vir a enfrentar um défice de 238 mil milhões de dólares. Embora sendo uma agência governamental, não recebe agora qualquer apoio federal. Isto é o resultado de uma série de medidas de "auto-suficiência" aprovadas no início de 1970 e que foram planeadas para reforçar os "princípios de mercado" e cortar custos. No entanto, o Serviço de Correios tem sempre a capacidade de adquirir apoios do Tesouro Norte-Americano e contratos com o governo para providenciar determinados serviços.

O governo federal concede ao USPS o monopólio sobre a entrega de cartas não-urgentes e os direitos exclusivos sobre caixas postais e caixas de correio. Em troca, é-lhe exigido que ofereça um serviço de correio a custos universais para todos os Estados Unidos e precisa de obter aprovação regulamentar para alterar as suas taxas e algumas práticas laborais.

Potter disse que iria apresentar propostas à Comissão Reguladora dos Correios, que, por sua vez, emitirá então um parecer consultivo ao Congresso. Este necessita aprovar quaisquer alterações ao Serviço dos Correios que sejam do âmbito nacional.

Também revelou os resultados da análise conduzida por três empresas de consultadoria externas sobre a saúde financeira a longo prazo dos Serviços dos Correios. As empresas excluíram a total privatização - pelo menos a curto prazo. Os seus principais competidores privados, UPS, Federal Express e DHL, que no ano passado abandonaram o mercado norte-americano, também sofreram enormes perdas operacionais.

De acordo com Potter, a essência do prognóstico das firmas de consultadoria é que o Serviço dos Correios tem regulamentação em excesso, é incapaz de aumentar as taxas, de limitar os serviços, colocar trabalhadores em "lay-off" e alterar as pensões e o serviço de saúde conforme faria uma organização totalmente privatizada. Por outras palavras, o USPS tem de ter autonomia para encerrar postos de correios, limitar as entregas e atacar os empregos, salários e benefícios dos seus trabalhadores, de modo a conseguir alcançar a sua condição financeira prevista a longo prazo.

A primeira restrição deste plano parece ser o fim das entregas aos sábados, que resultará numa substancial redução dos custos laborais. Por causa das entregas durante seis dias, o serviço necessita, actualmente, de uma média de seis carteiros para cobrir cinco rotas de distribuição. De acordo com um relatório efectuado, ao dispensar o serviço ao sexto dia, o USPS não terá que recrutar substitutos para os 300 mil trabalhadores de correios que se espera entrem na reforma na próxima década.

Desde a sua fundação por Benjamim Franklin em 1775, o Serviço dos Correios sempre efectuou entregas ao sábado. As entregas ao domingo acabaram em 1912, em resposta ao pedido feito pelos dirigentes religiosos preocupados com o declínio da frequência às igrejas.

Potter também pediu ao Congresso para acabar com a norma dos Serviços de Correios de pagar antecipadamente aos trabalhadores os seus planos de reforma, o que ele estima resultará numa poupança anual de 5,5 mil milhões de dólares ao USPS. Por outras palavras, Potter está a exigir o "direito" actualmente usufruído pela maior parte das agências federais, estatais e locais de intencionalmente subfinanciarem e, por conseguinte, conduzirem à falência, estes planos de benefícios. Numa recente inspecção efectuada pelo Pew Center on the States verificou-se que os estados apenas financiaram 5% do total da obrigação dos fundos de saúde para futuros trabalhadores estatais reformados e seus dependentes.

No ano passado, o Congresso aprovou legislação que permite ao USPS cortar nas contribuições aos reformados dos benefícios dos planos de saúde em 4 mil milhões de dólares. Isto deu origem a uma redução de 6 mil milhões de dólares nas despesas para 2009 - ainda assim insuficientes para evitar um défice operacional.

O USPS irá também reduzir os custos laborais, ao cortar no número de horas de trabalho, instalando mais quiosques de "self-service" e pedindo aos quatro sindicatos que cobram cotas dos trabalhadores dos correios para aderirem à crescente utilização do trabalho a tempo parcial.

Em último caso, o Serviço de Correios pode equilibrar o seu orçamento se apenas cortar nos empregos. O corte nos empregos e a reduções das pensões resultantes das propostas de Potter terão um grave impacto. Com um efectivo de cerca de 600 mil funcionários, o USPS é o segundo maior empregador privado do país, a seguir ao Wal-Mart.

No ano passado, o USPS disse ter desenvolvido um plano para encerrar uma considerável maioria das suas filiais e estações, 3.105 de 4.851. Muitos destes encerramentos iriam atingir áreas metropolitanas. O plano requer aprovação do Congresso.

O iminente corte nos empregos e o fim das entregas ao sábado, de muitas maneiras, marca o desfecho da greve dos trabalhadores dos correios de 1970. Naquele ano, os trabalhadores, começando na cidade de Nova York, desafiaram uma proibição de greve nos Serviços dos Correio e uma ordem do Presidente Richard Nixon para voltar ao trabalho, passada na televisão nacional. A greve, que envolveu para cima de 200 mil trabalhadores, terminou depois de o presidente Nixon ter chamado as forças militares norte-americanas à cidade de Nova Iorque e outras localidades -

24 mil soldados no total - aparentemente para fazerem a entrega do correio, mas, de facto, a intenção era intimidar os grevistas.

A greve resultou directamente na Lei da Reorganização Postal de 1970. Em troca pela instituição de um acordo colectivo como um princípio dos Serviços de Correio, o Departamento dos Correios foi abolido como gabinete departamental e reorganizado nos moldes de uma corporação de negócios, no qual o financiamento público seria faseadamente suprimido a favor da auto-suficiência. A longo prazo, isto só poderia ter sido alcançado através do aumento das taxas de envio, reduções das "ineficiências" e baixando os custos laborais.

Os sindicatos, que participaram directamente na elaboração legislativa e que, em conjunto com a administração dos Serviços de Correios, aprovaram a sua legalização, também concordaram com a continuação da proibição às greves dos funcionários federais. Ao fim de um ano, um número destes sindicatos juntaram-se para formar o Sindicato Americano dos Trabalhadores dos Correios, que actualmente diz representar cerca de 330 mil trabalhadores.

3 de Março 2010

Postado no Blog for Peace and Freedom

Tradução de Noémia Pontes de Oliveira

{easycomments}

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
tit_todosdosiers.png
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.